quinta-feira, 17 de maio de 2018

O Bruno de Carvalho que há dentro de cada um de nós



Vaná, guarda-redes do F.C. do Porto partilha, de forma um tanto ou quanto ingénua, “o futebol não é isso”. A Liga Portuguesa de Futebol Profissional emite um comunicado onde se lê “Os executores destes comportamentos não são adeptos de futebol, mas sim criminosos” (aparentemente, por um qualquer imperativo filosófico, quem é uma coisa não pode ser a outra). Pedro Proença, segue à risca o depoimento do organismo a que preside e diz que “aquilo que hoje se passou não é um caso... desportivo, é um caso obviamente, um caso de polícia”. Pedro Ivo Carvalho, subdirector do JN, baptiza o seu artigo de opinião com um retumbante “Eles não gostam de futebol”. Nuno Correia da Silva, vice-presidente da Holdimo e administrador não executivo da Sporting SAD apresenta uma versão um pouco mais idiota que as anteriores. Segundo ele “quem fez isto não é do Sporting, apesar de poder julgar que é”. Se passasse mais tempo no Google ou deixasse a televisão ligada em um dos canais de informação encontraria mais pessoas, com diferentes graus de responsabilidade na matéria, a empobrecer o discurso com comentários que alinham na retórica negacionista de que aqueles tipos e aqueles actos nada têm a ver com futebol.

Questiono-me se o guarda-redes do Porto, o alto dirigente do Sporting Clube de Portugal (e do seu accionista) ou o presidente da liga estão atentos ao futebol. Dá a sensação que estas pessoas não vão à bola nem consomem os conteúdos que a ela dizem respeito. Que não assistem à violência e à falta de civismo à porta dos estádios, que não ouvem os comentários que saem das bancadas ou que não se dão conta da merda que lá acontece, semana sim semana não. Já para não falar dos disparates que presidentes, técnicos e directores de comunicação proferem e do impacto que essas declarações têm no discurso de boa parte dos adeptos. No caso de Pedro Proença parece ainda mais estranho uma vez que, nos seus tempos de árbitro, foi agredido à cabeçada em pleno Centro Comercial Colombo, por um suposto associado benfiquista. Talvez se tenham esquecido todos que, em Maio de 1996, no mesmo Estádio do Jamor de que tanto se tem falado esta semana, quando aos 8 minutos da 1ª parte Mauro Airez inaugurou o marcador, um outro benfiquista optou por festejar o momento com o disparo de um very light que voou até à bancada 13 do Estádio Nacional e assassinou um adepto sportinguista. É particularmente estranho que não se recordem porque, ainda há três anos, houve quem fizesse questão de gabar a ocorrência: foi exibida, num jogo de futsal entre os dois clubes, uma faixa com a inscrição “VERY LIGHT 96”. E já no ano passado, em outro derby (desta feita de andebol), foram entoados os versos “Foi no Jamor que o lagarto ardeu / Na final da taça, o very light é que o fodeu” (se é possível estabelecer uma hierarquia da miséria humana, parece-me, dadas as circunstâncias, que esta lírica é ainda mais repugnante que a do cântico dos Super Dragões, no qual – pretendendo insultar o Benfica – acabam por demonstrar o mais bárbaro desrespeito pela morte dos atletas do Chapacoense).

A ideia de que a merda que acontece no futebol ou em seu torno não diz respeito à modalidade é a forma mais imbecil de continuar a fingir que os problemas não existem. Mas as mais elementares faltas de honestidade intelectual partem de pessoas com um peso ainda maior no futebol. Sugiro que se pense em alguns dos portugueses com maior sucesso na modalidade. Jorge Nuno Pinto da Costa é o presidente, em actividade, com o maior número de troféus em todo o mundo. É o dirigente, cuja absolvição no Apito Dourado, custará tanto a aceitar quanto a presunção de inocência a que José Sócrates tem direito na Operação Marquês. É o homem sobre quem, Rui Moreira, disse no fim-de-semana passado qualquer coisa como: “é tão espectacular que nem me vou atrever a falar sobre ele”. E é o portuense a quem a Câmara Municipal do Porto entregou, por deliberação unânime de toda a Vereação e Assembleia Municipal, a Medalha de Honra da Cidade. Permitam-me um pequeno exemplo da sua total falta de empenho em seguir qualquer padrão de transparência, honestidade ou desportivismo. No dia 22 de Setembro do ano passado o Presidente da Federação Portuguesa de Futebol publicou nos 3 jornais desportivos nacionais um artigo intitulado “É TEMPO DE RESPONDER AOS SINAIS DE ALARME” que, entre outras coisas, alertava para a forma como o discurso dos agentes desportivos promove a hostilidade dos adeptos para com os árbitros. O Presidente do Futebol Clube do Porto (que tem um longo histórico de discursos que promovem a revolta de adeptos contra árbitros e jornalistas) respondeu, depois da dose habitual de ironia a que se permite frequentemente, “Os árbitros não correm risco nenhum e acho ridículo”. É uma opinião curiosa de se expressar quando 5 meses antes um jogador do Canelas Futebol Clube 2010 (e, curiosamente, membro dos Super Dragões) agrediu barbaramente o árbitro José Rodrigues. As imagens são claras e passaram em todo o mundo, tenho a certeza que Pinto da Costa terá tido oportunidade de as espreitar. No início dessa mesma temporada de 2016/2017 houve 12 equipas (de um total de 15 adversários) a anunciar que não iriam comparecer aos jogos com o Canelas. Fernando Madureira (capitão do Canelas e, curiosamente, líder dos Super Dragões) disse na altura  que a equipa está “magoada, revoltada e triste com toda esta situação”. Se aceder ao YouTube e escrever Canelas fica como uma ideia do quão “magoados, revoltados e tristes” deveriam ficar os adversários daquela equipa. Das 24 vitórias do Canelas (num total de 26 jogos) na Série 1 da Divisão Elite Pró-Nacional, 16 foram obtidas por falta de comparência. Há relatos de coacção e intimação. Se aceder ao YouTube e escrever Canelas vai acreditar que elas existiram.

Apesar do clima de aparente terror, nem Associação de Futebol do Porto nem Federação Portuguesa de Futebol terão tomado grandes medidas (se é que tomaram alguma). O Canelas ascendeu ao Campeonato de Portugal, 3ª escalão das ligas nacionais (na verdade, alcançou consecutivamente a promoção a escalões superiores nas duas últimas épocas desportivas). Como diria ontem o Presidente da República “Nós portugueses somos muito bons a fazer de conta. A fazer de conta que o que é grave não é grave. Fazer de conta que aquilo que não é normal é normal”. É isso que acontece, a um ritmo diário, no futebol. É isso que as declarações que abrem este texto promovem. Que não se reconheça os problemas. E um deles é o seguinte. A concepção e o entendimento que temos sobre o que é ser adepto de um clube. Sobre o que é "defender esse emblema até ao fim". Ao ponto de se dizer ou fazer o que quer que seja necessário para o beneficiar. Só ouvi um amigo benfiquista reconhecer que os e-mails o envergonham. Os meus amigos portistas, consoante o grau de cegueira que se permitem atingir, posicionam-se entre o sarcasmo e a irritação quando se fala no portfólio online de escutas caricatas e vídeos com situações de jogo absolutamente inacreditáveis. E de todas as comunicações publicadas a propósito da Operação Cashball, há uma que parece bem elucidativa da dualidade de valores que o fanatismo desportivo gera. Um dirigente sportinguista, alegado corruptor, partilha a sua emoção com aquele que, alegadamente, seria o seu intermediário para levar a cabo actos de corrupção. Isto, sobre um jogo cuja arbitragem haveria sido condicionada pelo esforço conjunto de ambos: ”Foi, foi, foi, foi muito bom. Liguei para o meu pai a chorar, porque a última vez que fomos campeões estava com ele na nave de Alvalade. Eu era pequenino na altura. E foi muito bom. É este o caminho que a gente tem que…temos de ganhar em todas as modalidades, como no hóquei e no andebol e urgentemente temos de que ser campeões no futebol também. É este o caminho. Grande abraço. Disfrute!”. Reparem como este indivíduo consegue juntar, num discurso uno, a paixão pelo clube e a expressão do seu amor paternal (apoiada naquilo que parece ser uma bonita recordação de infância), com a alegada prática abjecta de condicionar resultados desportivos. O pensamento deste dirigente leonino, a comprovar-se o que está em causa, parece ser um exemplo paradigmático de como, para alguns, a felicidade que certas conquistas lhes despertam é pouco ou nada condicionada pelos crimes que possam ter sido necessários para as assegurar.

Pinto da Costa está onde está ao tempo que está porque todos permitimos que isso aconteça. Da mesma forma que, apesar da cobertura televisiva que houve, ninguém ter parecido verdadeiramente incomodado com o espectáculo miserável que, depois da derrota ante o Paços de Ferreira, o grande responsável pela vitória (totalmente justa) do F. C. do Porto na Primeira Liga protagonizou. De resto, numa entrevista descontraída ao Porto Canal em jeito de consagração (distante, no tempo e no espaço, das emoções da Mata Real), Sérgio Conceição não se coíbe de dizer, sobre o colega de profissão que lhe infligiu a primeira derrota no campeonato: "Agora ele com certeza não teve... a atenção que devia ter durante os treinos para conseguir manter o Paços na 1ª Divisão". Mas que importa a dimensão humana de Conceição (ou a falta dela) aos adeptos do Porto? Foi campeão. O mesmo se aplicaria a Vitória ou Jesus aos olhos dos seus respectivos clubes e adeptos. E haverá melhor exemplo que José Mourinho? Aquele que é tido de forma consensual como o melhor treinador português de todos os tempos, tem no seu historial, comportamentos e declarações completamente inaceitáveis. Lembram-se de Miklós Fehér? Morreu em campo, no Estádio Dom Afonso Henriques em Guimarães, no Domingo 25 de Janeiro de 2004. No dia 27 de Janeiro José Mourinho esteve em Lisboa, em representação do F. C. do Porto, no velório do jogador. No Sábado seguinte, dia 31 de Janeiro, Mourinho – depois de um clássico emocionante que não conseguiu vencer (José Mourinho demorou alguns anos até conseguir reagir de forma civilizada à superioridade alheia) – terá desejado que “Rui Jorge morresse em campo”. Parece que há umas quantas testemunhas, inclusive o actual seleccionador nacional. É complicado qualificar, de forma civilizada, um insulto inspirado na morte de um atleta que o próprio Mourinho havia supostamente homenageado 4 dias antes. Meses mais tarde, em Londres, autodeclarava-se the special one. Anos depois, enfia um dedo no olho de Tito Vilanova...

Ontem, Rodrigo Guedes de Carvalho, numa edição antecipada do Jornal da Noite por via da transmissão da final da Liga Europa, passava a palavra ao seu colega que cobria os últimos desenvolvimentos leoninos com um semblante carregado, a projectar uma aparente tristeza pelo que acontecera na véspera. Mas talvez esteja esquecido que há 4 meses anunciou, de forma enérgica em pleno Jornal da Noite, a polémica entre Manuel Fernandes, Rodolfo Reis e Bruno de Carvalho na qual os dois últimos se expressavam de uma forma que tenho, com toda a sinceridade, dificuldade em descrever. Com a agravante que Rodolfo Reis colabora com aquela estação televisiva semanalmente no PLAY-OFF onde, na edição subsequente à discussão que Rodrigo Guedes de Carvalho deu destaque em horário nobre, João Abreu pivot da SIC, protagonizou um dos momentos mais infelizes da televisão portuguesa. Abriu o programa a declamar uma publicação de Bruno de Carvalho no Facebook. No momento subsequente, o “direito de resposta” que João Abreu concede a Rodolfo Reis deixa duas coisas bem claras: o jornalista da SIC não sabe o que é o “direito de resposta”; Rodolfo Reis não devia ter voz no espaço público.

Podemos continuar a fazer-nos de parvos. Podemos fingir que as agressões no contexto futebolístico são raras (a SIC já parece ter esquecido o quanto sofreram os seus profissionais nos primeiros anos de vida daquela estação e do quanto contribuíram para isso alguns dirigentes desportivos). Podemos fingir que, a grande novidade no episódio de Alcochete, não é o facto de as vítimas serem um plantel inteiro e respectiva equipa técnica. Podemos fingir que, quem faz parte de um ataque organizado a um complexo desportivo de um clube com a notoriedade do Sporting, não tem um histórico a aviar inocentes em condições bastante mais discretas. E podemos continuar a fingir que Bruno de Carvalho não vinha dando, há muito tempo e com maior ou menor frequência, provas de que, qualquer que seja o seu perfil, não parece ser o adequado para liderar uma entidade de utilidade pública. E uma vez que a sua legitimidade democrática era inquestionável, talvez se deva reflectir também sobre que tipo de pensamento e dinâmicas são cultivadas e partilhadas na militância desportiva.

Há menos de dois meses Maurício (ex-jogador do Sporting) declarou “Quem não tem uma boa visão do Bruno de Carvalho são aqueles que não são sportinguistas. Como sou sportinguista tenho uma impressão boa dele”. Esta afirmação imbecil não é propriamente um acto isolado. Há um conjunto de personalidades mui valorizadas socialmente (a quem os media se costumam referir como “notáveis”) que, de forma mais ou menos explícita, partilharam idiotices de natureza idênticaParece-me que o que realmente importa agora é que Bruno de Carvalho saia de cena. O facto de pessoas como ele ocuparem o espaço público nacional diz muito mal, não apenas sobre o Sporting e os sportinguistas, mas também sobre Portugal e os portugueses

terça-feira, 27 de março de 2018

Não conheço o Manuel Reis




Vou usar o presente do indicativo. Não conheço o Manuel Reis. Falei com ele três ou quatro vezes. Sei bem quem é mas desconfio que mal saiba quem sou. À luz dos mais idiotas padrões sociais, o Manuel Reis é uma pessoa que fica bem dizer que se conhece. Presumo que por isso mesmo, quando com ele me cruzo, nunca o maço com cumprimentos supérfluos.

Começo pelo que menos importa que, importando pouco, foi o que mais importou para me achar no direito de falar sobre alguém que não conheço. Acho que o Manuel Reis tem estilo. Acho que o Manuel Reis tem pinta. Também acho qualquer uma destas frases um tanto ou quanto estúpida mas acho, de forma objectiva, que o Manuel Reis tem uma identidade visual interessante. E foi seguramente por isso que, algures em 2009 quando o vi na rua, lhe sugeri um retrato. A recordação que tenho desse momento é de uma afabilidade extrema. A maior parte de nós não sabe dizer não. Não sabe rejeitar uma oferta, um convite ou um argumento de forma elegante. Não estou a brincar: é uma dificuldade transversal a muita gente. Claramente, o Manuel Reis não padece desse problema. Porque aquilo que o Manuel Reis fez foi dizer-me, de uma forma igualmente clara, que não estava interessado em ser fotografado (de resto, a sua indisponibilidade em aparecer quando aparecer parece ser o oxigénio de meio mundo, não me é de todo indiferente). Mas não se limitou a rejeitar-me não me fazendo sentir rejeitado. Fê-lo lisonjeando-me. Não recordo as palavras exactas. Mas sei que foram mais que as suficientes para ter percebido que o trato daquele homem é uma espécie de aberração estatística. Por isso, quando ontem li algumas crónicas escritas por pessoas que aparentemente o conhecerão bem, não achei que  tivessem sobrevalorizado o seu cavalheirismo. Alguma coisa este homem tem de singular. Ao ponto de, pelas primeiras vezes, me ter sentido inspirado por um homem que pensei ser homossexual (não conheço o Manuel Reis mas já ouvir falar dele o suficiente; assumo que é gay). Poderá parecer um detalhe irrelevante ou elementar homofobia. Não creio que seja nenhum deles. Admirar um homem gay não é um processo óbvio para quem, entre as coisas pelas quais mais se habitou a admirar num homem, está o gosto pelas mulheres. Quando o Manuel Reis me respondeu, devo ter pensado que poderia ter as mulheres que quisesse. A sobriedade, o tom de voz, os gestos, a expressão verbal. Houve ocasiões na vida em que olhei para um homem mais velho e pensei que gostaria de vir a ser como ele: acho que aquela foi uma delas.

Pelo que tenho lido o Manuel Reis é conhecido por um mar de coisas. Vou falar apenas sobre aquela que estou habilitado a comentar: o Lux. Ao contrário daquilo que foi um dia tradição neste blogue, não vou despender um momento que seja a elogiar o esteta ou o legado que o Lux herdou dessa sua condição. A primeira coisa em que penso quando lembro ambos é outra: que a urbanidade com que me negou a foto é, de alguma forma, a mesma que é promovida no contacto entre quem lá trabalha e quem lá dança. Há um episódio que é particularmente esclarecedor. Na verdade há uma porrada deles mas este é o mais fácil de entender. Disse-me um dia um segurança do Lux: “Na minha vida pessoal não repito as coisas quatro vezes. Aqui pagam-me para dizer as coisas quatro vezes à mesma pessoa”. Alguém que como eu, entrou tantas vezes em discotecas e sabe quanta merda pode acontecer numa pista de dança, entende bem as consequências destas palavras (e quem nunca gostou de sair mas tem acesso ao youtube também). Não sei por exemplo, se o Lux paga atempadamente aos seus fornecedores. Que é algo que também diz muito sobre valores e ética de quem gere um negócio. Não faço puto ideia. Mas permito-me uma expectativa sobre o tema. Porque senti sempre que a realidade do Lux se distanciava de um conjunto relativamente homogéneo de atitudes e comportamentos (entenda-se, práticas merdosas que convergem no desrespeito pelos clientes) fáceis de localizar nas noites de Lisboa e de tantas outras cidades do chamado mundo ocidental. Mais por isso que por tudo o resto que se costuma valorizar numa discoteca, disse algumas vezes que o Lux é a melhor discoteca do mundo. E talvez seja importante lembrar algo tão elementar e tantas vezes esquecido: as discotecas podem ser coisas importantes na vida das pessoas. O Lux foi importante na minha. E com toda a honestidade, e sem pretensão de assinar mais que um simples elogio a um desconhecido, desconfio que as particularidades daquele espaço têm um nome: o nome do tal homem que não conheço.

As pessoas são, mais que tudo, aquilo que são entre os seus íntimos. Mas as pessoas não são apenas aquilo que são nos seus círculos de proximidade. As pessoas são também aquilo que são nos contactos efémeros, nos gestos rotineiros e nas pequenas impressões que deixam àqueles com quem se cruzaram um dia. E por tudo isso, pelo que ouvi dele e dizer sobre ele (e pelas correlações que me permito estabelecer entre umas e outras coisas), tenho dúvidas que o Manuel Reis não mereça mais que este texto


terça-feira, 6 de março de 2018

Observar o OBSERVADOR


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Em rigor, não se trata tanto de estar atento ao OBSERVADOR em particular mas a toda a Comunicação Social. Acontece que, no que ao jornalismo diz respeito, tenho o OBSERVADOR como uma das referências nacionais. Significa isto que acedo a ele mais vezes e que estou mais atento às suas publicações. Mas significa também que espero do OBSERVADOR a mesma transparência que este jornal parece exigir ao governo, a pessoas singulares ou colectivas, empresas públicas ou privadas, clubes ou fundações. Significa que espero que o OBSERVADOR cumpra a lei, respeite o seu próprio estatuto editorial e seja transparente com os leitores.

O que me faz questionar a transparência dos órgãos de comunicação social? Uma coisa à qual se costuma chamar de “conteúdo patrocinado”. Esta expressão tem sido usada para designar peças de natureza comercial ou publicitária que, de forma geral, são produzidas ou co-produzidas pelos mesmos media que as publicam. Note-se que, apesar de alguns órgãos de comunicação social se referirem a estes conteúdos como editoriais, a sua produção e publicação é suportada pelos anunciantes. Infelizmente, a prática comum – contra os belos votos editoriais que se partilham em páginas cheias de palavras bonitas – é a identificação deficiente da natureza promocional destes conteúdos.

A legislação sobre esta matéria – Código da Publicidade, Decreto-Lei nº 330/90 de 23 de Outubro – apresenta uma linguagem simples e acessível.  Segundo o número 1 do artigo 3º (conceito de publicidade), é publicidade “qualquer forma de comunicação feita por entidades de natureza pública ou privada, no âmbito de uma actividade comercial, industrial, artesanal ou liberal, com o objectivo directo ou indirecto de: a) Promover, com vista à sua comercialização ou alienação, quaisquer bens ou serviços; b) Promover ideias, princípios, iniciativas ou instituições”. O número 1 do artigo 8º (princípio da identificabilidade) parece ser ainda mais fácil de entender: A publicidade tem de ser inequivocamente identificada como tal, qualquer que seja o meio de difusão utilizado”.

Este post versa sobre algo tão elementar quanto isto: os órgãos de comunicação social têm o dever deontológico e a obrigação legal de informar as suas audiências sempre que um dado conteúdo é pago por uma outra entidade. Sempre que um artigo deva a sua ideia, concepção ou publicação a um pagamento, patrocínio, apoio, viabilização (ou qualquer outra acção que, de uma forma mais ou menos esclarecedora, se reporte a uma contrapartida financeira) cabe à publicação informar o leitor de forma inequívoca. Porquê? Porque um depoimento pago não pode, jamais, ser confundido com uma opinião independente.

O artigo que me fez rever as práticas dos órgãos de comunicação social foi patrocinado por uma consultora imobiliária. Comprar ou arrendar uma casa é, tradicionalmente, a opção com maior impacto na vida financeira dos portugueses. Dito isto, não lhe parece importante poder distinguir a produção jornalística, do discurso da entidade cuja actividade é promover a compra e venda (ou o arrendamento) de imóveis? E se uma empresa da indústria farmacêutica patrocina um artigo sobre o seu novo medicamento? Não deve ser claro se o texto foi promovido por quem produz ou distribui o fármaco? Não tenho direito a saber se a peça foi escrita por um copywriter ou por um jornalista? E já agora... será que estas duas funções podem ser desempenhadas pela mesma pessoa? O artigo 3º (incompatibilidades) do Estatuto do Jornalista sugere que não. E terá sentido, que actividades semelhantes às de uma agência de publicidade, sejam desempenhadas desde a redacção de um jornal? Que independência pode reclamar esse título no dia em que tiver de questionar, em registo jornalístico, a mesma marca que se habituou a pagar por aquilo que a redação escreve sobre ela? Estejamos a nós a falar de saúde pública ou do último jogo para a playstation: os media têm obrigações perante nós. Estarão a cumpri-las? Acho que é importante assegurar que sim. E se cabe aos leitores tentar educar e sensibilizar os órgãos de comunicação social, cabe às entidades competentes assegurar que estes cumprem a lei.

Neste link está a reprodução exacta e integral da reclamação que dirigi à ENTIDADE REGULADORA PARA A COMUNICAÇÃO SOCIAL no passado dia 1 de Março. Mas termino da forma que comecei: acredito que, mais que uma questão particular do OBSERVADOR, este é um problema da generalidade dos media. Basta aceder ao Google e escrever conteúdo patrocinado para ver os mais ilustres órgãos de comunicação social atropelarem lei e bom senso. Se alguém perder ali umas horas, tenho a certeza que mais reclamações vão surgir. E se isso acontecer, uma coisa é certa: os media vão tornar-se em algo melhor do que aquilo que são hoje. E isso vale muito mais que qualquer hipótese de escrever no OBSERVADOR

(artigo actualizado às 14:58h do dia 7 de Março)

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Tornozelos, meias e alguma idiotice


As cores do Fabrizzio (2) As cores do Fabrizzio


Estas fotos não são novas. Publiquei-as aqui a 14 de Junho de 2011, tendo sido tiradas dias antes em Madrid, mais precisamente a 10 de Junho. A primeira conclusão – pouco abonatória para a minha pessoa – é que, em pleno dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas, andava a passear pela capital do reino que mais atentou contra a soberania nacional. A segunda – aparentemente insignificante mas de uma pertinência cirúrgica a estes dias  tem que ver com a relação entre o visual primaveril/estival do Fabrizio e o tempo que fazia em Madrid. Segundo este relatório meteorológico, às 11:59h, hora a que tirei estas fotos, estariam 21˚C. Sendo que a temperatura máxima em Madrid, no dia 10 de Junho de 2011, atingiria os 25˚C.

A ordem das fotos na publicação original é precisamente a contrária à de hoje. Porque visualmente falando, o detalhe não se sobrepõe ao todo. E porque humanamente falando, por mais impressionantes que fossem os sapatos, ter-me-á importado mais a identidade de quem os escolheu, que a escolha em si mesmo. Hoje as circunstâncias são outras. Esta semana será talvez a mais fria que Portugal já viu este Inverno. Os planos de contingência de Lisboa e Porto foram activados na noite de ontem, há já alguns dias que neva em Madrid e acredito que, a estas horas, o Fabrizio tenha braços e pés devidamente resguardados.

Esta madrugada estava na Gare do Oriente à espera do comboio que me haveria de levar ao Porto. À minha frente tinha uma série de pessoas agasalhadas de todas as formas possíveis e imaginárias. Gorros, luvas, estolas, cachecóis. Camisolas de gola alta, calças de bombazina, casacos forrados a pele de carneiro. Algumas das que levavam estes agasalhos estavam, surpreendentemente, de tornozelos despidos. Em alguns casos com meias curtas (cuja extremidade era possível vislumbrar, entre o calçado e a pele), noutros a sensação era de que não haveria meias de todo (mas dou o benefício da dúvida: as peúgas seriam curtas o suficiente para não serem vistas por baixo do calçado).

Cada um de nós tem uma percepção muito própria do que é quente ou frio e do calor ou fresco que sente. Cada um tem os seus termómetros e termóstatos (há até quem permaneça indiferente sob temperaturas extremas) e qualquer um de nós já deu por si a pensar que se vestiu de mais ou de menos para a ocasião, seja ela social ou meteorológica. Mas não é nada disso que está em causa. O que está em causa é uma tendência visual de indumentária que, para muita gente, se sobrepõe à razão de ser da própria indumentária. Aventurei-me a fazer algumas perguntas sobre a nudez dos tornozelos no pico do Inverno... As respostas alternavam entre a corrente negacionista (“não, não tenho frio algum”) e o esclavagismo esteta (“já não me consigo ver de outra forma”). Em comum? Uma ligeira sensação de desconforto quando questionados. Gerada, creio eu, pelo reconhecimento interior do quão ridículo é dar vida a esta expressão visual com temperaturas perto de zero.

Se há flagelos no mundo mais graves que parte da humanidade fingir não sentir frio no mesmo sítio que tantas vezes se ocupou de proteger? Seguramente. Desde que não sejam responsáveis por congestionar as urgências ou pelo colapso do Serviço Nacional de Saúde, os tornozelos de uns não interferem com a vida de outros. E não são estas pessoas livres de fazer o que mais querem? Claro que são. Mas quando milhões de pessoas um pouco por todo o mundo, por motivos de natureza estritamente visual, “deixam de ter frio” na mesma zona do corpo que se esforçaram por abrigar uma vida inteira, algo está mal. Não deixa de ser curioso que, em tempos de liberdade e autodeterminação sem precedentes, sejamos todos tão carneiros e... perdoem-me os que me são queridos e aqueles que nunca vi antes... tão profundamente idiotas


p.s. – Pese embora a irrelevância destes factos partilho-os aqui. Há 20 anos não havia meias curtas. Lembro-me de dobrar as meias de tamanho convencional para – quando estava de calções – não ter o cano da peúga descoberto para além dos ténis que, desprovido de função, ficava abandonado ao estatuto de ruído visual (anulado pela dita dobra). Não disse? Digo agora. Boa parte das minhas meias são curtas. Mas repito: essa não é a questão (acho que insulto mais o leitor ao sentir a necessidade de me explicar que correndo o risco de lhe chamar idiota). Também tenho uma porrada de gorros em casa e não é por isso que os levo para a praia no pico do Verão

(artigo actualizado às 11:47 do dia 7 de Fevereiro)

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Orlando Figueira, Manuel Vicente e companhia limitada



Quando acedo ao Google (https://www.google.pt/) e escrevo Manuel Vicente o conhecido motor de busca exibe 62 300 000 resultados. Quando recorro ao mesmo link para fazer uma pesquisa por Orlando Figueira deparo-me com 485 000 resultados. Só para se ter noção do quão significativos são estes números, uma busca sobre Cristiano Ronaldo gera 41 900 000 resultados. Mas, a bem da honestidade intelectual (Manuel é, efectivamente, um nome próprio significativamente mais comum que Orlando), importa estreitar a pesquisa. Acendendo à mesma página da Google (https://www.google.pt/) e escrevendo “Manuel Vicente” (tomo a liberdade de assumir que o leitor não sendo – como eu também não sou – um expert em mecânica de motores de busca, entende o impacto que a utilização das aspas produz na pesquisa), o Google exibe 1 610 000 resultados. Uma busca por “Orlando Figueira” nas mesmas condições gera 146 000 resultados. Há mais Manueis Vicente e Orlandos Figueira na terra mas parece-me que este é (ainda que o angolano tenha um historial de visibilidade pública que o português não possui) o mais transparente dos caminhos para perceber o quanto se fala e sobre quem. Conclusão? É mais relevante para os media nacionais a possibilidade de haver um político estrangeiro corruptor que um magistrado português corruptível.

Para ser franco nunca tinha ouvido falar de Manuel Vicente ou Orlando Figueira até há cerca de um ano quando surgiram, na imprensa nacional, os primeiros artigos alusivos à Operação Fizz. Angola é obviamente um país próximo e, por isso mesmo e à partida, despertará sempre mais curiosidade e interesse em Portugal, que qualquer outro país que não partilhe connosco, ou uma fronteira terrestre ou o idioma oficial. Reconheço que é assustadora a ideia de que alguém, em posição de poder vir a assumir (como de resto veio a suceder com Manuel Vicente) o cargo de Vice-Presidente de Angola pudesse: 1) considerar corromper um magistrado estrangeiro, 2) conseguir levar a cabo tal intenção. Já para não falar que, dadas as circunstâncias (e deve haver angolanos a pensar nisto), o mais elementar raciocínio lógico nos convida a imaginar que qualquer ideia dessa natureza e correspondente aplicação prática seriam ainda mais fáceis de concretizar no seu próprio país. Angola é, com toda a justiça, o que se costuma designar por país irmão mas convém assumir – de resto, os media portugueses já nem se esforçam por disfarçar – que parte desta percepção de irmandade parece, muitas vezes, sustentada mais pelos dólares que uma estreita e pouco representativa amostra da população angolana estoira em Lisboa, que pelas inúmeras afinidades históricas e culturais que existem entre os dois povos.

Manuel Vicente
Sobre este senhor conheço apenas a sua trajectória profissional (em 62 300 000 resultados encontra-se facilmente alguma coisa), que é acusado pelo Ministério Público da prática dos crimes de corrupção activa, branqueamento de capitais e falsificação de documento, e o que Miguel Relvas disse sobre ele há semanas “(...) Eu conheço o Engenheiro Manuel Vicente. Conheci-o no passado no desempenho de funções e... tenho a certeza de que seria incapaz de cometer, como se irá provar, muitas das acusações que lhe são imputadas (...)”. Sobre o Miguel Relvas, as suas declarações sobre este processo (outro para quem tudo se parece resumir ao ex vice-presidente angolano e que, pelo simples facto de o incluir, descreve como um "não-processo"), e o desconforto que me causa pensar que assume, num plano informal, qualquer tipo de responsabilidades diplomáticas (terá sido recebido pelo Presidente da República de Angola em Luanda) não me vou alongar. Partilho apenas uma recordação súbita: no preciso momento em que vi estas declarações de Miguel Relvas lembrei-me (por via de um qualquer processo mental involuntário) de umas outras declarações, já com alguns anos, em que um senhor chamado Carlos Mota dizia “(...) É assim: se o Carlos [Cruz] é pedófilo eu também sou (...)”.

Orlando Figueira
Orlando Figueira é, quanto a mim (apesar de a imprensa nacional o parecer querer relegar para a categoria de supporting actor) a estrela da narrativa. Aquilo que mais me preocupa enquanto português não são os presumíveis excessos dum estadista estrangeiro (por mais próximo que esse país seja do meu) mas a presumível permeabilidade dum magistrado português aos ditos excessos. Porque o que mais importa a Portugal é saber se Orlando Figueira é ou não corrupto. Os factos do processo remontam ao período entre 2008 e 2012, em que Orlando Figueira esteve destacado no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), “(...) órgão de coordenação e de direção da investigação e de prevenção da criminalidade violenta, altamente organizada ou de especial complexidade (...)”. O DCIAP é um órgão de elite na arquitectura do Ministério Público e o departamento por onde passam processos como os casos/operações BPN, Furacão, Marquês, Monte Branco ou Portucale. Coincidência ou não (supõe-se que não) todos estes processos foram entregues a Rosário Teixeira (ou a equipas de procuradores das quais este fazia parte). E é precisamente a Rosário Teixeira que quero chegar porque não me ocorre melhor “desenho” para tentar demonstrar a todos o que parece preocupar a tão poucos. O que seria se Rosário Teixeira tivesse sido pago para incriminar José Sócrates? O que sentiríamos só de imaginar, no plano abstracto, que Rosário Teixeira pudesse ser corrupto? Surreal, não é? Orlando Figueira era colega de Rosário Teixeira no DCIAP à data dos factos que constam na acusação. E está ser julgado por isso. É real.

Dinheiro e Justiça
Não sei bem o que disse exactamente Paulo Portas (e em que contexto) para o Observador escrever que “O antigo líder do CDS/PP tem defendido que o assunto não é só da Justiça, mas sim um problema entre estados” mas consigo imaginar o que o Portas de há 30 anos diria disto tudo, incluindo do que supostamente veio a dizer 30 anos depois. A verdade é que, até agora e de uma forma geral, tenho ouvido António Costa e Augusto Santos Silva a dizer a única coisa que é aceitável dizerem. Por outro lado, o Ministro das Relações Exteriores de Angola “terá dito” ao Expresso o que este locutor diz que ele disse a partir do minuto 2:00 (emprego o "futuro do presente composto" porque o que o locutor diz não é o mesmo que as imagens da SIC identificam como citações de Manuel Augusto) e Luísa Meireles, jornalista experiente e redactora principal do Expresso, escreveu que “O desbloqueamento das relações políticas entre Portugal e Angola pode estar mais próximo, se a justiça portuguesa aceitar os termos de um compromisso que Angola propôs. (...)” sem sentir necessidade de explicar que quando diz “Angola” se está (presume-se) a reportar às autoridades judiciárias angolanas acabando por partilhar e reproduzir, de forma inconsciente, o equívoco recorrente da não distinção clara entre essas mesmas autoridades e os actores políticos. Os governantes angolanos sabem tão bem quanto os jornalistas portugueses o que é a "(...) separação e interdependência de poderes (...)" e sabem até que há um ex-primeiro ministro acusado da prática de 31 crimes, e de cujos governos fizeram parte os actuais primeiro-ministro, ministro dos negócios estrangeiros e ministro do trabalho, solidariedade e segurança social. Jornalistas, governantes e lobistas também deviam saber que, com este tipo de suposições, insinuações e declarações estão, em alguns casos, a fazer exactamente aquilo de que Manuel Vicente é acusado: condicionar a acção da justiça portuguesa. O dinheiro é uma coisa muito importante. Mas se no ano de 2018, a Justiça ainda tropeça nele, Portugal vale muito menos do que se pensa.

Não tenho uma opinião formada sobre se o processo de Manuel Vicente deve ou não viajar até Luanda até porque, como é comum nestas coisas, tenho lido argumentos aparentemente válidos nas comunicações das autoridades judiciárias de um e outro país. E há até quem defenda que se pode considerar uma 3ª via (não se preocupe, não passa por deixar Miguel Relvas decidir quem é ou não capaz de cometer crimes). Vá o processo para onde tiver de ir ou fique onde tiver de ficar, tão ou mais importante quanto a sua boa condução, é a garantia que nenhum agente político, económico ou financeiro, exerça sobre ele qualquer tipo de pressão. O resto são bullshits. E às 19:30h de hoje (hora a que todas as pesquisas citadas na introdução do texto foram feitas), o Google estava cheio delas

(artigo actualizado às 10:47h do dia 20 de Janeiro)

domingo, 5 de novembro de 2017

O Urban. O Urban Beach



Acho que, inicialmente, aquilo que me serviu de motivação para escrever o que quer que fosse que não houvesse sido já referido, teve que ver com o seguinte: saio à noite há cerca de 20 anos e quase sempre sem tocar em álcool. Mas mais que partilhar qualquer "maratona de sobriedade pela noite lisboeta", acho que falta dizer meia dúzia de coisas.

Sobre as acusações de racismo
Quase todos os artigos que li sobre o tema parecem ter sido escritos por pessoas que nunca saíram à noite. A gestão de clientes levada a cabo à entrada de bares e discotecas (em Portugal e um pouco por esse mundo fora) é feita segundo critérios de "selecção" que, chamemos-lhe aquilo que lhes preferirmos chamar, não passa de um termo socialmente aceite para aquilo que outros apelidariam de "discriminação". Mas sejamos francos: quando nos deslocamos a um dado espaço esperamos encontrar um dado ambiente que é definido, mais que por qualquer outra coisa, pela aparência daqueles que lá estão. Fica complicado levar demasiado a sério acusações de discriminação quando quase todos aceitámos e promovemos, na medida do nosso próprio sucesso à porta de uma discoteca, que cada lugar estabelecesse um ideal-tipo de clientela baseado estritamente na sua aparência. Não posso afirmar categoricamente que a gerência do Urban Beach é muito ou pouco racista e arrisco a dizer que, em 2017, e até ao seu encerramento, era possível encontrar mais “não brancos” no Urban do que aqueles que poderia encontrar em 2007 no Kubo ou em 1997 na Kapital. Por um motivo relativamente óbvio: o Portugal de 2017 é, ainda assim, um lugar menos racista do que era em 2007, e ainda menos que em 1997. O Observador (que, justiça lhe seja feita, teve um papel importante em todo este processo) publicou um artigo cujo título brilhava com a citação de um antigo porteiro do Urban Beach: “Pretos, é difícil. Ciganos não entram”. Infelizmente, isso não é motivo suficiente para me sentir no direito de acusar a gerência do Grupo K de ser, com maior ou menor incidência, aquilo que a maioria da população nacional é: um tanto ou quanto racista. Porque qualquer coisa parecida com “pretos não sei, ciganos nem pensar” é bastante representativo do que tantos portugueses sentem relativamente àqueles a quem permitem entrar em sua casa ou conviver com os seus filhos. Em caso de dúvida sugiro a consulta do termo "cigano" no nosso dicionário para moderarmos todos a autoridade moral com que chamamos racista a alguém. Dito isto... A selecção levada a cabo à porta do Urban agrada a quem lá vai. E ao que parece, vai lá muita gente. Menos de 48 horas depois do vídeo que exibia aquelas agressões brutais ter sido gravado e pouco mais de 24h depois de ter sido partilhado um pouco por todo o lado... quantas pessoas estavam no Urban Beach no momento em que foi encerrado pelas autoridades?

Sobre a conduta dos seguranças
Uma vez, no Lux, um segurança disse-me: “Na minha vida pessoal não repito as coisas quatro vezes. Aqui pagam-me para dizer as coisas quatro vezes à mesma pessoa”. Esta observação diz muito sobre a forma como somos tratados num dado estabelecimento e sobre os motivos pelos quais esse tratamento é mais frio, respeitoso, inflexível ou tolerante. Ela vai ao encontro de algo muito fácil de se entender: a forma como os seguranças de uma discoteca (ou se fizerem muita questão... a forma como os funcionários de uma empresa de segurança contratada por uma dada discoteca) se dirigem aos clientes dessa mesma discoteca é definida, como é óbvio, pela própria discoteca. Todos sabemos que o álcool, rivalidades parvas, disputas amorosas e outras tantas coisas podem fazer duma pista de dança um lugar tenso. Sabemos também que a maior parte de nós é menos civilizado e paciente depois de beber quatro vodkas ou sete cervejas. E que os seguranças das discotecas (ou se continuarem a fazer questão... das empresas de segurança que trabalham nas discotecas) lidam diariamente com situações complicadas. Por essas e por outras é que existe uma certificação para o exercício das suas funções. Mas sejamos muito claros: o argumento de que a agressividade dos seguranças que estão ao serviço no Urban Beach é responsabilidade da PSG é absolutamente delirante. A administração do Grupo K tem, como qualquer outra agremiação, uma dada cultura organizacional. Dizer que as opções que dela resultam não se traduzem na escolha dos seguranças que lá exercem funções, na mensagem que lhes é transmitida e no tipo de interacção que estes homens promovem com a sua clientela, é a mais profunda manifestação de desonestidade intelectual.

Sobre a Kapital
Não há outra forma de pôr as coisas. A Kapital foi, durante quase 10 anos, o sítio mais aspiracional da noite lisboeta. Ainda me lembro da primeira vez que lá entrei. Mas também não me esqueci da primeira vez que, por culpa de um episódio aparentemente irrelevante, me pareceu que algo de errado se passava ali. O porteiro, que teria ido até ao interior da discoteca, descia uma escadaria quase vazia quando empurrou um amigo meu porque, tão simples quanto isto, ele se encontrava na trajectória mais curta da sua descida. Acabei por testemunhar, repetidamente, seguranças a dirigirem-se de forma agressiva aos clientes sem qualquer motivo aparente. Mas sejamos sinceros: não vi nada na Kapital que não tivesse visto também em outros estabelecimentos.

Sobre o Kubo
O Kubo era um espaço junto ao Rio, a uma caminhada curta do local onde se encontra hoje o Urban Beach. Basicamente era um conjunto de caixotes justapostos e sobrepostos que, verdade seja dita, pela sua disposição, decoração e iluminação, faziam um dos espaços mais bonitos de Lisboa. Mas foi lá que fiquei com a sensação que as noites passadas em sítios geridos pelo Grupo K podiam ser perigosas. Lembro-me de uma noite ter visto um segurança a empurrar clientes de forma agressiva sem razão aparente. Uma rapariga, provavelmente pouco habituada a ser atropelada no seu dia-a-dia, reclamou com o funcionário da discoteca. Ele recuou até junto dela e intimidou-a com um movimento brusco e uma frase que já não sou capaz de recordar. Claro que quando se vê um segurança dirigir-se a uma mulher desta forma fica-se com a sensação de que ali, algo de grave pode acontecer a um homem. Num outro dia, quando estava de saída, vi um segurança esmurrar um cliente. Não foi a primeira vez que assisti a um murro à porta de uma discoteca e cabe-me reconhecer que - entre esses episódios infelizes - a culpa não foi sempre da exclusiva responsabilidade das equipas de segurança. Mas acho que, numa dada consciência colectiva, nos habituámos a aceitar estes "azares alheios" com excessiva condescendência.

Sobre o Urban Beach
O Urban Beach acabou por atrair uma clientela mais jovem que os seus antecessores Kapital e Kubo (o Kremlin tinha um posicionamento diferente: a música era mais pesada e o ambiente menos convencional). Isto também se deveu, em boa parte, à afirmação do Lux como discoteca de referência. Curiosamente, uma das coisas que sempre diferenciou o Lux de todas as outras discotecas foi a urbanidade com que, de forma geral, o seu staff trata os clientes. Em rigor, foi talvez a discoteca onde terei sentido pela primeira vez que os seguranças estavam ali, verdadeiramente e como o nome sugere, para assegurar a minha segurança (e onde, em 20 anos de visitas assíduas, nunca vi um murro ou um pontapé). Mas voltando ao Urban: tive a percepção que naquele espaço do Grupo K os seguranças pareciam ser ainda mais agressivos que na generalidade das discotecas. Uma noite, a propósito duma abordagem completamente desajustada de um segurança, disse ao Gonçalo Rocha que achava que ali se maltratavam os clientes indiscriminadamente. Respondeu-me, meio sorridente, que talvez eu tivesse preconceitos em relação ao Urban. Torna-se difícil, alguns anos depois, recordar com precisão os episódios ou comportamentos mais duvidosos. Não tinha chegado a ver ninguém do staff desferir murros ou pontapés mas, por culpa de algumas reacções, e de uma ou outra narrativa, sentia que seria apenas uma questão de tempo. Até que uma noite, o tempo chegou. A narração que se segue é um excerto exacto (inclusive, com alguns erros de sintaxe) de um e-mail que enviei, na madrugada do dia 6 de Abril de 2015, à então Vereadora da Educação, Economia, Inovação e Descentralização, Graça Fonseca (actual Secretária de Estado Adjunta e da Modernização Administrativa), a propósito de uma deslocação até ao Urban Beach, no fim-de-semana anterior. Muito mais que qualquer recriminação da ex-autarca por qualquer hipotética inação (que não teria como provar e, como tal, não me permito sequer sugerir) este é um esforço por me reportar aos factos na forma mais exacta que me é possível. Sem a leitura deste e-mail, guardaria daquela noite pouco mais que recordações vagas. Posso assegurar-vos apenas que, à data que escrevi este relato, os factos estavam absolutamente claros na minha memória. Desde aí, nunca mais voltei a um espaço do Grupo K.

(...) Quando chegava à entrada (ainda numa zona exterior ao recinto mas pertencente já, por assim dizer à área do edifício) estavam duas ou três pessoas (acho que eram dois homens e uma mulher) a ser expulsos/convidados a sair. Percebi que um dos tipos que estava a ser posto fora estava bebido e parecia provocar os seguranças (aquela coisa adolescente do "bate lá então"). 

Aparentemente os seguranças não ficaram contentes com o desempenho das suas funções (convidando a sair alguém que supostamente não mereceria ter entrado ou permanecer lá dentro) e foram ao encontro do tipo (uns 4 ou 5 diria eu). Vi um dos seguranças pontapear o turista na cabeça - acho que houve dois deles que lhe bateram - e poucos momentos depois estava um segurança deitado sobre o turista a asfixiá-lo (sim... isso mesmo.. a asfixiá-lo). Eu eu outro amigo - vendo aquela barbárie - aproximámos-nos e dissemos aquilo que qualquer duas pessoas com o mais elementar bom senso deveriam sentar-se tentadas a dizer. Perante os "parem com isso por favor", "não é necessário", "deixem-no ir" ou "a vossa função é precisamente evitar situações como esta" o meu amigo foi insultado e foi ainda ameaçado porque, aparentemente, algum(ns) segurança(s) pensavam que havia filmado a cena. Frases do género "vê a minha cara que eu não me esqueço da tua porque se o vídeo é publicado vais-me ver outra vez", houve ainda outro segurança que lhe pediu o telemóvel para se certificar que nada tinha sido filmado. Tudo isto num ambiente de raiva perante esta nossa atitude de censura daquele comportamento (...)

A preocupação dos seguranças com um vídeo não era fruto da sua capacidade de antecipar o que veio a acontecer dois anos e meio depois. Era apenas uma reacção ao que havia sido publicado duas semanas antes pelo Público: as imagens mostravam um segurança em funções a espancar repetidamente (a dada altura com a colaboração de um outro indivíduo) um homem, aparentemente bêbado e indefeso, na "Rua Cor-de-Rosa", no Cais Sodré. Naquela noite houve duas coisas que se tornaram claras. A primeira: que os seguranças do Urban Beach não tinham qualquer problema em aplicar a força extrema quando qualquer dose de força não era já necessária (assumindo que em algum momento, algum tipo de força tivesse sido justificada). E isto não é uma consideração subjectiva. Estamos a falar dum turista, claramente alcoolizado, de passada titubeante, que o casal amigo estava a conseguir afastar da porta do Urban. A segunda: ainda mais assustadora. O total sentimento de impunidade dos agressores. Aqueles homens agiram sem contenção, hesitação ou reflexão. Aqueles homens, claramente treinados, actuaram em grupo contra um indivíduo que parte da população masculina teria facilidade em derrubar sem a ajuda de outra pessoa. A impunidade foi tal que, à semelhança das imagens que tivemos o desprazer de ver esta semana, aqueles homens bateram e insultaram diante de uma plateia, no (suposto) exercício das suas funções. Havia dezenas de pessoas a assistir. Apenas um amigo e eu nos insurgimos. Ninguém na fila, em pleno ano de 2015 e nesta tão cosmopolita Lisboa, perdeu vontade de entrar na discoteca cujos seguranças acabavam de agredir de forma devastadora, um homem, bêbado e trémulo, pontapeado e atirado ao chão, prostrado física e psicologicamente, desrespeitado na sua mais elementar dignidade, vítima duma asfixia desnecessária e absolutamente bárbara. Naquele noite fui para casa com a sensação que, ao contrário do que disse ontem o advogado de um dos seguranças a propósito daquele vídeo  "(...) Foi um dia mau... foi um dia mau p'ro meu cliente. Um dia mau na vida dele. Apenas isso (...)", havia testemunhado apenas "mais uma noite na vida daqueles homens". É por isso que, quando leio todos os depoimentos disponíveis na internet não só os acho coerentes, como bastante verosímeis. É também por isso que acho que o Eduardo Cabrita, o recém-nomeado Ministro da Administração Interna (que, sou obrigado a reconhecer, não poderia ter actuado de forma mais imediata; o mesmo não se podendo dizer da autarquia e forças policiais), deveria ter algum pudor em dizer que “não faz sentido sequer colocar essa questão” quando lhe perguntam porque nada havia sido feito depois das (38) queixas existentes. Talvez se fosse um filho, sobrinho ou neto seu a apanhar pontapés na cabeça o ministro tivesse expressado uma opinião diferente. Talvez se os agentes da PSP não parecessem desincentivar (como sugerem alguns depoimentos à imprensa) os jovens agredidos a apresentar queixa, elas não fossem “apenas” 38. Talvez se a queixa referente ao episódio retratado no vídeo, tivesse levado menos tempo a ser registada que aquelas imagens a circular pelos telemóveis e computadores de meio Portugal, nos sentíssemos todos em melhores mãos. Talvez... talvez a gerência do Urban Beach e a administração do Grupo K tenham mesmo alguma responsabilidade nestes sucessivos espancamentos. E talvez o Gonçalo Rocha tenha razão, talvez eu tenha alguns preconceitos acerca do Urban. Mas não consigo deixar de pensar que... O único motivo que permite ao Urban Beach continuar a fazer dinheiro com as mesmas pessoas que parece disposto a maltratar, é a falta de solidariedade e consciência cívica de todos aqueles que, não tendo levado nunca pontapés na cara, continuam a ir ali sabendo que, naquela mesma noite e naquele mesmo lugar, é possível que uma cara com a qual se cruzem apanhe os ditos pontapés. A violência extrema que descobrimos naquelas imagens, não é explicada por um acesso de raiva único e irreproduzível. É a expressão de quem parece habituado a resolver os problemas à sua maneira. A falta de pudor com que se bate em público, é um esboço daquilo que se é capaz de fazer em privado. O sentimento de impunidade que aqueles homens exibem, sugere um historial pelo qual ninguém lhes terá exigido contas. Serve apenas de consolo a lição de que apresentar queixa não é afinal uma tarefa inútil. Ou acham mesmo que a divulgação isolada daquele vídeo, por mais selvagens que fossem os actos nele reproduzidos, teria conduzido ao encerramento do Urban Beach?

Obrigado a todos aqueles que, revelando coragem e responsabilidade cívica, apresentaram queixa. Há quem não tenha sequer a dignidade de, perante um espancamento completamente bárbaro e desnecessário, abandonar a fila e escolher outro sítio para dançar

(artigo actualizado às 10:52 do dia 16 de Novembro)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Incêndios 2.0



Lembram-se o que jornalistas e colunistas de todo o mundo ocidental, escreveram vezes sem conta, depois da vitória de Donald Trump? Que aqueles votos vinham da América profunda e que o grosso dos eleitores das grandes metrópoles jamais teria votado nele? Ninguém o disse categoricamente mas não consegui imaginar outro entendimento que não este: a opinião da população urbana importa mais que a da rural. Será que a vida de quem está na capital também vale mais que a de quem habita o interior? Ou por outra, será que estamos genuinamente preocupados com cada uma das vítimas dos incêndios? Ou sentimos apenas que 40 mais 60 são 100 e que – foda-se... – 100 é um número demasiado grande para olhar para o outro lado? As vítimas (mortos, feridos, desalojados, traumatizados) de Figueiró a Santa Comba têm pouca ou nenhuma voz. Não foram as mortes mas os números totais que elas perfizeram que tocaram o coração do país, geraram as ondas de solidariedade e cativaram os media. Porque estas pessoas – as que morreram agora, as que morreram em Verões passados e aquelas que vão morrer nos próximos anos – são quase sempre as mesmas: bombeiros e velhotes. Reportagens em Pedrógão mostram-nos idosos chorosos, às vezes ranhosos, desprovidos de capacidade de mobilização, destreza verbal ou telegenia. Será que sentimos realmente por eles? Será que sentimos por aqueles que, mais ou menos velhos, morreram em casa, nos carros, na rua, asfixiados e queimados? E por todos aqueles a quem, sobrevivendo, só restou chorar por quem já não puderam abraçar? À excepção do impacto brutal que uma centena de vítimas tem sobre todos, cada uma daquelas mortes pouco importa. Não geram por si mesmo dislikes, partilhas e notícias em escala que ponham um governo ou uma opinião pública em sentido. Onde é que está o Estado Social? No Facebook? E o nosso coração? A nossa formação, educação e cultura? No meu liceu havia dois bombeiros. Dois miúdos que costumavam ir fardados para a escola porque faziam parte do Regimento de Voluntários que havia ali ao lado. A farda não lhes granjeava reputação ou miúdas giras. Eram, na verdade... menos-cool-que-os-demais. Até Agosto de 2013, quando morreram 8 bombeiros em Agosto e foram aclamados heróis nacionais, o país inteiro parecia também... dar-lhes menos valor que aos demais.

Tinha cagado no Orçamento, no Sócrates e na Catalunha. Mas também eu fui sensível... aos números. Se os actores políticos (independentemente da sua cor) trabalhassem em função de outra coisa que não votos, talvez António Costa tivesse dito (e sentido o que disse) “depois deste ano nada pode ficar como dantes” em 2005 quando, Ministro (de Estado e) da Administração Interna, se registaram mais de 8.000 incêndios florestais, quase 350.000 hectares ardidos e 16 mortos (12 dos quais bombeiros). Mas se calhar nenhum de nós lhe exigiu isso. Se calhar nenhum de nós se esforçou, como aparentemente se estão a esforçar na Galiza, para lhe exigir isso mesmo

(artigo actualizado às 10:23)