sexta-feira, 1 de março de 2019

Quem regula o regulador? A falta de brio da ERC em 10 factos



Faz hoje precisamente um ano que submeti, através do site da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e via e-mail para o mesmo órgão, uma reclamação sobre a actuação do jornal online OBSERVADOR. A reclamação foi submetida, via site da ERC, através de um ficheiro em formato pdf com um conjunto de ligações que ilustrava cada um dos factos apresentados. Cada uma destas ligações foi submetida também, por e-mail em formato pdf, perfazendo um total de 32 anexos. Acredito que posso dizer, em verdade, que a própria reclamação exibia, ela mesma, uma quantidade muito significativa de ficheiros que a sustentavam e validavam. Dito de outra forma, arrisco a dizer que poupava uma porção de tempo muito significativa aos técnicos da ERC. Sobre a reclamação em causa e a aparente total falta de acção por parte da ERC deixo 10 factos. Não são opiniões ou juízos de valor. São 10 factos.


Facto nº1
No final de Fevereiro do ano passado dei-me conta que o OBSERVADOR apresentava publicidade sem a identificar como tal. Sem prejuízo de tal ter acontecido também na versão web (aquela à qual se acede através de um browser), a não identificação de conteúdos patrocinados enquanto publicidade (ou sem o logótipo da marca que paga o conteúdo) acontece de forma repetida e sistemática na aplicação móvel do OBSERVADOR.

Facto nº2

Facto nº3
Os dois primeiros parágrafos do Estatuto Editorial do OBSERVADOR dizem: “O Observador é um jornal diário online, independente e livre”. O Observador procura a verdade e subordina-se aos factos. Nunca nos deixaremos condicionar por interesses partidários e económicos ou por qualquer lógica de grupo. Somos responsáveis apenas perante os nossos leitores”.

Facto nº4
No dia 1 de Março de 2018 apresentei, junto da ENTIDADE REGULADORA PARA A COMUNICAÇÃO SOCIAL (ERC), uma reclamação sobre o OBSERVADOR na qual apresentei registos que comprovam o Facto nº1. A reclamação tem o/a seguinte número/referência: 500.10.01/2018/57.

Facto nº5
À data da reclamação os termos e condições do OBSERVADOR os Termos e condições do OBERVADOR continham, no ponto 6.1 (Conteúdo Patrocinado), a seguinte frase: “Nesta modalidade o anunciante não interage diretamente com a equipa editorial e os conteúdos são produzidos autonomamente pela redação”.

Facto nº6

Facto nº7
Depois de, no dia 6 de Março de 2018, através de publicação neste blogue, ter tornado pública a reclamação à ERC, fui contactado via e-mail por uma responsável do OBSERVADOR. Nesse e-mail, de 13 de Março de 2018, é escrito pela responsável em questão – sobre o não aparecimento do logótipo da marca que patrocina o artigo – “Relativamente à aplicação mobile do Observador é algo que já estamos a resolver e que em breve estará solucionado”. É também escrito “Os termos e condições estavam de facto a precisar de uma atualização, já efectuada entretanto caso queira confirmar”.

Facto nº 8
Os termos e condições foram alterados. A sinalização dos conteúdos patrocinados como publicidade (ou com o logótipo da marca que paga o conteúdo, como consta nos novos termos e condições) na aplicação móvel, não. Passados mais de 350 dias desde o e-mail da responsável do OBSERVADOR, a aplicação móvel do jornal cujo último parágrafo do estatuto editorial é “O Observador estará na linha da frente do processo de mudanças tecnológicas e relacionais, sempre atento à inovação e promovendo a interação com os seus leitores” CONTINUA A APRESENTAR PUBLICIDADE NÃO IDENTIFICADA ENQUANTO TAL.

Facto nº9
A submissão da reclamação 500.10.01/2018/57 foi feita no dia 1 de Março de 2018. Desde então não recebi da parte ERC qualquer resposta, explicação, esclarecimento ou qualquer outro tipo de comunicação sobre a mesma.

Facto nº 10
Segundo os próprios estatutos da ERC, o prazo máximo total para que seja proferida a sua decisão (artigo 58º), tendo em conta os prazos para a notificação do denunciado e para o seu exercício de defesa (artigo 56º), e para a realização de uma audiência de conciliação (artigo 57º), não poderia ultrapassar os 55 dias. Não me estou a queixar por terem passado 2 ou 3 meses (por essa altura já havia contactado a ERC por telefone, e-mail e visitado as suas instalações). Passou um ano. Passaram 365 dias e não recebi em nenhum momento qualquer comunicação da ERC.


Considero o OBSERVADOR um jornal de referência (só a título de curiosidade: sou assinante da publicação). Mas acho que é verdadeiramente inqualificável que esta marca editorial apresente publicidade sem a identificar como tal. Infelizmente, esta é uma prática muito mais comum do que se possa imaginar. Acredito que haja outros órgãos de comunicação social a cometer abusos ainda mais graves que aqueles que têm sido cometidos pelo OBSERVADOR (o que só evidenciará  ainda mais a relevância da acção da ERC). Em todo o caso, o caminho que o OBSERVADOR escolheu seguir revela um profundo desrespeito pelos seus leitores, pela lei e pelo seu próprio estatuto editorial. E compromete o capital democrático da sociedade portuguesa (algo para o que, importa reconhecer, este jornal tem por hábito contribuir). Os órgãos de comunicação só ajudam a edificar uma sociedade mais transparente e igualitária se a sua própria acção se desenrolar sob esses mesmos princípios. Note-se por favor que, três dias antes de dirigir a reclamação à ERC, redigi um e-mail a um conjunto de responsáveis do OBSERVADOR (Publisher, Director Executivo e Directora Adjunta incluídos). Não obtive qualquer resposta.

É inadmissível que a ERC, órgão do qual se espera que assegure o cumprimento da lei por parte das entidades que exerçam actividades de comunicação social, não se digne sequer a cumprir a lei que dita a sua própria criação. Ou que não se ocupe sequer a dar o mais pequeno feedback àqueles que, através de uma cidadania activa, se dirigem a ela. Àqueles cujas reclamações são, por assim dizer, a razão da sua existência. Mais grave ainda que ter que fazer uma reclamação sobre o OBSERVADOR à ERC, é ter que apresentar uma reclamação sobre a ERC à Assembleia da República. A mesma que vou tratar de apresentar em seguida.

domingo, 13 de janeiro de 2019

10 anos de Alfaiate


10 anos, até para um octogenário, são isso mesmo que acabei de dizer: 10 anos. Para alguém que, como eu, não chegou sequer aos 40, 10 anos são muita coisa mais. Completaram-se 10 anos de Alfaiate. Muita coisa mudou no mundo entretanto. Primeiro que tudo: (quase) toda a gente sabe o que é um blogue. Já para não falar que, volvidos estes 10 anos, torna-se difícil encontrar alguém que, entre blogger, wordpress, tumblr, facebook, instagram, linkedin, snapchat, twitter e pinterest, não tenha tido – em algum canto da internet – uma página pessoal onde se tenha entretido a publicar palavras, imagens ou vídeos, para uma audiência muito ou pouco alargada.

Já devo ter escrito por aqui muitas vezes que este blogue mudou a minha vida. Curiosamente nunca me apresentei  como blogger. Era, sou e até ver continuarei a ser, um tipo que tem um blogue. Ou dois (mas sobre isso já falamos mais à frente). Este blogue trouxe-me muita coisa boa e, gosto de pensar, que também ele terá trazido momentos engraçados àqueles que aterraram por aqui. Posso dizer – com toda a humildade – que sinto que trouxe alguma coisa de singular. Talvez porque quando o Alfaiate  apareceu, pouca gente em Portugal tinha perdido muito tempo a abordar pessoas na rua. Mas também porque, nesse universo interminável de blogues cujos autores fotografam gente pelas ruas desse mundo fora, desconfio que este teve quase sempre uma abordagem mais pessoal, humana e, aqui e ali, mais literária também. Mas 10 anos são isso mesmo: 10 anos. E deve ser fácil de perceber, para os poucos que ainda aqui passam, que me fartei de fotografar gente na rua. Da mesma forma que, para ser completamente honesto, também me fartei um pouco de responder às pessoas que, tão simpaticamente, ainda me perguntam “porque não o voltas a fazer? (qual prova de que às vezes – maldita condição humana – também nos fartamos das coisas pelas quais devemos ser gratos)

A dada altura passei a ter a sensação de que tudo o que me acontecia na vida decorria, directa ou indirectamente, do facto de ter começado um dia este blogue. Agora há duas coisas que – para além de qualquer dúvida – nunca teria feito se não tivesse começado um dia O ALFAIATE LISBOETA. Uma é a marca CAIÁGUA, que acabou de estar presente na Pitti Uomo, a convite da organização. “Os caiáguas” são aquilo que costumo descrever, de forma divertida mas a falar a sério, como os mais bonitos  casacos impermeáveis do mundo.

A outra é algo que, a dez anos de distância, me faz lembrar este blogue. O quê? Um outro blogue. A HOUSE IN LISBON. E se acho que consegui fazer algo de singular com o que muita gente entendeu apelidar de moda, o desafio é ainda maior quando se trata de fazer um blogue sobre imobiliário. De resto aquilo que só hoje é inaugurado, já me valeu uma história única. Mas isso ficará para outras núpcias. Por ora deixo-vos aquilo que pretendo que seja uma abordagem transparente ao imobiliário nacional e, mais em particular, à transformação urbana que Lisboa e arredores têm assistido nos últimos anos. A HOUSE IN LISBON. Espero que gostem. A mim já me está a dar o mesmo gozo pueril que senti, neste  preciso sítio, há exactamente 10 anos

Um abraço e (muito) obrigado,


José Cabral

domingo, 30 de dezembro de 2018

#YOU TOO?




O caso da suposta violação da jovem americana por Cristiano Ronaldo veio evidenciar ainda mais o que já parecia óbvio. Muito mais que causas, abraçamos dinâmicas sociais e campanhas de marketing. Se forem promovidas por figuras públicas, tanto melhor.

Catarina Furtado, num pretenso rasgo de espontaneidade, conta na RÁDIO COMERCIAL que foi alvo de assédio sexual. Partilhou depois, via Facebook, que nunca havia tocado no assunto «porque de facto nunca calhou» e que queria que a filha e a enteada percebessem que podem dizer não «quando um homem mais velho utiliza o seu “poder” para tentar algo mais». Fica a sensação que a mulher mais bonita da televisão portuguesa usa as redes sociais para levar acabo aquilo que, regra geral, os seres comuns fazem sentados à mesa, no sofá ou à beira da cama dos adolescentes que têm a seu cargo. Se tenho pouco ou nada a ver com o estilo materno que Catarina Furtado adopta, não consigo deixar de experimentar uma certa repulsa pela falta de respeito pela inteligência alheia e, mais grave ainda, pela seriedade e sensibilidade que o tema deveria exigir. Deixa de ser o testemunho ao serviço da causa mas a causa a servir uma máquina de produzir conteúdos às ordens duma estatística detalhada de gostos, comentários e partilhas que serve celebridades, influenciadores mais as filhas e os filhos das mães que os pariram.

Lembram-se dos mesmos seres humanos sensíveis que aplaudiram de pé as mulheres que vieram para a rua expor as suas experiências traumatizantes? São as mesmas jóias de pessoas que agora sugerem, sem grandes reservas, que a norte-americana que acusa Cristiano Ronaldo não passa duma meretriz a quem caberia – sentada num bar ou deitada numa cama – atrair e entreter ricaços. Traduzido por miúdos: sensibilizamo-nos porque alguém propôs o que nunca deveria ser proposto à Catarina e solidarizamo-nos com ela porque se recusou a actuar sob pressão. Mas sabemos bem com que tipo de adjectivos brindamos as miúdas à nossa volta que cedem um milímetro ao que quer que seja. Claro que desse tipo de categorizações Catarina Furtado está a salvo. Para esse enxovalho existem raparigas como a Kathryn Mayorga. Mesmo que, segundo ela, tenha sido violada.

O Cristiano Ronaldo é um dos heróis maiores da história contemporânea nacional. Mas não deixa de ser um gajo como outro qualquer. Mesmo que tanta gente esteja disponível para o ilibar do que quer que seja porque marca 50 ou 60 golos por época ou porque a sua conta de Instagram nos diz que ele é (também) o melhor pai do mundo. Ou que custe a estas pessoas entender que 1) nem todas as fêmeas deste mundo sonham ir para a cama com o Ronaldo, 2) que uma mulher com esse sonho pode, por um qualquer motivo, recusar deitar-se com ele. O mais curioso é que se criou o mito de que a norte-americana esteve 9 anos calada quando, na verdade, apresentou queixa no dia seguinte. Ou se quis ignorar que Cristiano Ronaldo terá escrito, entre outras coisas, que «Ela disse “não” e “pára” diversas vezes». Mas que importa isso? Respondido por um amigo meu: «Zé, ela estava em Las Vegas!». Não estou a sugerir que estes dados provem que Cristiano Ronaldo tenha feito o que quer que seja a Kathryn Mayorga. Estou a afirmar outra coisa muito diferente: que o nosso compromisso com o respeito e a dignidade humana tem, não apenas limites, como sensibilidades e subtilezas diversas consoante as origens da solicitação. E que isso diz muito sobre nós. Tanto quanto as palavras de Catarina Furtado parecem dizer sobre ela.

Já protagonizei figuras mais ou menos edificantes com mais ou menos roupa por cima da pele. Mas nunca pus a pila onde me disseram que ela não podia estar. Respeitar esse mandamento elementar de boa convivência em sociedade não dá direito a Nobel. É apenas algo que eu e todos os outros (Cristiano incluído) temos que respeitar.

O #MeToo está, como qualquer outra coisa partilhada em praça pública, repleto de idiotices e imbecilidades. Mas, a terminar 2018, é importante lembrar o essencial do seu legado e o quão importante é ele poder andar à solta pela dita praça. E quando algum de vós sentir dúvidas sobre o quanto vale aquele hashtag (e toda a vergonha e sofrimento que deu a conhecer), sugiro o seguinte texto: Desorientações com o Me Too, de Maria João Marques no OBSERVADOR. Não tanto pela tesão que dá uma mulher que escreva de forma tão sublime. Mas porque dificilmente alguém escreveria melhor o que ela escreveu. E por favor, alguém o dê a ler à Catarina. E just in case, ao Cristiano também. Eu falo com o meu amigo que nunca foi a Vegas

[este texto foi publicado na crónica YOU TALKING TO ME'? na edição de Dezembro da GQ PORTUGAL]

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

O meu ídolo






















Gosta de futebol? Sim? Note: não perguntei se gosta do Trio D’ataquePlay-offDia SeguinteProlongamentoLiga D’ouro ou de qualquer outro programa que promova sessões de pancada a três cores. Também não perguntei se segue o director de comunicação do seu clube nas redes sociais. Perguntei apenas se gosta de futebol. Nos tempos que correm, em que se passa mais horas a falar sobre as pessoas que falam sobre futebol que sobre a própria modalidade... o meu ídolo é, precisamente, o homem que melhor discorre sobre ela. Não me refiro a nenhum dos senhores que é convidado a ir a um estúdio de televisão, dizer o que for necessário para promover o seu clube e rebaixar os demais. Refiro-me a uma pessoa para a qual, antes do clube, parece estar sempre a paixão pelo desporto. Refiro-me a alguém que ama verdadeiramente o futebol. Porque gostar de bola é mais que saber contar os campeonatos e as finais europeias conquistadas pelo nosso clube. É sentir uma devoção sincera por todos aqueles que – do Di Stéfano ao Ronaldo – contribuíram para os mais belos momentos da sua história. Amar o futebol é saber porque vamos sempre recordar o Panenka, mas lembrar também quem foi o Rik Coppens e o que fez ele com o André Piters. É saber que no dia 22 de Junho de 1986 tiveram lugar, no mesmo jogo e “pela mão” do mesmo jogador, os dois golos mais famosos da história do futebol mundial. O primeiro porque foi efectivamente marcado com a mão. O outro porque é considerado, sem lugar a grandes discussões, o melhor golo de todos os campeonatos mundiais. Marcados por quem? Não tinha dito que gostava de futebol? Gostar de futebol é saber que vale sempre a pena sentarmo-nos a ver um vídeo do Maradona, mas reconhecer que é quase sempre tempo mal gasto levar a sério o que ele tem para dizer. É recordar com carinho as gafes do Gabriel Alves ou as locuções em gíria africana do Jorge Perestelo. Gostar de futebol e da sua história é ter a consciência de que devemos ao Cristiano Ronaldo o facto de já não haver uma pessoa no mundo com dúvidas sobre se Portugal é ou não um país independente.

O meu ídolo tem, aos 40 ou 41 anos, um discurso mais sábio e meticuloso que um octogenário que coleccionou cromos da bola uma vida inteira. O Rui Miguel Tovar – filho de Rui Tovar, um outro apaixonado pela bola – não é apenas o gajo que faz os mais belos retratos do desporto-rei. É um enciclopedista no sentido literal da expressão. Um anormal que memoriza factos, partilha histórias e debita curiosidades. O tipo que põe o Jürgen Kohler a falar do slalon que o João Vieira Pinto fez pela defesa alemã em 1996 (o que teria sido da carreira dele se o Köpke não tivesse conseguido desviar aquela bola para canto?). Um dos poucos homens, num cenário futebolístico cada vez mais bacoco e abjecto, que nos continua a lembrar o quão fantástico é o desporto e o quão bonita é esta modalidade. O gajo que entrevista o Gattuso, os dois maiores Jaimes do futebol português (o Magalhães e o Pacheco), o Mamadu Bobó, o Zagallo (o primeiro dos únicos três homens neste planeta que foi campeão mundial enquanto jogador e treinador), o Menotti o Mikhailichenko o Valderrama ou a Carmizé, a viúva do Yazalde. E é por todas estas coisas que há uns meses, quando percebi que o meu ídolo tinha escolhido o mesmo restaurante que eu para jantar, tive que protagonizar a distinta figura de tanso a que todos os homens comuns se prestam perante os seus ídolos. Ainda invoquei perante a minha mesa, para mitigar a minha condição de otário, um “não sou nada destas coisas, se fosse o Ronaldo nem pousava os talheres”. Nada feito, fui gozado o resto do jantar. Mas a verdade é que agora tenho direito a enviar e-mails ao meu ídolo (e a cujas respostas me esforço por não responder no mesmo dia, para não o maçar em demasia). Falta dizer que este tipo é adepto do emblema rival do clube que, aos 4 ou 5 anos, escolhi para o resto da minha vida. E que foi por causa dele e das suas partilhas, que criei uma conta no Twitter. Porquê? Porque ele trata o desporto como nenhum outro. E a verdade é que, quase tão importante quanto termos o melhor do mundo a jogar à bola, é ter o melhor do mundo a cuidar da sua história. E tal qual o pai do Cristiano, também o pai do Rui o deve olhar lá de cima com um orgulho do caraças

[este texto foi publicado na crónica YOU TALKING TO ME' da edição de Novembro da GQ PORTUGAL]

domingo, 11 de novembro de 2018

Quando o São Martinho falha desta maneira, fica claro que Portugal inteiro precisa de um CAIÁGUA

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É uma desculpa como outra qualquer mas, pensado bem, uma desculpa consideravelmente melhor que tantas outras que costumamos encontrar em posts patrocinados, press-releases e tretas afins. Quando chove torrencialmente em Portugal no mítico dia 11 de Novembro (para os mais distraídos, aquele dia em que nunca chove porque, num dia longínquo, um cavaleiro gaulês transformou uma tempestade num dia bonito, com um gesto de solidariedade) parece-me legítimo concluir que habitantes deste país conhecido pelo generoso rácio de dias soalheiros estão mesmo a precisar dum CAIÁGUA.

E se calhar também é uma boa oportunidade para me gabar pelo facto de a marca ter sido convidada  a estar presente na Pitti Uomo (sim, é aquela feira onde se vê homens a posar como meninas a cada 10 metros, mas não deixa de ser a maior feira de roupa de homem do mundo). Mas por falar em meninas, talvez seja importante lembrar que os casacos são unissexo...

Para quem não conhece:
www.caiagua.com

domingo, 21 de outubro de 2018

O CHICHI DA KELLY


Cheguei às 12h em ponto. Um toque em cadeia a caminho das Amoreiras havia deitado por terra o plano de chegar dez minutos antes. E, por causa desse imprevisto, já sentia sobre a pele o efeito conjunto do caminhar apressado, do traje formal, dos 30˚C à sombra e do receio de chegar atrasado a uma entrevista de emprego. Apresentei-me à senhora que estava na recepção. Ela agarrou no telefone, anunciou a minha presença e pediu-me que aguardasse. Assim o fiz. Passados alguns minutos volto a aproximar-me e pergunto pela casa de banho. A resposta foi esta:
–  Não temos casa de banho.
Encaixo a resposta, volto a recuar, mas regresso novamente até junto do balcão:
– Permita-me o feedback, parece inacreditável que não tenham casa de banho.
A senhora cuidou de reformular:
– Temos casa de banho, mas é apenas para colaboradores.
Renovei a minha estupefacção e resignei-me à condição daqueles a quem não é permitido usar o WC. A senhora sublinhou que eram as instruções que tinha e eu pedi apenas que fizesse chegar o meu desapontamento a quem quer que lhas tivesse dado. Momentos depois acrescentou:
– Se precisar mesmo pode ir ao café. Posso avisar o consultor...

Poderia discorrer sobre o que significará “precisar mesmo de ir à casa de banho”, ou sobre que responsabilidade social exibe uma empresa que convoca pessoas às suas instalações e lhes indica o café mais próximo quando estas perguntam pelo WC. Mas cinjamo-nos aos factos. Não ando por Lisboa a testar instalações sanitárias. Recebi, de um consultor da Kelly Services, uma mensagem via LinkedIn, um telefonema, um convite para uma entrevista e uma confirmação via e-mail. Estamos a falar de uma multinacional que, segundo ela mesma, «é a quarta maior empresa de Gestão de Recursos Humanos do mundo». Estamos a falar de uma entidade respeitável, com sede nacional num imóvel imponente (o mesmo onde foi solicitada a minha comparência), e cuja operação passará por convidar, diariamente, dezenas e dezenas de pessoas a visitar a sua dúzia de agências em Portugal. Estamos a falar de uma empresa cujo objecto do seu trabalho são as pessoas e os seus atributos. E para ser o mais objectivo possível, estamos a falar de uma empresa que, naquela data e local, não respeitou as necessidades mais primárias de qualquer ser humano.

Não creio que seja necessário elencar os imperativos pelos quais o nosso organismo se rege ou enfatizar que nem sempre nos é permitido protelar uma ida à casa de banho. Que fazemos chichi e cocó com mais frequência quando estamos nervosos ou que, como tão bem se saberá numa empresa de recrutamento, muitos de nós ficam mais tensos quando são avaliados. Parece-me desumano negar o acesso a um WC a alguém que se convida para uma entrevista de emprego. E mesmo que, como quero acreditar, este episódio seja mais culpa de alguém em quem se depositou mais responsabilidades do que seria aconselhável (o que abona pouco a favor de quem recruta em nome de terceiros) que de alguma cultura corporativa, é interessante constatar o seguinte: a menos de 100 metros da sua sede, há um outdoor da Kelly com a inscrição THE BEST TALENTS ARE LIKE STARS (os melhores talentos são como estrelas). Pode até questionar-se a tradução mas há duas ideias que ganham forma: nem os corpos celestes que a Kelly Services recruta precisam de ir à casa de banho, nem o marketing parece responder por algumas das suas acções. E pensando bem: que melhor pessoa para faltar ao respeito, que àquela cuja situação não permite fazer reivindicações, sob pena de se poder prejudicar? Porque é disso que esta crónica trata: da facilidade com que uma parte tira partido do poder sobre a outra e como se permite desrespeitá-la.

Quando o consultor apareceu, expliquei que não faria uma entrevista num local onde se exibia tamanho desrespeito pela condição humana. Como não mencionou qualquer mal entendido deduzi que, quando a senhora da recepção sugeriu que me dirigisse ao café mais próximo, estaria genuinamente a tentar ajudar. Espero que esta crónica seja um win win. Para mim, porque a forma como o Homem trata o seu semelhante é sempre um tema importante. Para a Kelly, porque o gigante mundial da gestão de recursos humanos pode, com toda a certeza, cuidar bem melhor daqueles que justificam as suas receitas.

[este texto foi publicado na crónica YOU TALKING TO ME' da edição de Outubro da GQ PORTUGAL]

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Talvez o Trevor Noah seja menos esperto do que julgue. Talvez eu seja menos racista do que pareça




Nota introdutória
Se a utilização de termos como “preto” ou “preta”, em alternativa a expressões como negro”, “negra” ou “de cor” o deixam desconfortável, é previsível que considere este texto racista. Dito isto, não deixa de ser curioso que quando nos reportamos ao contexto norte-americano, o mais mediático em matéria de segregação racial, sejam as expressões “colored” e “nigger” (esta última deriva precisamente do português e espanhol “negro”) a dar corpo a conotações depreciativas. Por cá parece ter ficado consagrado que o termo depreciativo é também o mais prosaico de todos: “preto”. O mesmo termo que a maioria dos portugueses usa quando comunica consigo mesmo, ou seja, quando faz algo tão simples e espontâneo (e a salvo de qualquer censura alheia) quanto pensar.


A cor dos campeões, a discriminação e a preferência
O trabalho do Trevor Noah é assegurar que o THE DAILLY SHOW tem graça. Na semana passada o apresentador proclamou no seu programa que África havia ganho o campeonato do mundo.


Discordo em absoluto, como acusaram alguns pretos e muitos brancos, que a piada do Trevor Noah seja racista. Mas parece-me claro que sugere que africanos e seus descendentes por todo o mundo apoiaram a selecção francesa porque a maioria dos seus jogadores são pretos. Estou perfeitamente confortável com isso. E estou também pouco convencido de que seria necessário o Embaixador francês nas Nações Unidas enviar uma carta ao apresentador sul-africano a explicar aquilo que não carece de explicação: porque é que aqueles jogadores são franceses. A única coisa que o diplomata parece ter conseguido foi sujeitar o seu país e os seus compatriotas ao gozo e à critica (quanto a mim, nem sempre com a honestidade intelectual desejável) em pleno horário nobre da TV norte-americana. Mas a primeira questão é esta: as nossas preferências pessoais não devem ser confundidas com actos de discriminação. O Trevor Noah tem todo o direito em simpatizar com a selecção francesa porque a maioria dos jogadores são pretos ou por qualquer outro motivo, muito ou pouco relacionado com raça. O que talvez importe lembrar é que a mesma lógica se aplica à minha vontade de torcer, numa final olímpica dos 100 metros ou 10 000 metros, pela vitória de um atleta sul-africano pelo simples facto de ele, como eu, ser branco.

Há dias, quando discutia a qualidade dos argumentos do Trevor Noah e dizia uma coisa tão simples quanto “ele simpatiza com os franceses porque são pretos” uma amiga (branca) sugeriu que a minha afirmação lhe parecia racista. Decidi lembrar-lhe (deve ter-me parecido a derradeira prova da minha condição de “não racista”) que estava a dizer aquilo a alguém que poderia perfeitamente ter um “filho preto”. A resposta foi pronta: ela também não descartava a hipótese de adoptar uma “criança negra”. Este momento hilariante talvez diga algo sobre parte do racismo que ainda subsiste: aquele pelo qual as próprias pessoas que o reproduzem não se dão conta (ainda assim reconheça-se, bem menos cruel que outras modalidades). Quando falo em ter um filho preto penso em amar uma preta e fazer aquilo que, genericamente falando, gosto de fazer com mulheres, em particular com aquela por quem me apaixono. A polidez da minha amiga não lhe permite falar “em equipas de pretos” mas a percepção de ter um filho preto, transporta-a imediatamente para um cenário de adopção. Por outro lado, como ela alertou: o facto de não se imaginar com pretos pode ser apenas uma preferência que se junta a tantas outras, como não se sentir atraída por homens baixos. E de repente, aquilo que descrevi categoricamente há meia dúzia de linhas como racismo, talvez não o seja. Não se combate o racismo depreciando uma série de preferências pessoais que belisquem o artificialismo consagrado pelo pensamento politicamente correcto. E enquanto continuarmos a despender tempo a ofendermo-nos com o termo “preto” ou benzermo-nos cada vez que é contada uma anedota sobre o mesmo preto estamos claramente a falhar o caminho. Quando digo que o “João é o preto” estou apenas a esforçar-me por que se perceba a que João me estou a referir. Da mesma forma que, numa conversa sobre a selecção francesa, a forma mais simples de descrever o Giroud é “o branco que joga lá à frente”. Não sou seguramente a pessoa mais autorizada a definir o que é, ou onde começa e termina o racismo. Mas deste leque de definições propostas por não brancos, que o PÚBLICO publicou no Verão de 2016, aquela que Albertino Bragança deu parece-me de longe a mais lúcida e objectiva: “Quando se fala de racismo a palavra vem de raça, né? De raça... Há duas raças em presença e, tudo aquilo que impede um dos lados de usufruir do espaço que devia ser comum... tendo como base a cor da pele, é racismo... completo”.

Conto anedotas de pretos com a mesma naturalidade que me rio de louras ou de alentejanos. Sei que nem alentejanos nem louras foram sujeitos a séculos de abusos mas será que é a promover e instituir sensibilidades diferenciadas que vamos eliminar os mesmos tratamentos diferenciados que definem o racismo e caracterizam a sua expressão? É a deixar de brincar que vamos incluir? É a erradicar a palavra “preto” que vamos combater as injustiças sociais que ainda decorrem de tratamentos desiguais entre “brancos” e “não brancos”? A forma imbecil como, em Portugal, agentes políticos e media tratam o racismo vai continuar a reproduzir o estado actual das coisas. No espaço público os pretos serão retratados em terminologias cada vez mais “african friendly”. No espaço privado, continuarão a não ser bem-vindos em casas de muitos brancos e a ser preteridos em contextos profissionais, sempre que não exista a perspectiva de responder a uma motivação politicamente correcta ou de retirar uma vantagem financeira da exploração de algum recurso natural oriundo do continente africano.

(e quando o Trevor parece baralhar tudo...)
Acho mesmo que o Trevor Noah presta um mau serviço ao combate à discriminação racial quando diz (o PÚBLICO optou por traduzir “nigger” por “preto”): “O contexto é tudo. Há coisas que algumas pessoas podem dizer. Há uma grande diferença entre eu dizer ‘então, preto?’ e um branco dizer ‘então, preto?’ Quando digo que eles são africanos não o estou a fazer para excluir mas para os incluir na minha africanidade”. Parece-me que o motivo mais provável pelo qual um “preto” trata outro “preto” por “preto” não se prende tanto com a inclusão de uma dada africanidade mas com a percepção, mais ou menos consciente, de que aquele atributo que têm em comum, é também o motivo pelo qual são ou foram discriminados. É óbvio que isso os une de alguma forma. Mas eles não escolheram essa união, o establishment empurrou-os para ela. Os guetos não se formaram para celebrar a africanidade ou qualquer outro tipo de identidade regional. Um preto trata outro preto por preto pelos mesmos motivos pelos quais, tantas vezes, é obrigado a viver em sítios onde vivem apenas outros pretos. Talvez o Trevor Noah pudesse pensar melhor sobre o assunto. E reflectir se condicionar o que uns e outros podem ou não dizer sobre um mesmo tema é combater o racismo. Ou uma tentativa de promover uma sensibilidade pessoal a artigo da constituição. E isso é quase tão estúpido e intolerante quanto maltratar em função da raça. Cheguei a temer, a dada altura, que este comediante sul-africano sugerisse uma espécie de apartheid humorístico, segundo o qual apenas a um preto fosse permitido rir ou contar anedotas sobre pretos.


De volta a França
Agora em 2018, como antes em 1998, as pessoas parecem algo surpreendidas por a selecção nacional francesa ter tantos pretos (ou não brancos). Questiono-me se essas mesmas pessoas têm tido a oportunidade de viajar até ao país mais visitado no mundo. É que das últimas vezes que passei por Paris ou outras cidades francesas (admito que essa realidade seja diferente nas zonas rurais, de resto à imagem do que também sucede em Portugal ou Inglaterra) não vejo apenas brancos. A ideia de que França é um país branco é uma perfeita idiotice. E nesse sentido podíamos até discutir se o humor do Trevor Noah terá sido sequer inteligente (o que não invalida que tenha tido graça). Se em França se promove ou não esta ideia de diversidade? Não sei. Uma coisa parece clara: até dia 15 de Julho parte do mundo (aparentemente, Trevor incluído) continuava convencido de que a França é essencialmente branca.


O caso português
No nosso pais não há campanha de natureza institucional, politica ou comercial que não tenha um não branco o que, na maior parte das vezes, significa ter pelo menos um preto. Desconfio que, mais que por qualquer sentido de fidedignidade para com realidade portuguesa, se percebeu que esse seria o melhor caminho para obter, em alguns casos mais votos, em outros mais vendas. Se recordar alguns dos cartazes eleitorais do Partido Socialista, durante a campanha para as eleições legislativas de 2015, é bem possível que concorde que António Costa apresentava um tom de pele mais claro. Terão sido apenas as doses habituais de maquilhagem e Photoshop? Talvez sim. Ou talvez não.

Às vezes fica em a sensação que, em Portugal, o racismo é definido em torno das subtilezas do "negro" e da "pessoa de cor". Enquanto isso, atitudes e comportamentos verdadeiramente dolosos para abolição de diferenças no tratamento entre "pretos" e "brancos" continuam a passar por baixo da mesa. Imagine o cenário: o condutor da frente faz um daqueles disparates monumentais que coloca em risco a segurança de todos aqueles que se encontram à sua volta num raio de 20 ou 30 metros. E digo, mais alto ou mais baixo e com maior ou menos irritação: “idiota de merda”. Imagine agora que o gajo tem um cachecol do Sporting. É bem provável que eu (adepto benfiquista) me refira a ele como “lagarto de merda”. Parece-me claro que não estou a sugerir que sportinguistas não cumprem o Código da Estrada. Quando nos queremos afastar de alguém (porque não gostamos da pessoa, porque estamos chateados com ela ou discordamos da forma como pensa ou age), trate-se de um perfeito estranho ou do nosso irmão gémeo, tendemos sempre a valorizar os atributos que nos distinguem. Dito isto, se for um preto (estou consciente que “um condutor preto” lhe soaria um pouco menos mal; sucede que não estou aqui para lhe proporcionar qualquer tipo de conforto mas, precisamente, para lhe sugerir que o questione) é possível que grite “preto de merda”. E uma vez mais, não estou a promover qualquer sentimento específico sobre um hipotético desrespeito dos pretos pelo Código da Estrada nem nenhum outro ódio generalizado. E da mesma forma que não me incomodaria fazer coisas tão distintas quanto casar com uma sportinguista ou contratá-la para trabalhar comigo, o mesmo se aplicaria também a uma preta (bem como, se me é permitido o exemplo imbecil, a uma preta do Sporting). Não nego que há expressões mais hostis que outras e que cada um tem direito às suas susceptibilidades (e que podemos e devemos tentar atender a elas). Nem que insultar automobilistas ao volante não é o melhor momento para educar os filhos. O que as próximas gerações precisam é que se lhes ensine que a cor de pele não importa. Mas não é não importar, de forma selectiva e artificial, para este ou aquele efeito. É não importar para nada.

Um dia, um amigo que se casou com uma indiana, fez questão de me explicar que caso a sua mulher fosse preta a sua família dificilmente aprovaria a união. Mas o que é verdadeiramente curioso é que ele não estava apenas a descrever o degradée de susceptibilidades raciais que caracterizam a sua consciência familiar. Mais que qualquer outra coisa, ele parecia fazer questão de assegurar que eu entendia que o seu clã mantinha – de acordo com a sua percepção de “família de bem” – os mesmos valores de sempre. E o que talvez importe lembrar é que, porventura, em muitas reuniões de (“boas”) famílias por esse Portugal fora, a ostentação do preconceito e do tratamento diferenciado com base na etnia (e em muitas outras coisas) é sinal de pedigree. O discurso da inclusão perde sempre – na esfera privada  o braço de ferro com a tradição, esse valor absoluto que serve de desculpa para quase tudo, incluindo discriminar semelhantes. E o mais provável é que muitas destas pessoas estejam mais que à altura das exigências do espaço público. Já eu... não me surpreenderia que alguns dos pretos que me são mais queridos ficassem lixados com boa parte do que escrevi hoje

quinta-feira, 17 de maio de 2018

O Bruno de Carvalho que há dentro de cada um de nós



Vaná, guarda-redes do F.C. do Porto partilha, de forma um tanto ou quanto ingénua, “o futebol não é isso”. A Liga Portuguesa de Futebol Profissional emite um comunicado onde se lê “Os executores destes comportamentos não são adeptos de futebol, mas sim criminosos” (aparentemente, por um qualquer imperativo filosófico, quem é uma coisa não pode ser a outra). Pedro Proença, segue à risca o depoimento do organismo a que preside e diz que “aquilo que hoje se passou não é um caso... desportivo, é um caso obviamente, um caso de polícia”. Pedro Ivo Carvalho, subdirector do JN, baptiza o seu artigo de opinião com um retumbante “Eles não gostam de futebol”. Nuno Correia da Silva, vice-presidente da Holdimo e administrador não executivo da Sporting SAD apresenta uma versão um pouco mais idiota que as anteriores. Segundo ele “quem fez isto não é do Sporting, apesar de poder julgar que é”. Se passasse mais tempo no Google ou deixasse a televisão ligada em um dos canais de informação encontraria mais pessoas, com diferentes graus de responsabilidade na matéria, a empobrecer o discurso com comentários que alinham na retórica negacionista de que aqueles tipos e aqueles actos nada têm a ver com futebol.

Questiono-me se o guarda-redes do Porto, o alto dirigente do Sporting Clube de Portugal (e do seu accionista) ou o presidente da liga estão atentos ao futebol. Dá a sensação que estas pessoas não vão à bola nem consomem os conteúdos que a ela dizem respeito. Que não assistem à violência e à falta de civismo à porta dos estádios, que não ouvem os comentários que saem das bancadas ou que não se dão conta da merda que lá acontece, semana sim semana não. Já para não falar dos disparates que presidentes, técnicos e directores de comunicação proferem e do impacto que essas declarações têm no discurso de boa parte dos adeptos. No caso de Pedro Proença parece ainda mais estranho uma vez que, nos seus tempos de árbitro, foi agredido à cabeçada em pleno Centro Comercial Colombo, por um suposto associado benfiquista. Talvez se tenham esquecido todos que, em Maio de 1996, no mesmo Estádio do Jamor de que tanto se tem falado esta semana, quando aos 8 minutos da 1ª parte Mauro Airez inaugurou o marcador, um outro benfiquista optou por festejar o momento com o disparo de um very light que voou até à bancada 13 do Estádio Nacional e assassinou um adepto sportinguista. É particularmente estranho que não se recordem porque, ainda há três anos, houve quem fizesse questão de gabar a ocorrência: foi exibida, num jogo de futsal entre os dois clubes, uma faixa com a inscrição “VERY LIGHT 96”. E já no ano passado, em outro derby (desta feita de andebol), foram entoados os versos “Foi no Jamor que o lagarto ardeu / Na final da taça, o very light é que o fodeu” (se é possível estabelecer uma hierarquia da miséria humana parece-me, dadas as circunstâncias, que esta lírica é ainda mais repugnante que a do cântico dos Super Dragões, no qual – pretendendo insultar o Benfica – acabam por demonstrar o mais bárbaro desrespeito pela morte dos atletas do Chapacoense).

A ideia de que a merda que acontece no futebol ou em seu torno não diz respeito à modalidade é a forma mais imbecil de continuar a fingir que os problemas não existem. Mas as mais elementares faltas de honestidade intelectual partem de pessoas com um peso ainda maior no futebol. Sugiro que se pense em alguns dos portugueses com maior sucesso na modalidade. Jorge Nuno Pinto da Costa é o presidente, em actividade, com o maior número de troféus em todo o mundo. É o dirigente, cuja absolvição no Apito Dourado, custará tanto a aceitar quanto a presunção de inocência a que José Sócrates tem direito na Operação Marquês. É o homem sobre quem, Rui Moreira, disse no fim-de-semana passado qualquer coisa como: “é tão espectacular que não me vou sequer atrever a falar sobre ele”. E é o portuense a quem a Câmara Municipal do Porto entregou, por deliberação unânime de toda a Vereação e Assembleia Municipal, a Medalha de Honra da Cidade. Permitam-me um pequeno exemplo da sua total falta de empenho em seguir qualquer padrão de transparência, honestidade ou desportivismo. No dia 22 de Setembro do ano passado o Presidente da Federação Portuguesa de Futebol publicou nos 3 jornais desportivos nacionais um artigo intitulado “É TEMPO DE RESPONDER AOS SINAIS DE ALARME” que, entre outras coisas, alertava para a forma como o discurso dos agentes desportivos promove a hostilidade dos adeptos para com os árbitros. O Presidente do Futebol Clube do Porto (que tem um longo histórico de discursos que promovem a revolta de adeptos contra árbitros e jornalistas) respondeu, depois da dose habitual de ironia, “Os árbitros não correm risco nenhum e acho ridículo”. É uma opinião curiosa de se expressar quando 5 meses antes um jogador do Canelas Futebol Clube 2010 (e, curiosamente, membro dos Super Dragões) agrediu barbaramente o árbitro José Rodrigues. As imagens são claras e passaram em todo o mundo, tenho a certeza que Pinto da Costa terá tido oportunidade de as espreitar. No início dessa mesma temporada de 2016/2017 houve 12 equipas (de um total de 15 adversários) a anunciar que não iriam comparecer aos jogos com o Canelas. Fernando Madureira (capitão do Canelas e, curiosamente, líder dos Super Dragões) disse na altura  que a equipa está “magoada, revoltada e triste com toda esta situação”. Se aceder ao YouTube e escrever Canelas fica como uma ideia do quão “magoados, revoltados e tristes” deveriam ficar os adversários daquela equipa. Das 24 vitórias do Canelas (num total de 26 jogos) na Série 1 da Divisão Elite Pró-Nacional, 16 foram obtidas por falta de comparência. Há relatos de coacção e intimação. Se aceder ao YouTube e escrever Canelas vai acreditar que elas existiram.

Apesar do clima de aparente terror, nem Associação de Futebol do Porto nem Federação Portuguesa de Futebol terão tomado grandes medidas (se é que tomaram alguma). O Canelas ascendeu ao Campeonato de Portugal, 3ª escalão das ligas nacionais (na verdade, alcançou consecutivamente a promoção a escalões superiores nas duas últimas épocas desportivas). Como diria ontem o Presidente da República “Nós portugueses somos muito bons a fazer de conta. A fazer de conta que o que é grave não é grave. Fazer de conta que aquilo que não é normal é normal”. É isso que acontece, a um ritmo diário, no futebol. É isso que as declarações que abrem este texto promovem. Que não se reconheça os problemas. E um deles é o seguinte. A concepção e o entendimento que temos sobre o que é ser adepto de um clube. Sobre o que é "defender esse emblema até ao fim". Ao ponto de se dizer ou fazer o que quer que seja necessário para o beneficiar. Só ouvi um amigo benfiquista reconhecer que os e-mails o envergonham. Os meus amigos portistas, consoante o grau de cegueira que se permitem atingir, posicionam-se entre o sarcasmo e a irritação quando se fala no portfólio online de escutas caricatas e vídeos com situações de jogo absolutamente inacreditáveis. E de todas as comunicações publicadas a propósito da Operação Cashball, há uma que parece bem elucidativa da dualidade de valores que o fanatismo desportivo gera. Um dirigente sportinguista, alegado corruptor, partilha a sua emoção com aquele que, alegadamente, seria o seu intermediário para levar a cabo actos de corrupção. Isto, sobre um jogo cuja arbitragem haveria sido condicionada pelo esforço conjunto de ambos: ”Foi, foi, foi, foi muito bom. Liguei para o meu pai a chorar, porque a última vez que fomos campeões estava com ele na nave de Alvalade. Eu era pequenino na altura. E foi muito bom. É este o caminho que a gente tem que…temos de ganhar em todas as modalidades, como no hóquei e no andebol e urgentemente temos de que ser campeões no futebol também. É este o caminho. Grande abraço. Disfrute!”. Reparem como este indivíduo consegue juntar, num discurso uno, a paixão pelo clube e a expressão do seu amor paternal (apoiada naquilo que parece ser uma bonita recordação de infância), com a alegada prática abjecta de condicionar resultados desportivos. O pensamento deste dirigente leonino, a comprovar-se o que está em causa, parece ser um exemplo paradigmático de como, para alguns, a felicidade que certas conquistas lhes despertam é pouco ou nada condicionada pelos crimes que possam ter sido necessários para as assegurar.

Pinto da Costa está onde está ao tempo que está porque todos permitimos que isso aconteça. Da mesma forma que, apesar da cobertura televisiva que houve, ninguém ter parecido verdadeiramente incomodado com o espectáculo miserável que, depois da derrota ante o Paços de Ferreira, o grande responsável pela vitória (totalmente justa) do F. C. do Porto na Primeira Liga protagonizou. De resto, em uma entrevista descontraída ao Porto Canal em jeito de consagração (distante, no tempo e no espaço, das emoções da Mata Real) Sérgio Conceição não se coíbe de dizer, sobre o colega de profissão que lhe infligiu a primeira derrota no campeonato: "Agora ele com certeza não teve... a atenção que devia ter durante os treinos para conseguir manter o Paços na 1ª Divisão". Mas que importa a dimensão humana de Conceição (ou a falta dela) aos adeptos do Porto? Foi campeão. O mesmo se aplicaria a Vitória ou Jesus aos olhos dos seus respectivos clubes e adeptos. E haverá melhor exemplo que José Mourinho? Aquele que é tido de forma consensual como o melhor treinador português de todos os tempos tem no seu historial, comportamentos e declarações completamente inaceitáveis. Lembram-se de Miklós Fehér? Morreu em campo, no Estádio Dom Afonso Henriques em Guimarães, no Domingo 25 de Janeiro de 2004. No dia 27 de Janeiro José Mourinho esteve em Lisboa, em representação do F. C. do Porto, no velório do jogador. No Sábado seguinte, dia 31 de Janeiro, Mourinho – depois de um clássico emocionante que não conseguiu vencer (José Mourinho demorou alguns anos até conseguir reagir de forma civilizada à superioridade alheia) – terá desejado que “Rui Jorge morresse em campo”. Parece que há umas quantas testemunhas, inclusive o actual seleccionador nacional. É complicado qualificar, de forma civilizada, um insulto inspirado na morte de um atleta que o próprio Mourinho havia supostamente homenageado 4 dias antes. Meses mais tarde, em Londres, autodeclarava-se a  special one. Anos depois, enfia um dedo no olho de Tito Vilanova...

Ontem, Rodrigo Guedes de Carvalho, numa edição antecipada do Jornal da Noite por via da transmissão da final da Liga Europa, passava a palavra ao seu colega que cobria os últimos desenvolvimentos leoninos com um semblante carregado, a projectar uma aparente tristeza pelo que acontecera na véspera. Mas talvez esteja esquecido que há 4 meses anunciou, de forma enérgica em pleno Jornal da Noite, a polémica entre Manuel Fernandes, Rodolfo Reis e Bruno de Carvalho na qual os dois últimos se expressavam de uma forma que tenho, com toda a sinceridade, dificuldade em adjectivar. Com a agravante que Rodolfo Reis colabora com aquela estação televisiva semanalmente no PLAY-OFF onde, na edição subsequente à discussão que Rodrigo Guedes de Carvalho deu destaque em horário nobre, João Abreu pivot da SIC, protagonizou um dos momentos mais infelizes da televisão portuguesa. Abriu o programa a declamar uma publicação de Bruno de Carvalho no Facebook. No momento subsequente, o “direito de resposta” que João Abreu concede a Rodolfo Reis deixa duas coisas bem claras: o jornalista da SIC não sabe o que é o “direito de resposta”; Rodolfo Reis não devia ter voz no espaço público.

Podemos continuar a fazer-nos de parvos. Podemos fingir que as agressões no contexto futebolístico são raras (a SIC já parece ter esquecido o quanto sofreram os seus profissionais nos primeiros anos de vida daquela estação e do quanto terá contribuído para isso o discurso de alguns dirigentes desportivos). Podemos fingir que, a grande novidade no episódio de Alcochete, não é o facto de as vítimas serem um plantel inteiro e respectiva equipa técnica. Podemos fingir que, quem faz parte de um ataque organizado a um complexo desportivo de um clube com a notoriedade do Sporting, não tem um histórico a aviar inocentes em condições bastante mais discretas. E podemos continuar a fingir que Bruno de Carvalho não vinha dando, há muito tempo e com maior ou menor frequência, provas de que, qualquer que seja o seu perfil, não parece ser o adequado para liderar uma entidade de utilidade pública. E uma vez que a sua legitimidade democrática era inquestionável, talvez se deva reflectir também sobre que tipo de pensamento e dinâmicas são cultivadas e partilhadas na militância desportiva.

Há menos de dois meses Maurício (ex-jogador do Sporting) declarou “Quem não tem uma boa visão do Bruno de Carvalho são aqueles que não são sportinguistas. Como sou sportinguista tenho uma impressão boa dele”. Esta afirmação imbecil não é propriamente um acto isolado. Há um conjunto de personalidades mui valorizadas socialmente (a quem os media se costumam referir como “notáveis”) que, de forma mais ou menos explícita, partilharam idiotices de natureza idênticaParece-me que o que realmente importa agora é que Bruno de Carvalho saia de cena. Mas idealmente não seria o único. O facto de pessoas como ele ocuparem o espaço público nacional diz muito mal, não apenas sobre o Sporting e os sportinguistas, mas também sobre Portugal e os portugueses