quarta-feira, 31 de março de 2010

Juan & Javier

Juan & Javier

Estava à conversa junto ao muro que dá forma à saída do Metro quando os vi e disse:
- Vou ali fotografar aqueles dois. (como se lá por achar que quero fotografar alguém isso signifique que alguém haverá de querer ser fotografado por mim)

O espírito do post já tinha começado – sem disso poder sequer desconfiar – umas boas semanas antes quando descia a Rua da Rosa à conversa. Vi uma loja que não conhecia. El Ganso. Soou-me familiar e o meu amigo assegurou-me de que não se falava outra coisa em Espanha. Gostei do que vi mas ando com pouca pachorra para lojas e pouco dinheiro para lá gastar. Ficou para uma próxima.

- Uma foto?
pode ser” disseram eles. Estranhei, espanhóis a falar português correctamente. “vivemos cá” explicaram. À noite tinha o e-mail da praxe a pedir as fotos. O agradecimento à minha resposta veio com um convite para visitar a loja deles, no 31 da Rua da Rosa. “Rua da Rosa”, “loja”, “espanhóis”, havia ali déjà vu. “El Ganso!” lembrei-me. Escrevi a perguntar e responderam-me precisamente o que queria ouvir (tenho um certo fetiche por coincidências, vocês não?).

A loja é gira, muito gira. Comprei um pull-over (repito, não nado em dinheiro, na verdade, não tenho bem onde cair morto; fiz-me entender? isso mesmo, aquilo nem é caro de todo). Pull-overs, casacos, calças, calções e ténis, muitos ténis. Para elas também. Vestidos incluídos. Daqueles que apetece tocar (ou levantar…dependendo de cada um, cada qual e do respectivo contexto)

P.S. – a minha paranóia por este blogue não chega ao ponto de comprar o que quer que seja para tornar um artigo mais convincente. Ou pelo menos… (ainda não). Vale a pena, a sério vale mesmo... 31 da Rua da Rosa

domingo, 21 de março de 2010

Sexy mother fuckers* (quem dera a mim)

Sexy mother fuckers (quem me dera a mim)

* refering to an attractive person. someone who is extremely hot. someone you want to do the second you lay eyes on them (in urban dictionary)

sexta-feira, 19 de março de 2010

Conversas imaginárias com o avô no dia do pai



- Fala-me lá do teu blogue.
E eu pensei “se tivesse nascido nos anos 20, por mais loucos que tivessem sido, dificilmente perceberia”. Mas lá lhe falei. Assim com meias palavras, a projectar a voz para o lado como quem fala sem querer ser ouvido. Por regra o tema exalta-me mas com o avô senti-me levemente constrangido. Não que não me orgulhe disto. Aliás, por mais revolta que desperte nos anónimos, heterónimos e pseudónimos que volta e meia vêm aqui lembrar a bela merda de blogue que tenho, há que reconhecer que esta merda (bela ou não) me parece a única coisa digna que fiz até hoje.

Eu sei avô. A coisa não começa bem. Qualquer coisa que se chame blogue não lhe deve merecer grande crédito. Fotografar pessoas na rua também não. E acredito que fotografá-las por aquilo que elas vestem só consiga fazer parecer tudo pior. Mas no outro dia quando liguei para aí, a avó, antes mesmo de lhe passar o telefone, disse-me que o avô se tinha emocionado quando ouvia a minha voz num programa de rádio. Fiquei meio sem jeito, sem saber que dizer. Eu sei que o avô era tramado com o meu pai e, para lhe ser franco, não é fácil imaginá-lo comovido. Também nunca vi o meu pai chorar e, para lhe ser completamente franco, ele também não foi sempre dócil comigo. Mas reconheço duas coisas: que não me imagino um pai particularmente meigo e que, não me venham cá com merdas, a disciplina com que se trata um filho em criança fará dele mais homem em adulto. E é mesmo assim, não é? Há sempre coisas complicadas entre um pai e um filho. Ser neto será sempre mais fácil.

Sabe avô...estas pessoas que eu fotografo, são sempre pessoas que me merecem um segundo olhar. Olho uma vez, olho uma segunda por reflexo e só depois as abordo. Por vezes é um processo tão rápido que nem o chego a interiorizar. Também percebo que tudo lhe soaria mais legítimo se olhasse para trás em busca duma forma feminina ou dum pedaço de carne destapada em vez dum casaco, dumas botas ou dum chapéu. Mas vou-lhe dizer sobre o que é este texto. Sobre sentir-me na necessidade de lhe explicar a minha sensibilidade. E de lhe explicar que ela é também parte da minha virilidade. Mas é apenas com o avô que me sinto forçado a fazê-lo, como se fosse o único homem no mundo a quem não tivesse tido oportunidade de o demonstrar. Porque, quer queiramos quer não, é aos nossos ascendentes que sentimos mais necessidade de provar o que quer que seja. E sempre que me vê me pergunta pelo mundo feminino e é quase sempre que o vejo que lhe respondo com evasivas masculinas. E verdade seja dita, foi com o avô que tive mais perto de ter a conversa das abelhas, esse confrangedor diálogo que o meu pai teve a gentileza de me dispensar. Mas sabe avô, quando olho por trás do ombro vejo que sensibilidade e tesão andaram sempre de mãos dadas na minha vida. Que as melhores fodas foram sempre aquelas em que as palavras mais porcas me pareceram as mais ternas, aquelas em que os abraços subsequentes ao derrame da minha virilidade me souberam tão bem quanto aqueles divinos dois segundos que precedem a ejaculação. Desconfio que nos tempos de hoje se exija a um homem que seja tão proficiente a acarinhar uma mulher como a comê-la, tão voluntarioso a apoiá-la quanto a defendê-la e tão dedicado a amá-la como a protegê-la. Eu sei que para o avô é importante ter um neto viril. Eu sou-o à minha medida e sem pretensão de o ser à imagem de mais ninguém mas confesso, gostava de o ser também à sua. Não me imagino a impingir estas exigências a um descendente meu mas aquilo que um dia exigir àqueles que vou amar não tem que ser a exacta medida daquilo que me exijo a mim. E a mim exijo impressionar o avô. Depois do pai, o avô. Mais que mulheres, amigos ou leitores dum blogue. O avô. Impressionar o avô

quinta-feira, 18 de março de 2010

sexta-feira, 12 de março de 2010

O gajo que me fez os cartões tem um granda estilo

O gajo que me fez os cartões tem um granda estilo

A ideia dos cartões vem desde o início. Achei que era agradável entregar um cartão a quem fotografasse ou a quem abordasse para o fazer. Dispensavam-se papelinhos, canetas, “escreva nas minhas costas”, “leva um “o” antes de “alfaiate””, “não é Lisboa, é l-i-s-b-o-e-t-a” etc, etc. O processo ficaria mais simples e, seguramente, mais elegante. Por outro lado estávamos em Janeiro de 2009, tinha meia dúzia de posts publicados e nada me garantia que não perdesse o ímpeto inicial no espaço de um ou dois meses. Mandei fazer os cartões primeiro, as respostas às minhas dúvidas vieram depois.

Mas o Rui Quinta não é apenas o gajo dos cartões. O Rui foi dos poucos amigos que me disse, antes de iniciar o Alfaiate, “ideia gira, vai em frente”. E é por essas (e por muitas outras) que sempre que algo de bom acontece com este blogue o número dele é o primeiro que ligo. E é por essas e por outras, que vou continuar a ligar. Porque repito, o Rui não é apenas “o gajo dos cartões”. O Rui é o amigo a quem ligo a perguntar “tens aí cartões do Alfaiate?” quando dou conta que tenho a meu lado o Dr. Ricardo Espírito Santo Silva Salgado – que está mais ou menos para mim como está o Papa para qualquer Católico Apostólico Romano – e nenhum cartão no bolso. O Rui é o amigo que me aparece à frente em dois minutos com os ditos cartões e me pergunta em jeito de afirmação: “mas o que é que tens a perder?!”. Porque para estendermos a mão ao nosso chefe supremo e lhe apresentarmos o nosso próprio projecto é necessário deixar de lado o receio de fazer figura de parvo. Porque acredito que, com peso conta e medida, é da capacidade de deixarmos de lado esse mesmo receio que muitas conquistas são feitas. Porque é de figuras, mais ou menos parvas, que este blogue é feito. Mas já que as faço, que as faça com estilo. O parvo já se sabe…sou eu, o estilo é com este senhor...com os cartões deste senhor

quarta-feira, 10 de março de 2010

terça-feira, 9 de março de 2010

sexta-feira, 5 de março de 2010

quarta-feira, 3 de março de 2010

O Principezinho

O Principezinho

(houve um dia, já crescido e sem cachecol, que se fartou de cativar a Rosa e flirtar com a Raposa e apanhou uma ligação lowcost do seu asteróide para Londres)

Nunca vos aconteceu alguém falar convosco mas uma voz, uma outra, talvez a nossa própria, se sobrepor à do nosso interlocutor e ali estamos nós de olhos fixados em quem nos dirige a palavra, acenando cinicamente com a cabeça enquanto o nosso pensamento nos foge? Acho que este rapaz – bastante simpático diga-se – me disse que usava uma máquina igual à minha. Deve ter sido isso já não sei bem…porque, do que a tal voz me falou foi duma viagem a Paris e não a Londres, em Dezembro de 2002, que de tanto ouvir um amigo fazer citações à personagem que este miúdo me lembrou, acabei por reler a obra. Mas não foi fácil convencer-me. Na viagem estava mais preocupado com o incómodo desarranjo intestinal que o paspalho que estava ao meu lado tinha e, durante a estadia, com a dúzia de croatas que tínhamos conhecido. E quando o outro me vinha com as citações do Principezinho respondia-lhe “está bem…está bem” e virava-me de imediato para uma das duas ou três croatas que me tinha proposto a cativar (ou lá o que lhe quiserem chamar). Optámos pelo que de menos inteligente havia a optar ao achar que era engraçado passar a meia-noite de dia 31 nos Campos Elísios. No meio da confusão perdi-me deles. Um amigo meu saiu-se um dia com uma frase engraçada (verdadeira ou não, pouco interessa) segundo a qual: “As croatas não são boas, são muito boas”. A verdade é que esse argumento não me sensibilizou muito e passei 3 horas a evitá-las e a procurar desesperadamente os meus amigos. E percebi que das piores coisas que nos podem suceder é sentirmo-nos perdidos no meio de uma multidão festiva. E foi aí, na plena amargura de passar tão mal uma noite que se imagina tão boa, que vivi um dos meus momentos de maior felicidade – daquela pura e instantânea, como que servida em pequenas doses concentradas ao estilo da adrenalina – quando, já sem grandes esperanças, encontrei e abracei os meus amigos.

E sim…acho que é verdade: “somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos

E sim "acho" que também é verdade...o paspalho com o desarranjo intestinal era mesmo eu

segunda-feira, 1 de março de 2010

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Um rapaz e o seu boné

O rapaz e o seu boné

Tenho um certo fascínio por estes bonés. Talvez porque me evoquem o homem britânico, talvez porque me evoquem o homem alentejano. O primeiro é um fascínio infantil – que ainda sinto quando percorro as ruas de Londres – que me remete para padrões axadrezados, aquele delicioso sotaque e a concretização de que o verdadeiro cavalheiro… é o cavalheiro britânico. Qual fascínio antigo pelo Roger Moore, qual admiração pacifista pelo Gary Lineker [que em toda a carreira não viu um único cartão amarelo (como é que é possível?!)] a provar que até mesmo no que diz respeito ao futebol aquela ilha não é feita apenas de selvagens agressivos (e já agora…dêem lá uma vista de olhos nestes supostos…). O segundo, a consequência óbvia de umas quantas costelas alentejanas e da presença assídua lá em casa, dum grupo de amigos dos meus pais que faz gala em acentuar um sotaque que, uns já o perderam outros nunca o tiveram e que, à medida que as suas faces vão rosando, mais insistem em se tratar por “compadre” e entoar cânticos, à real imagem e medida dum daqueles bonitos anúncios ao Azeite Gallo.

Agrada-me particularmente ver homens jovens com estes bonés. E confesso-vos, se não me fizessem ar de parvo usava-os diariamente. Tanto gosto que já tinha escrito aqui, há coisa de um ano, em Um homem e o seu boné

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

domingo, 21 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

domingo, 14 de fevereiro de 2010

O Valentim é um gajo tramado



(aos meus amigos)

O Valentim é um gajo tramado. Deixa uns felizes e outros nostálgicos. Ainda há dias me bateu uma certa melancolia por não ter que fazer qualquer telefonema antes de marcar férias. Não ter que dar satisfações faz muito o meu género mas confesso que senti falta da obrigatoriedade de, antes de perguntar aos meus colegas quando as iriam gozar, fazer a tal chamada à tal pessoa para tentar elaborar um plano A, B e C de calendarização de viagens, momentos divertidos num destino desconhecido e sexo num quarto de hotel.

A rondar os 30 metade dos meus amigos tenta perceber se preferia ter passado a noite de ontem a tentar transmitir o quanto se gosta de alguém a esse mesmo alguém, se a dosear álcool e charme na festa de solteiros que organizámos. Metade dos meus amigos não sabe se preferia passar os fins-de-semana numa doce e repetitiva calmaria se a tentar dormir com a metade da cidade com que ainda não se deitou. Esta treta do mundo globalizado é muito engraçada mas o conceito de “estar ligado” a toda a hora e a todo o mundo pode tornar-se um bocado assustador quando se fala de amor. Temos 1001 solicitações, 1001 hipóteses e 1001 alternativas e isso faz com que a condição de solteiro se torne num admirável mundo novo de oportunidades engraçadas, festas exóticas e experiências sexuais inauditas. É claro que é precisamente a existência desse custo de oportunidade que mais valor dá ao momento em que decidimos escolher alguém para ficar ao nosso lado, e soar-me-á sempre um tanto ou quanto dúbio, nos dias que correm, que alguém se queixe de não ter tido oportunidade de conhecer o mundo (e quem o povoa) em dose suficiente para que tivesse podido fazer a sua escolha acertada. No outro dia um amigo falava-me na sua nova namorada e o meu primeiro reflexo foi – enquanto metade do meu cérebro gritava à outra “até tu Brutus?” – perguntar se tinha Facebook. Quando me respondeu que não, achei que era uma das melhores qualidades que se podia encontrar numa namorada – não ter Facebook – nem que fosse para evitar um dia, quando tudo acabar, darmos por nós a fazer a triste figura de entrar na sua página e tentar perceber quantas pessoas mais interessantes que nós (entenda-se, com uma fotografia de perfil mais apelativa que a nossa) já adicionou depois de nos dar com os pés.

Os trinta parecem ter o seu encanto. A linha abdominal ainda se confunde com a daqueles miúdos giros que, mais semana menos semana, começam a povoar as praias da Linha e as áreas de cabelo esbranquiçado que aparecem sem avisar parecem conferir-nos algum charme. Sabemos mais, vivemos mais mas nada me assegura – e isto, confesso, já me assusta – que daqui a dez anos não nos estejamos a tentar vender o mesmíssimo discurso em frente ao mesmo espelho, enquanto apreciamos a mesma linha abdominal mais dilatada e nos concentramos, não na mesma descoloração do cabelo, mas na sua inexistência. E aí recordo com receio, o discurso de um antigo colega meu, solteirão eterno, que me conseguia perturbar com o seu orgulho macabro no número de mulheres casadas que dizia já ter comido. A mesma perturbação que senti no outro dia, no buffet de Serralves, por culpa duma linda quarentona que lá estava sentada. O olhar daquela senhora tão distinta fazia-me sentir também distinto e, imagino, que o meu olhar de miúdo a fizesse sentir mais viva. Dizia-me uma amiga que tudo isto é normal e que o importante, como tudo na vida, é traçar os limites e encontrar um equilíbrio. A mim nada disto me parece tão claro e imagino esse equilíbrio tão Yin-yang a resvalar, de um momento para o outro, para um malabarismo circense ou mesmo, se me permitem a badalhoquice, para uma casa de banho pública. Só sei que momentos depois, quando chegaram marido e filhos e aquele homem se apercebeu do que interrompia, me limitei a baixar a cara, mais por vergonha que por receio de apanhar um murro bem dado. O mesmo murro que me esforçaria por conter se fosse dar com um puto, com pelos na cara mas imberbe de espírito, entretido a revitalizar o sex appeal da minha mulher.

O Miguel Esteves Cardoso escreveu um dia que “O amor é fodido” e eu deduzo que não o tenha feito apenas para conseguir vender exemplares a miúdas de 15 anos como aquela de quem eu gostava quando o livro saiu. Sou o primeiro a plagiá-lo mas não foi isso que senti a semana passada quando fui visitar o amigo que me traduzia os textos para a versão inglesa do blogue. Ia decidido a recorrer a tudo para o convencer a voltar a fazê-lo mas quando lá cheguei, deparei-me com 15 meses de vida e um sorriso desdentado a correr desajeitadamente para os braços dele. E naquele momento senti-me ridículo. Senti-me ridículo por me ter passado pela cabeça fazê-lo gastar tempo da sua paternidade com a porcaria dos meus textos. Andámos juntos na escola, partilhámos carteiras e fizemos os mesmos trocadilhos irritantes que esgotavam a paciência à nossa professora de Inglês. Quando foi viver com a namorada ainda eu nem sabia bem o que era ter uma e no dia do seu casamento ocorreu-me, antes de mais nada, toda a liberdade que estava a pôr de lado. Mas hoje, as contas que faço são outras e, para ser completamente franco, invejo-o em parte. E neste ponto recordo-me de um outro amigo e do que ele me contou um dia. Um dia, um outro dia, quando uma namorada sua deixou cair o corpo nu por cima do dele e lhe disse ao ouvido, num tom tão terno que ele só julgava existir na voz da sua mãe:
- Foi tão bom Zé.
E naquele momento, mais que o orgasmo, ele achou que ela lhe agradecia tudo o resto: o companheirismo, a ternura, a protecção, as vezes que sorriu pelo sorriso dela, as vezes que chorou com as lágrimas dela e por tudo o resto que nunca teve que fazer mas que ela sabia que ele estaria disposto. É claro que Zés há muitos e amigos imaginários também mas todos sabemos que seja na minha, na vossa vida ou na do meu amigo imaginário são momentos como este que perduram. Mais que engates, noites loucas ou admiráveis histórias para contar em jantares de mancebos. Mais até que as cenas cortadas da vida que não se expõem num blogue. Mas é o que eu vos digo, o Valentim é um gajo fodido

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Juro que não tenho nada a ver com as rosas

Juro que não tenho nada a ver com as rosas

Acho que já o disse aqui. De moda percebo muito pouco e de expressões fashionistas ainda menos. Fotografo o que gosto e o que me apetece e foi com esse intuito que iniciei este blogue. Se dominasse a tal gíria haveria certamente mil e um adjectivos para os empregar aqui. Mas não domino. Por isso mesmo tudo o que me apetece dizer é que, por mais que a imagem o possa sugerir – juro-vos – não fui eu que lhe ofereci aquelas rosas

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

(com todo o respeito...) O velho Ayres

O velho Ayres
O velho Ayres (2)

O neto já me tinha avisado mas não lhe prestei a devida atenção. O Sr. Ayres é um homem especial. Percorre o Porto como se a cidade lhe pertencesse, fala com orgulho dos fatos que já criou e dos colunáveis que já vestiu. Diz o que lhe apetece, da forma que lhe apetece e a quem lhe apetece. Fez troça do meu casaco, de como se vestem algumas figuras públicas e dos miúdos que "perdem horas ao espelho a decidir como se hão-de vestir para que pareça que não se olharam sequer ao espelho" [adaptação de uma frase que me ficou na cabeça (que é o eufemismo para plágio descarado) que li um dia aqui]. Diz que o mais importante num fato são os “ombros e as mangas” e apelida de “farrapada” tudo aquilo que não é feito por medida. Disse muito mais mas estas são as primeiras coisas que me ocorrem. Quando meti a cunha ao neto para o fotografar não podia imaginar alguém assim. Por um motivo muito simples, nunca tinha conhecido ninguém assim

domingo, 7 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Tons claros numa cidade escura

Tons claros numa cidade escura

É provavelmente a imagem mais bonita que trago de Londres. Podia ter sido um daqueles bairros cocós hiper arranjados, qualquer um dos parques que lá há ou a soberba italiana que o meu amigo engatou no Chinawhite. Mas não, é esta miúda à chuva.

Acontece imensas vezes dar-me conta de alguém interessante para fotografar tarde de mais para que o possa fazer. Porque encontrou alguém e parou à conversa, porque não me apetece fazer os 30m metros barreiras em plena Rua do Carmo ou porque simplesmente me acanho (também acontece…muito raramente mas também acontece). Com esta miúda foi diferente. Passou por mim, voltei-me e achei que valia todas as diligências adicionais que me fossem possíveis. Mas antes de mim chegou um comercial aguerrido que não descansou enquanto não a convenceu a subscrever uma publicação qualquer. Esperei. Esperei 10 minutos à chuva. Para isto. Tirei 2 fotografias e dei-lhe o cartão do blog. O tempo não estava para conversas. Mas valeu não valeu?

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Ayres - Um alfaiate portuense em Savile Row



Este post começou a ser desenhado em pleno dia de Natal quando, espantado por ver uma fotografia deste “vizinho” seu, o Ayres me escreveu dizendo que, se algum dia regressasse a Savile Row, teria todo o prazer em me receber no atelier onde trabalha. Esperem lá, não é bem isto. Assim é que é: este post começou a ser desenhado em 1960, no 120 da Rua Gonçalo Cristóvão no Porto quando um outro Ayres, avô deste que aqui vos trago, abriu a Ayres Alta Costura, onde se vestiam ilustres portuenses como o José Maria Pedroto ou o Francisco Sá Carneiro. Foi neste ambiente que o Ayres cresceu e foi por alturas da sua adolescência que decidiu que rumo queria levar. Ainda hoje, numa das gavetas da sua mesa de corte – a que vêem na foto – traz um livro chamado Sistema Maguidal que aparenta um ar mais gasto que os Missais do século XVIII da minha mãe. Esse livro tem uma morada – a Rua da Palma em Lisboa – e o Ayres desceu até cá para saber se havia quem o pudesse ensinar. O velho Mestre Alfaiate ainda lá estava mas já não se achou em condições de leccionar. “Não consegues em Lisboa vai a Madrid” pensou consigo e foi lá que acabou a fazer um ano de curso intensivo na “La Confianza” (Escuela Superior de Sastreria, Sociedad de Sastres de España) e a trabalhar com o ilustre alfaiate D. Pedro Muñoz (número 72 da Calle Serrano), que quase levou o Ayres à comoção quando lhe disse o mês passado em Florença, em plena Pitti Uomo, que se mantinha informado sobre a carreira do seu pupilo.

Eu tenho 29, o Ayres 28, era de adivinhar alguns pontos em comum Quando cheguei àquela enorme loja e pedi que o chamassem aparece-me um portuense enérgico, com uma camisa colorida e uns suspensórios encarnados – um visual completamente distinto de todos os outros que lá trabalham. Eu gosto de falar de pessoas e a minha condição é a mais simples de todas – gostar delas. E eu gostei do Ayres desde o 1º e-mail. É do Porto mas namora uma lisboeta e Portugal já se sabe, tem semelhanças com um enorme open space. A conversa segue e percebemos que cresci a 300 metros da namorada e que, bem exploradas, as coincidências não ficariam por ali (viriam à baila mais tarde, já no Soho, na companhia do meu melhor amigo e de um vinho branco mediterrênico mas, what happens in London stays in London, não é assim?). O Ayres está na City londrina há mais de 3 anos e quando lá chegou não lhe faltou coragem para ir ao nº1 de Savile Row London procurar trabalho. Acabou compensado, saiu de lá com emprego. Mas o seu futuro arrisco, está na sua marca pessoal – a Ayres – e nos fatos e nas camisas que começou um dia a fazer para os amigos.

No mesmo sítio onde ouvi o Ayres contar-me tudo isto, esteve um dia a Camila Parker Bowles, enquanto o nosso amigo ultimava detalhes para entregar em mão um fato assertoado cinza rato de pura lâ virgem ao Príncipe Carlos. Não tenho queda alguma por personalidades, não encontro sentido nas Zonas VIPs das discotecas portuguesas e dou por mim a não saber o nome de metade das figuras que por lá passam. Mas se vos dissesse que não fiquei impressionado com a ideia de o Príncipe de Gales ter ali estado para que lhe fosse entregue em mão o seu fato novo mentir-vos-ia descaradamente. Quem também se deixou impressionar foram os media portugueses que não o largaram quando souberam disso. Fica aqui este pequeno exemplo que me vai impedir um dia, quando o Ayres for um grande alfaiate lisboeta ou portuense, de dizer “fui eu quem descobriu este gajo”.

Um abraço Ayres. Mas um pedido também. Este fim-de-semana vou finalmente ao Porto, pões-me uma cunha para fotografar o teu avô?

domingo, 31 de janeiro de 2010

Ray Frensham – o melhor de fotografar fora de Lisboa é fazê-lo precisamente com aqueles que nunca seria possível encontrar por cá

Ray Frensham – o melhor de fotografar fora de Lisboa é fazê-lo precisamente com aqueles que nunca seria possível encontrar por cá

Havia quem insistisse que um dia, uma das minhas curtas sessões de fotos se prolongaria para um café. Eu neguei sempre mas hoje teria que lhe dar razão - convidei o Ray para tomar um expresso enquanto pseudo almoçava e fui escutando-o sorridente. No mesmo dia em que o fotografei, este distinto cavalheiro ia ser entrevistado para esta reportagem da BBC. Considerado um dos homens mais excêntricos do Reino Unido e membro de um clube exclusivo para o qual, numa realidade portuguesa, nem os nomes pomposos que herdei da minha mãe me abririam portas, não consigo deixar de descobrir uma espécie de orgulho juvenil neste homem de meia idade. Coleccionador, escritor, blogger, o Ray tem uma queda monumental por trajes vitorianos e no fundo, o seu discurso oscila entre “sou um tipo normalíssimo” e o “ok está bem, sou um bocadinho diferente”. Sinceramente fiquei sem perceber; certeza apenas uma – o encanto de fotografar fora de Lisboa está todo aqui

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

African flavour

African flavour

Há coisas que se calhar, o melhor mesmo seria coibir-me de as contar mas se assim fosse tudo isto não teria metade da graça. Esta miúda é que nos veio perguntar pela estação de metro mais próxima caso contrário nem teríamos reparado nela. Depois de lhe responder sugeri-lhe que tirássemos a fotografia. Conversa rápida estilo “donde és para onde vais” e uma vez que era o seu aniversário disse-lhe que me despediria dela à portuguesa ao mesmo tempo que me aproximo para lhe beijar a cara. Mas no preciso momento em que pronuncio a palavra “kiss” ela dá um salto e, com uma cara aterrorizada, diz (quase que grita) “Sorry but I have got a boyfriend and he is waiting me right there!”. E pronto, lá segui caminho a ser gozado pelo meu melhor amigo

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

domingo, 24 de janeiro de 2010

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Fernando Pereira - SuMisura

Fernando Pereira - SuMisura

Simpatizo com o Miguel Sousa Tavares. Não o imagino particularmente simpático mas simpatizo com ele. Para vos ser completamente franco, tenho-lhe até um respeito que não estou a habituado a sentir por pessoas que não conheço. E sim é verdade. Estou no Facebook porque os outros estão. E se calhar, infeliz de mim, por algumas das “razões inconfessadas” que ele enumera. Mas adiante, nem tudo tem que ser assim tão mau. Conheci o Fernando Pereira através do Facebook. Do seu perfil cheguei ao site e do seu site à sua vida. Agendei uma marcação e fui conhecer o seu espaço – a SuMisura. Confesso-vos, sou um bocado desequilibrado com contas. Sou poupado numas coisas e esbanjador noutras. Curiosamente, ao contrário do que se podia supor, sou particularmente sovina com a roupa. Daí que, quando entre num espaço como a SuMisura, o faça com um misto de curiosidade e desconfiança. Já o disse aqui. Não ligo muito a marcas, ou por outra, ligo a muito poucas. E às vezes, quando entro em certas lojas, tenho vontade que me expliquem o preço das coisas. Sim, porque eu presto atenção aos preços. Tenho noção que, socialmente falando, é dos atributos menos sexys que se pode exibir mas, muito sinceramente, não há nada que me apeteça fazer a esse respeito. Não estou disposto a pagar 6 euros por algo que posso comprar por 5. E quando me pedem 6 euros por um serviço que outro tipo me presta por 5, das duas uma, ou alguém me explica porquê ou vou falar com o outro tipo.

Na SuMisura as explicações não são uma mera figura de estilo. Elas existem mesmo, à séria. Foi das coisas que mais gostei no Fernando; falou-me em tecidos, pontos, pespontos, costuras, cortes e entretelas. Falou-me em ingleses, italianos, roupa que se confunde com a pele e trapos que duram eternidades. Explicou-me porque é que há fatos que custam x, casacos que custam y e porque é que uma camisa de fio retorcido é a mais suave e resistente. Explicou-me tudo. Falou-me dos grandes Alfaiates, das grandes casas. Do Lourenço & Santos, do Pestana & Brito, do Rosa & Teixeira, das minhas queridas criações do Homem, de como cada uma delas apareceu e de como cresceram. Falou-me de teares, de casacos estruturados, da gramagem dum fato, da fibra, da espessura da fibra, do fio e do número de torções que aplicam a um fio. O Fernando respira tudo isto. E esse, quer se queira quer não, é o maior segredo de qualquer projecto. E este tem um princípio muito simples. O cliente não escolhe. O cliente cria. O Fernando está lá para ajudar

domingo, 17 de janeiro de 2010