domingo, 30 de dezembro de 2018

#YOU TOO?




O caso da suposta violação da jovem americana por Cristiano Ronaldo veio evidenciar ainda mais o que já parecia óbvio. Muito mais que causas, abraçamos dinâmicas sociais e campanhas de marketing. Se forem promovidas por figuras públicas, tanto melhor.

Catarina Furtado, num pretenso rasgo de espontaneidade, conta na RÁDIO COMERCIAL que foi alvo de assédio sexual. Partilhou depois, via Facebook, que nunca havia tocado no assunto «porque de facto nunca calhou» e que queria que a filha e a enteada percebessem que podem dizer não «quando um homem mais velho utiliza o seu “poder” para tentar algo mais». Fica a sensação que a mulher mais bonita da televisão portuguesa usa as redes sociais para levar acabo aquilo que, regra geral, os seres comuns fazem sentados à mesa, no sofá ou à beira da cama dos adolescentes que têm a seu cargo. Se tenho pouco ou nada a ver com o estilo materno que Catarina Furtado adopta, não consigo deixar de experimentar uma certa repulsa pela falta de respeito pela inteligência alheia e, mais grave ainda, pela seriedade e sensibilidade que o tema deveria exigir. Deixa de ser o testemunho ao serviço da causa mas a causa a servir uma máquina de produzir conteúdos às ordens duma estatística detalhada de gostos, comentários e partilhas que serve celebridades, influenciadores mais as filhas e os filhos das mães que os pariram.

Lembram-se dos mesmos seres humanos sensíveis que aplaudiram de pé as mulheres que vieram para a rua expor as suas experiências traumatizantes? São as mesmas jóias de pessoas que agora sugerem, sem grandes reservas, que a norte-americana que acusa Cristiano Ronaldo não passa duma meretriz a quem caberia – sentada num bar ou deitada numa cama – atrair e entreter ricaços. Traduzido por miúdos: sensibilizamo-nos porque alguém propôs o que nunca deveria ser proposto à Catarina e solidarizamo-nos com ela porque se recusou a actuar sob pressão. Mas sabemos bem com que tipo de adjectivos brindamos as miúdas à nossa volta que cedem um milímetro ao que quer que seja. Claro que desse tipo de categorizações Catarina Furtado está a salvo. Para esse enxovalho existem raparigas como a Kathryn Mayorga. Mesmo que, segundo ela, tenha sido violada.

O Cristiano Ronaldo é um dos heróis maiores da história contemporânea nacional. Mas não deixa de ser um gajo como outro qualquer. Mesmo que tanta gente esteja disponível para o ilibar do que quer que seja porque marca 50 ou 60 golos por época ou porque a sua conta de Instagram nos diz que ele é (também) o melhor pai do mundo. Ou que custe a estas pessoas entender que 1) nem todas as fêmeas deste mundo sonham ir para a cama com o Ronaldo, 2) que uma mulher com esse sonho pode, por um qualquer motivo, recusar deitar-se com ele. O mais curioso é que se criou o mito de que a norte-americana esteve 9 anos calada quando, na verdade, apresentou queixa no dia seguinte. Ou se quis ignorar que Cristiano Ronaldo terá escrito, entre outras coisas, que «Ela disse “não” e “pára” diversas vezes». Mas que importa isso? Respondido por um amigo meu: «Zé, ela estava em Las Vegas!». Não estou a sugerir que estes dados provem que Cristiano Ronaldo tenha feito o que quer que seja a Kathryn Mayorga. Estou a afirmar outra coisa muito diferente: que o nosso compromisso com o respeito e a dignidade humana tem, não apenas limites, como sensibilidades e subtilezas diversas consoante as origens da solicitação. E que isso diz muito sobre nós. Tanto quanto as palavras de Catarina Furtado parecem dizer sobre ela.

Já protagonizei figuras mais ou menos edificantes com mais ou menos roupa por cima da pele. Mas nunca pus a pila onde me disseram que ela não podia estar. Respeitar esse mandamento elementar de boa convivência em sociedade não dá direito a Nobel. É apenas algo que eu e todos os outros (Cristiano incluído) temos que respeitar.

O #MeToo está, como qualquer outra coisa partilhada em praça pública, repleto de idiotices e imbecilidades. Mas, a terminar 2018, é importante lembrar o essencial do seu legado e o quão importante é ele poder andar à solta pela dita praça. E quando algum de vós sentir dúvidas sobre o quanto vale aquele hashtag (e toda a vergonha e sofrimento que deu a conhecer), sugiro o seguinte texto: Desorientações com o Me Too, de Maria João Marques no OBSERVADOR. Não tanto pela tesão que dá uma mulher que escreva de forma tão sublime. Mas porque dificilmente alguém escreveria melhor o que ela escreveu. E por favor, alguém o dê a ler à Catarina. E just in case, ao Cristiano também. Eu falo com o meu amigo que nunca foi a Vegas

[este texto foi publicado na crónica YOU TALKING TO ME'? na edição de Dezembro da GQ PORTUGAL]

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

O meu ídolo






















Gosta de futebol? Sim? Note: não perguntei se gosta do Trio D’ataquePlay-offDia SeguinteProlongamentoLiga D’ouro ou de qualquer outro programa que promova sessões de pancada a três cores. Também não perguntei se segue o director de comunicação do seu clube nas redes sociais. Perguntei apenas se gosta de futebol. Nos tempos que correm, em que se passa mais horas a falar sobre as pessoas que falam sobre futebol que sobre a própria modalidade... o meu ídolo é, precisamente, o homem que melhor discorre sobre ela. Não me refiro a nenhum dos senhores que é convidado a ir a um estúdio de televisão, dizer o que for necessário para promover o seu clube e rebaixar os demais. Refiro-me a uma pessoa para a qual, antes do clube, parece estar sempre a paixão pelo desporto. Refiro-me a alguém que ama verdadeiramente o futebol. Porque gostar de bola é mais que saber contar os campeonatos e as finais europeias conquistadas pelo nosso clube. É sentir uma devoção sincera por todos aqueles que – do Di Stéfano ao Ronaldo – contribuíram para os mais belos momentos da sua história. Amar o futebol é saber porque vamos sempre recordar o Panenka, mas lembrar também quem foi o Rik Coppens e o que fez ele com o André Piters. É saber que no dia 22 de Junho de 1986 tiveram lugar, no mesmo jogo e “pela mão” do mesmo jogador, os dois golos mais famosos da história do futebol mundial. O primeiro porque foi efectivamente marcado com a mão. O outro porque é considerado, sem lugar a grandes discussões, o melhor golo de todos os campeonatos mundiais. Marcados por quem? Não tinha dito que gostava de futebol? Gostar de futebol é saber que vale sempre a pena sentarmo-nos a ver um vídeo do Maradona, mas reconhecer que é quase sempre tempo mal gasto levar a sério o que ele tem para dizer. É recordar com carinho as gafes do Gabriel Alves ou as locuções em gíria africana do Jorge Perestelo. Gostar de futebol e da sua história é ter a consciência de que devemos ao Cristiano Ronaldo o facto de já não haver uma pessoa no mundo com dúvidas sobre se Portugal é ou não um país independente.

O meu ídolo tem, aos 40 ou 41 anos, um discurso mais sábio e meticuloso que um octogenário que coleccionou cromos da bola uma vida inteira. O Rui Miguel Tovar – filho de Rui Tovar, um outro apaixonado pela bola – não é apenas o gajo que faz os mais belos retratos do desporto-rei. É um enciclopedista no sentido literal da expressão. Um anormal que memoriza factos, partilha histórias e debita curiosidades. O tipo que põe o Jürgen Kohler a falar do slalon que o João Vieira Pinto fez pela defesa alemã em 1996 (o que teria sido da carreira dele se o Köpke não tivesse conseguido desviar aquela bola para canto?). Um dos poucos homens, num cenário futebolístico cada vez mais bacoco e abjecto, que nos continua a lembrar o quão fantástico é o desporto e o quão bonita é esta modalidade. O gajo que entrevista o Gattuso, os dois maiores Jaimes do futebol português (o Magalhães e o Pacheco), o Mamadu Bobó, o Zagallo (o primeiro dos únicos três homens neste planeta que foi campeão mundial enquanto jogador e treinador), o Menotti o Mikhailichenko o Valderrama ou a Carmizé, a viúva do Yazalde. E é por todas estas coisas que há uns meses, quando percebi que o meu ídolo tinha escolhido o mesmo restaurante que eu para jantar, tive que protagonizar a distinta figura de tanso a que todos os homens comuns se prestam perante os seus ídolos. Ainda invoquei perante a minha mesa, para mitigar a minha condição de otário, um “não sou nada destas coisas, se fosse o Ronaldo nem pousava os talheres”. Nada feito, fui gozado o resto do jantar. Mas a verdade é que agora tenho direito a enviar e-mails ao meu ídolo (e a cujas respostas me esforço por não responder no mesmo dia, para não o maçar em demasia). Falta dizer que este tipo é adepto do emblema rival do clube que, aos 4 ou 5 anos, escolhi para o resto da minha vida. E que foi por causa dele e das suas partilhas, que criei uma conta no Twitter. Porquê? Porque ele trata o desporto como nenhum outro. E a verdade é que, quase tão importante quanto termos o melhor do mundo a jogar à bola, é ter o melhor do mundo a cuidar da sua história. E tal qual o pai do Cristiano, também o pai do Rui o deve olhar lá de cima com um orgulho do caraças

[este texto foi publicado na crónica YOU TALKING TO ME' da edição de Novembro da GQ PORTUGAL]

domingo, 11 de novembro de 2018

Quando o São Martinho falha desta maneira, fica claro que Portugal inteiro precisa de um CAIÁGUA

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É uma desculpa como outra qualquer mas, pensado bem, uma desculpa consideravelmente melhor que tantas outras que costumamos encontrar em posts patrocinados, press-releases e tretas afins. Quando chove torrencialmente em Portugal no mítico dia 11 de Novembro (para os mais distraídos, aquele dia em que nunca chove porque, num dia longínquo, um cavaleiro gaulês transformou uma tempestade num dia bonito, com um gesto de solidariedade) parece-me legítimo concluir que habitantes deste país conhecido pelo generoso rácio de dias soalheiros estão mesmo a precisar dum CAIÁGUA.

E se calhar também é uma boa oportunidade para me gabar pelo facto de a marca ter sido convidada  a estar presente na Pitti Uomo (sim, é aquela feira onde se vê homens a posar como meninas a cada 10 metros, mas não deixa de ser a maior feira de roupa de homem do mundo). Mas por falar em meninas, talvez seja importante lembrar que os casacos são unissexo...

Para quem não conhece:
www.caiagua.com

domingo, 21 de outubro de 2018

O CHICHI DA KELLY


Cheguei às 12h em ponto. Um toque em cadeia a caminho das Amoreiras havia deitado por terra o plano de chegar dez minutos antes. E, por causa desse imprevisto, já sentia sobre a pele o efeito conjunto do caminhar apressado, do traje formal, dos 30˚C à sombra e do receio de chegar atrasado a uma entrevista de emprego. Apresentei-me à senhora que estava na recepção. Ela agarrou no telefone, anunciou a minha presença e pediu-me que aguardasse. Assim o fiz. Passados alguns minutos volto a aproximar-me e pergunto pela casa de banho. A resposta foi esta:
–  Não temos casa de banho.
Encaixo a resposta, volto a recuar, mas regresso novamente até junto do balcão:
– Permita-me o feedback, parece inacreditável que não tenham casa de banho.
A senhora cuidou de reformular:
– Temos casa de banho, mas é apenas para colaboradores.
Renovei a minha estupefacção e resignei-me à condição daqueles a quem não é permitido usar o WC. A senhora sublinhou que eram as instruções que tinha e eu pedi apenas que fizesse chegar o meu desapontamento a quem quer que lhas tivesse dado. Momentos depois acrescentou:
– Se precisar mesmo pode ir ao café. Posso avisar o consultor...

Poderia discorrer sobre o que significará “precisar mesmo de ir à casa de banho”, ou sobre que responsabilidade social exibe uma empresa que convoca pessoas às suas instalações e lhes indica o café mais próximo quando estas perguntam pelo WC. Mas cinjamo-nos aos factos. Não ando por Lisboa a testar instalações sanitárias. Recebi, de um consultor da Kelly Services, uma mensagem via LinkedIn, um telefonema, um convite para uma entrevista e uma confirmação via e-mail. Estamos a falar de uma multinacional que, segundo ela mesma, «é a quarta maior empresa de Gestão de Recursos Humanos do mundo». Estamos a falar de uma entidade respeitável, com sede nacional num imóvel imponente (o mesmo onde foi solicitada a minha comparência), e cuja operação passará por convidar, diariamente, dezenas e dezenas de pessoas a visitar a sua dúzia de agências em Portugal. Estamos a falar de uma empresa cujo objecto do seu trabalho são as pessoas e os seus atributos. E para ser o mais objectivo possível, estamos a falar de uma empresa que, naquela data e local, não respeitou as necessidades mais primárias de qualquer ser humano.

Não creio que seja necessário elencar os imperativos pelos quais o nosso organismo se rege ou enfatizar que nem sempre nos é permitido protelar uma ida à casa de banho. Que fazemos chichi e cocó com mais frequência quando estamos nervosos ou que, como tão bem se saberá numa empresa de recrutamento, muitos de nós ficam mais tensos quando são avaliados. Parece-me desumano negar o acesso a um WC a alguém que se convida para uma entrevista de emprego. E mesmo que, como quero acreditar, este episódio seja mais culpa de alguém em quem se depositou mais responsabilidades do que seria aconselhável (o que abona pouco a favor de quem recruta em nome de terceiros) que de alguma cultura corporativa, é interessante constatar o seguinte: a menos de 100 metros da sua sede, há um outdoor da Kelly com a inscrição THE BEST TALENTS ARE LIKE STARS (os melhores talentos são como estrelas). Pode até questionar-se a tradução mas há duas ideias que ganham forma: nem os corpos celestes que a Kelly Services recruta precisam de ir à casa de banho, nem o marketing parece responder por algumas das suas acções. E pensando bem: que melhor pessoa para faltar ao respeito, que àquela cuja situação não permite fazer reivindicações, sob pena de se poder prejudicar? Porque é disso que esta crónica trata: da facilidade com que uma parte tira partido do poder sobre a outra e como se permite desrespeitá-la.

Quando o consultor apareceu, expliquei que não faria uma entrevista num local onde se exibia tamanho desrespeito pela condição humana. Como não mencionou qualquer mal entendido deduzi que, quando a senhora da recepção sugeriu que me dirigisse ao café mais próximo, estaria genuinamente a tentar ajudar. Espero que esta crónica seja um win win. Para mim, porque a forma como o Homem trata o seu semelhante é sempre um tema importante. Para a Kelly, porque o gigante mundial da gestão de recursos humanos pode, com toda a certeza, cuidar bem melhor daqueles que justificam as suas receitas.

[este texto foi publicado na crónica YOU TALKING TO ME' da edição de Outubro da GQ PORTUGAL]

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Talvez o Trevor Noah seja menos esperto do que julgue. Talvez eu seja menos racista do que pareça




Nota introdutória
Se a utilização de termos como “preto” ou “preta”, em alternativa a expressões como negro”, “negra” ou “de cor” o deixam desconfortável, é previsível que considere este texto racista. Dito isto, não deixa de ser curioso que quando nos reportamos ao contexto norte-americano, o mais mediático em matéria de segregação racial, sejam as expressões “colored” e “nigger” (esta última deriva precisamente do português e espanhol “negro”) a dar corpo a conotações depreciativas. Por cá parece ter ficado consagrado que o termo depreciativo é também o mais prosaico de todos: “preto”. O mesmo termo que a maioria dos portugueses usa quando comunica consigo mesmo, ou seja, quando faz algo tão simples e espontâneo (e a salvo de qualquer censura alheia) quanto pensar.


A cor dos campeões, a discriminação e a preferência
O trabalho do Trevor Noah é assegurar que o THE DAILLY SHOW tem graça. Na semana passada o apresentador proclamou no seu programa que África havia ganho o campeonato do mundo.


Discordo em absoluto, como acusaram alguns pretos e muitos brancos, que a piada do Trevor Noah seja racista. Mas parece-me claro que sugere que africanos e seus descendentes por todo o mundo apoiaram a selecção francesa porque a maioria dos seus jogadores são pretos. Estou perfeitamente confortável com isso. E estou também pouco convencido de que seria necessário o Embaixador francês nas Nações Unidas enviar uma carta ao apresentador sul-africano a explicar aquilo que não carece de explicação: porque é que aqueles jogadores são franceses. A única coisa que o diplomata parece ter conseguido foi sujeitar o seu país e os seus compatriotas ao gozo e à critica (quanto a mim, nem sempre com a honestidade intelectual desejável) em pleno horário nobre da TV norte-americana. Mas a primeira questão é esta: as nossas preferências pessoais não devem ser confundidas com actos de discriminação. O Trevor Noah tem todo o direito em simpatizar com a selecção francesa porque a maioria dos jogadores são pretos ou por qualquer outro motivo, muito ou pouco relacionado com raça. O que talvez importe lembrar é que a mesma lógica se aplica à minha vontade de torcer, numa final olímpica dos 100 metros ou 10 000 metros, pela vitória de um atleta sul-africano pelo simples facto de ele, como eu, ser branco.

Há dias, quando discutia a qualidade dos argumentos do Trevor Noah e dizia uma coisa tão simples quanto “ele simpatiza com os franceses porque são pretos” uma amiga (branca) sugeriu que a minha afirmação lhe parecia racista. Decidi lembrar-lhe (deve ter-me parecido a derradeira prova da minha condição de “não racista”) que estava a dizer aquilo a alguém que poderia perfeitamente ter um “filho preto”. A resposta foi pronta: ela também não descartava a hipótese de adoptar uma “criança negra”. Este momento hilariante talvez diga algo sobre parte do racismo que ainda subsiste: aquele pelo qual as próprias pessoas que o reproduzem não se dão conta (ainda assim reconheça-se, bem menos cruel que outras modalidades). Quando falo em ter um filho preto penso em amar uma preta e fazer aquilo que, genericamente falando, gosto de fazer com mulheres, em particular com aquela por quem me apaixono. A polidez da minha amiga não lhe permite falar “em equipas de pretos” mas a percepção de ter um filho preto, transporta-a imediatamente para um cenário de adopção. Por outro lado, como ela alertou: o facto de não se imaginar com pretos pode ser apenas uma preferência que se junta a tantas outras, como não se sentir atraída por homens baixos. E de repente, aquilo que descrevi categoricamente há meia dúzia de linhas como racismo, talvez não o seja. Não se combate o racismo depreciando uma série de preferências pessoais que belisquem o artificialismo consagrado pelo pensamento politicamente correcto. E enquanto continuarmos a despender tempo a ofendermo-nos com o termo “preto” ou benzermo-nos cada vez que é contada uma anedota sobre o mesmo preto estamos claramente a falhar o caminho. Quando digo que o “João é o preto” estou apenas a esforçar-me por que se perceba a que João me estou a referir. Da mesma forma que, numa conversa sobre a selecção francesa, a forma mais simples de descrever o Giroud é “o branco que joga lá à frente”. Não sou seguramente a pessoa mais autorizada a definir o que é, ou onde começa e termina o racismo. Mas deste leque de definições propostas por não brancos, que o PÚBLICO publicou no Verão de 2016, aquela que Albertino Bragança deu parece-me de longe a mais lúcida e objectiva: “Quando se fala de racismo a palavra vem de raça, né? De raça... Há duas raças em presença e, tudo aquilo que impede um dos lados de usufruir do espaço que devia ser comum... tendo como base a cor da pele, é racismo... completo”.

Conto anedotas de pretos com a mesma naturalidade que me rio de louras ou de alentejanos. Sei que nem alentejanos nem louras foram sujeitos a séculos de abusos mas será que é a promover e instituir sensibilidades diferenciadas que vamos eliminar os mesmos tratamentos diferenciados que definem o racismo e caracterizam a sua expressão? É a deixar de brincar que vamos incluir? É a erradicar a palavra “preto” que vamos combater as injustiças sociais que ainda decorrem de tratamentos desiguais entre “brancos” e “não brancos”? A forma imbecil como, em Portugal, agentes políticos e media tratam o racismo vai continuar a reproduzir o estado actual das coisas. No espaço público os pretos serão retratados em terminologias cada vez mais “african friendly”. No espaço privado, continuarão a não ser bem-vindos em casas de muitos brancos e a ser preteridos em contextos profissionais, sempre que não exista a perspectiva de responder a uma motivação politicamente correcta ou de retirar uma vantagem financeira da exploração de algum recurso natural oriundo do continente africano.

(e quando o Trevor parece baralhar tudo...)
Acho mesmo que o Trevor Noah presta um mau serviço ao combate à discriminação racial quando diz (o PÚBLICO optou por traduzir “nigger” por “preto”): “O contexto é tudo. Há coisas que algumas pessoas podem dizer. Há uma grande diferença entre eu dizer ‘então, preto?’ e um branco dizer ‘então, preto?’ Quando digo que eles são africanos não o estou a fazer para excluir mas para os incluir na minha africanidade”. Parece-me que o motivo mais provável pelo qual um “preto” trata outro “preto” por “preto” não se prende tanto com a inclusão de uma dada africanidade mas com a percepção, mais ou menos consciente, de que aquele atributo que têm em comum, é também o motivo pelo qual são ou foram discriminados. É óbvio que isso os une de alguma forma. Mas eles não escolheram essa união, o establishment empurrou-os para ela. Os guetos não se formaram para celebrar a africanidade ou qualquer outro tipo de identidade regional. Um preto trata outro preto por preto pelos mesmos motivos pelos quais, tantas vezes, é obrigado a viver em sítios onde vivem apenas outros pretos. Talvez o Trevor Noah pudesse pensar melhor sobre o assunto. E reflectir se condicionar o que uns e outros podem ou não dizer sobre um mesmo tema é combater o racismo. Ou uma tentativa de promover uma sensibilidade pessoal a artigo da constituição. E isso é quase tão estúpido e intolerante quanto maltratar em função da raça. Cheguei a temer, a dada altura, que este comediante sul-africano sugerisse uma espécie de apartheid humorístico, segundo o qual apenas a um preto fosse permitido rir ou contar anedotas sobre pretos.


De volta a França
Agora em 2018, como antes em 1998, as pessoas parecem algo surpreendidas por a selecção nacional francesa ter tantos pretos (ou não brancos). Questiono-me se essas mesmas pessoas têm tido a oportunidade de viajar até ao país mais visitado no mundo. É que das últimas vezes que passei por Paris ou outras cidades francesas (admito que essa realidade seja diferente nas zonas rurais, de resto à imagem do que também sucede em Portugal ou Inglaterra) não vejo apenas brancos. A ideia de que França é um país branco é uma perfeita idiotice. E nesse sentido podíamos até discutir se o humor do Trevor Noah terá sido sequer inteligente (o que não invalida que tenha tido graça). Se em França se promove ou não esta ideia de diversidade? Não sei. Uma coisa parece clara: até dia 15 de Julho parte do mundo (aparentemente, Trevor incluído) continuava convencido de que a França é essencialmente branca.


O caso português
No nosso pais não há campanha de natureza institucional, politica ou comercial que não tenha um não branco o que, na maior parte das vezes, significa ter pelo menos um preto. Desconfio que, mais que por qualquer sentido de fidedignidade para com realidade portuguesa, se percebeu que esse seria o melhor caminho para obter, em alguns casos mais votos, em outros mais vendas. Se recordar alguns dos cartazes eleitorais do Partido Socialista, durante a campanha para as eleições legislativas de 2015, é bem possível que concorde que António Costa apresentava um tom de pele mais claro. Terão sido apenas as doses habituais de maquilhagem e Photoshop? Talvez sim. Ou talvez não.

Às vezes fica em a sensação que, em Portugal, o racismo é definido em torno das subtilezas do "negro" e da "pessoa de cor". Enquanto isso, atitudes e comportamentos verdadeiramente dolosos para abolição de diferenças no tratamento entre "pretos" e "brancos" continuam a passar por baixo da mesa. Imagine o cenário: o condutor da frente faz um daqueles disparates monumentais que coloca em risco a segurança de todos aqueles que se encontram à sua volta num raio de 20 ou 30 metros. E digo, mais alto ou mais baixo e com maior ou menos irritação: “idiota de merda”. Imagine agora que o gajo tem um cachecol do Sporting. É bem provável que eu (adepto benfiquista) me refira a ele como “lagarto de merda”. Parece-me claro que não estou a sugerir que sportinguistas não cumprem o Código da Estrada. Quando nos queremos afastar de alguém (porque não gostamos da pessoa, porque estamos chateados com ela ou discordamos da forma como pensa ou age), trate-se de um perfeito estranho ou do nosso irmão gémeo, tendemos sempre a valorizar os atributos que nos distinguem. Dito isto, se for um preto (estou consciente que “um condutor preto” lhe soaria um pouco menos mal; sucede que não estou aqui para lhe proporcionar qualquer tipo de conforto mas, precisamente, para lhe sugerir que o questione) é possível que grite “preto de merda”. E uma vez mais, não estou a promover qualquer sentimento específico sobre um hipotético desrespeito dos pretos pelo Código da Estrada nem nenhum outro ódio generalizado. E da mesma forma que não me incomodaria fazer coisas tão distintas quanto casar com uma sportinguista ou contratá-la para trabalhar comigo, o mesmo se aplicaria também a uma preta (bem como, se me é permitido o exemplo imbecil, a uma preta do Sporting). Não nego que há expressões mais hostis que outras e que cada um tem direito às suas susceptibilidades (e que podemos e devemos tentar atender a elas). Nem que insultar automobilistas ao volante não é o melhor momento para educar os filhos. O que as próximas gerações precisam é que se lhes ensine que a cor de pele não importa. Mas não é não importar, de forma selectiva e artificial, para este ou aquele efeito. É não importar para nada.

Um dia, um amigo que se casou com uma indiana, fez questão de me explicar que caso a sua mulher fosse preta a sua família dificilmente aprovaria a união. Mas o que é verdadeiramente curioso é que ele não estava apenas a descrever o degradée de susceptibilidades raciais que caracterizam a sua consciência familiar. Mais que qualquer outra coisa, ele parecia fazer questão de assegurar que eu entendia que o seu clã mantinha – de acordo com a sua percepção de “família de bem” – os mesmos valores de sempre. E o que talvez importe lembrar é que, porventura, em muitas reuniões de (“boas”) famílias por esse Portugal fora, a ostentação do preconceito e do tratamento diferenciado com base na etnia (e em muitas outras coisas) é sinal de pedigree. O discurso da inclusão perde sempre – na esfera privada  o braço de ferro com a tradição, esse valor absoluto que serve de desculpa para quase tudo, incluindo discriminar semelhantes. E o mais provável é que muitas destas pessoas estejam mais que à altura das exigências do espaço público. Já eu... não me surpreenderia que alguns dos pretos que me são mais queridos ficassem lixados com boa parte do que escrevi hoje

quinta-feira, 17 de maio de 2018

O Bruno de Carvalho que há dentro de cada um de nós



Vaná, guarda-redes do F.C. do Porto partilha, de forma um tanto ou quanto ingénua, “o futebol não é isso”. A Liga Portuguesa de Futebol Profissional emite um comunicado onde se lê “Os executores destes comportamentos não são adeptos de futebol, mas sim criminosos” (aparentemente, por um qualquer imperativo filosófico, quem é uma coisa não pode ser a outra). Pedro Proença, segue à risca o depoimento do organismo a que preside e diz que “aquilo que hoje se passou não é um caso... desportivo, é um caso obviamente, um caso de polícia”. Pedro Ivo Carvalho, subdirector do JN, baptiza o seu artigo de opinião com um retumbante “Eles não gostam de futebol”. Nuno Correia da Silva, vice-presidente da Holdimo e administrador não executivo da Sporting SAD apresenta uma versão um pouco mais idiota que as anteriores. Segundo ele “quem fez isto não é do Sporting, apesar de poder julgar que é”. Se passasse mais tempo no Google ou deixasse a televisão ligada em um dos canais de informação encontraria mais pessoas, com diferentes graus de responsabilidade na matéria, a empobrecer o discurso com comentários que alinham na retórica negacionista de que aqueles tipos e aqueles actos nada têm a ver com futebol.

Questiono-me se o guarda-redes do Porto, o alto dirigente do Sporting Clube de Portugal (e do seu accionista) ou o presidente da liga estão atentos ao futebol. Dá a sensação que estas pessoas não vão à bola nem consomem os conteúdos que a ela dizem respeito. Que não assistem à violência e à falta de civismo à porta dos estádios, que não ouvem os comentários que saem das bancadas ou que não se dão conta da merda que lá acontece, semana sim semana não. Já para não falar dos disparates que presidentes, técnicos e directores de comunicação proferem e do impacto que essas declarações têm no discurso de boa parte dos adeptos. No caso de Pedro Proença parece ainda mais estranho uma vez que, nos seus tempos de árbitro, foi agredido à cabeçada em pleno Centro Comercial Colombo, por um suposto associado benfiquista. Talvez se tenham esquecido todos que, em Maio de 1996, no mesmo Estádio do Jamor de que tanto se tem falado esta semana, quando aos 8 minutos da 1ª parte Mauro Airez inaugurou o marcador, um outro benfiquista optou por festejar o momento com o disparo de um very light que voou até à bancada 13 do Estádio Nacional e assassinou um adepto sportinguista. É particularmente estranho que não se recordem porque, ainda há três anos, houve quem fizesse questão de gabar a ocorrência: foi exibida, num jogo de futsal entre os dois clubes, uma faixa com a inscrição “VERY LIGHT 96”. E já no ano passado, em outro derby (desta feita de andebol), foram entoados os versos “Foi no Jamor que o lagarto ardeu / Na final da taça, o very light é que o fodeu” (se é possível estabelecer uma hierarquia da miséria humana parece-me, dadas as circunstâncias, que esta lírica é ainda mais repugnante que a do cântico dos Super Dragões, no qual – pretendendo insultar o Benfica – acabam por demonstrar o mais bárbaro desrespeito pela morte dos atletas do Chapacoense).

A ideia de que a merda que acontece no futebol ou em seu torno não diz respeito à modalidade é a forma mais imbecil de continuar a fingir que os problemas não existem. Mas as mais elementares faltas de honestidade intelectual partem de pessoas com um peso ainda maior no futebol. Sugiro que se pense em alguns dos portugueses com maior sucesso na modalidade. Jorge Nuno Pinto da Costa é o presidente, em actividade, com o maior número de troféus em todo o mundo. É o dirigente, cuja absolvição no Apito Dourado, custará tanto a aceitar quanto a presunção de inocência a que José Sócrates tem direito na Operação Marquês. É o homem sobre quem, Rui Moreira, disse no fim-de-semana passado qualquer coisa como: “é tão espectacular que não me vou sequer atrever a falar sobre ele”. E é o portuense a quem a Câmara Municipal do Porto entregou, por deliberação unânime de toda a Vereação e Assembleia Municipal, a Medalha de Honra da Cidade. Permitam-me um pequeno exemplo da sua total falta de empenho em seguir qualquer padrão de transparência, honestidade ou desportivismo. No dia 22 de Setembro do ano passado o Presidente da Federação Portuguesa de Futebol publicou nos 3 jornais desportivos nacionais um artigo intitulado “É TEMPO DE RESPONDER AOS SINAIS DE ALARME” que, entre outras coisas, alertava para a forma como o discurso dos agentes desportivos promove a hostilidade dos adeptos para com os árbitros. O Presidente do Futebol Clube do Porto (que tem um longo histórico de discursos que promovem a revolta de adeptos contra árbitros e jornalistas) respondeu, depois da dose habitual de ironia, “Os árbitros não correm risco nenhum e acho ridículo”. É uma opinião curiosa de se expressar quando 5 meses antes um jogador do Canelas Futebol Clube 2010 (e, curiosamente, membro dos Super Dragões) agrediu barbaramente o árbitro José Rodrigues. As imagens são claras e passaram em todo o mundo, tenho a certeza que Pinto da Costa terá tido oportunidade de as espreitar. No início dessa mesma temporada de 2016/2017 houve 12 equipas (de um total de 15 adversários) a anunciar que não iriam comparecer aos jogos com o Canelas. Fernando Madureira (capitão do Canelas e, curiosamente, líder dos Super Dragões) disse na altura  que a equipa está “magoada, revoltada e triste com toda esta situação”. Se aceder ao YouTube e escrever Canelas fica como uma ideia do quão “magoados, revoltados e tristes” deveriam ficar os adversários daquela equipa. Das 24 vitórias do Canelas (num total de 26 jogos) na Série 1 da Divisão Elite Pró-Nacional, 16 foram obtidas por falta de comparência. Há relatos de coacção e intimação. Se aceder ao YouTube e escrever Canelas vai acreditar que elas existiram.

Apesar do clima de aparente terror, nem Associação de Futebol do Porto nem Federação Portuguesa de Futebol terão tomado grandes medidas (se é que tomaram alguma). O Canelas ascendeu ao Campeonato de Portugal, 3ª escalão das ligas nacionais (na verdade, alcançou consecutivamente a promoção a escalões superiores nas duas últimas épocas desportivas). Como diria ontem o Presidente da República “Nós portugueses somos muito bons a fazer de conta. A fazer de conta que o que é grave não é grave. Fazer de conta que aquilo que não é normal é normal”. É isso que acontece, a um ritmo diário, no futebol. É isso que as declarações que abrem este texto promovem. Que não se reconheça os problemas. E um deles é o seguinte. A concepção e o entendimento que temos sobre o que é ser adepto de um clube. Sobre o que é "defender esse emblema até ao fim". Ao ponto de se dizer ou fazer o que quer que seja necessário para o beneficiar. Só ouvi um amigo benfiquista reconhecer que os e-mails o envergonham. Os meus amigos portistas, consoante o grau de cegueira que se permitem atingir, posicionam-se entre o sarcasmo e a irritação quando se fala no portfólio online de escutas caricatas e vídeos com situações de jogo absolutamente inacreditáveis. E de todas as comunicações publicadas a propósito da Operação Cashball, há uma que parece bem elucidativa da dualidade de valores que o fanatismo desportivo gera. Um dirigente sportinguista, alegado corruptor, partilha a sua emoção com aquele que, alegadamente, seria o seu intermediário para levar a cabo actos de corrupção. Isto, sobre um jogo cuja arbitragem haveria sido condicionada pelo esforço conjunto de ambos: ”Foi, foi, foi, foi muito bom. Liguei para o meu pai a chorar, porque a última vez que fomos campeões estava com ele na nave de Alvalade. Eu era pequenino na altura. E foi muito bom. É este o caminho que a gente tem que…temos de ganhar em todas as modalidades, como no hóquei e no andebol e urgentemente temos de que ser campeões no futebol também. É este o caminho. Grande abraço. Disfrute!”. Reparem como este indivíduo consegue juntar, num discurso uno, a paixão pelo clube e a expressão do seu amor paternal (apoiada naquilo que parece ser uma bonita recordação de infância), com a alegada prática abjecta de condicionar resultados desportivos. O pensamento deste dirigente leonino, a comprovar-se o que está em causa, parece ser um exemplo paradigmático de como, para alguns, a felicidade que certas conquistas lhes despertam é pouco ou nada condicionada pelos crimes que possam ter sido necessários para as assegurar.

Pinto da Costa está onde está ao tempo que está porque todos permitimos que isso aconteça. Da mesma forma que, apesar da cobertura televisiva que houve, ninguém ter parecido verdadeiramente incomodado com o espectáculo miserável que, depois da derrota ante o Paços de Ferreira, o grande responsável pela vitória (totalmente justa) do F. C. do Porto na Primeira Liga protagonizou. De resto, em uma entrevista descontraída ao Porto Canal em jeito de consagração (distante, no tempo e no espaço, das emoções da Mata Real) Sérgio Conceição não se coíbe de dizer, sobre o colega de profissão que lhe infligiu a primeira derrota no campeonato: "Agora ele com certeza não teve... a atenção que devia ter durante os treinos para conseguir manter o Paços na 1ª Divisão". Mas que importa a dimensão humana de Conceição (ou a falta dela) aos adeptos do Porto? Foi campeão. O mesmo se aplicaria a Vitória ou Jesus aos olhos dos seus respectivos clubes e adeptos. E haverá melhor exemplo que José Mourinho? Aquele que é tido de forma consensual como o melhor treinador português de todos os tempos tem no seu historial, comportamentos e declarações completamente inaceitáveis. Lembram-se de Miklós Fehér? Morreu em campo, no Estádio Dom Afonso Henriques em Guimarães, no Domingo 25 de Janeiro de 2004. No dia 27 de Janeiro José Mourinho esteve em Lisboa, em representação do F. C. do Porto, no velório do jogador. No Sábado seguinte, dia 31 de Janeiro, Mourinho – depois de um clássico emocionante que não conseguiu vencer (José Mourinho demorou alguns anos até conseguir reagir de forma civilizada à superioridade alheia) – terá desejado que “Rui Jorge morresse em campo”. Parece que há umas quantas testemunhas, inclusive o actual seleccionador nacional. É complicado qualificar, de forma civilizada, um insulto inspirado na morte de um atleta que o próprio Mourinho havia supostamente homenageado 4 dias antes. Meses mais tarde, em Londres, autodeclarava-se a  special one. Anos depois, enfia um dedo no olho de Tito Vilanova...

Ontem, Rodrigo Guedes de Carvalho, numa edição antecipada do Jornal da Noite por via da transmissão da final da Liga Europa, passava a palavra ao seu colega que cobria os últimos desenvolvimentos leoninos com um semblante carregado, a projectar uma aparente tristeza pelo que acontecera na véspera. Mas talvez esteja esquecido que há 4 meses anunciou, de forma enérgica em pleno Jornal da Noite, a polémica entre Manuel Fernandes, Rodolfo Reis e Bruno de Carvalho na qual os dois últimos se expressavam de uma forma que tenho, com toda a sinceridade, dificuldade em adjectivar. Com a agravante que Rodolfo Reis colabora com aquela estação televisiva semanalmente no PLAY-OFF onde, na edição subsequente à discussão que Rodrigo Guedes de Carvalho deu destaque em horário nobre, João Abreu pivot da SIC, protagonizou um dos momentos mais infelizes da televisão portuguesa. Abriu o programa a declamar uma publicação de Bruno de Carvalho no Facebook. No momento subsequente, o “direito de resposta” que João Abreu concede a Rodolfo Reis deixa duas coisas bem claras: o jornalista da SIC não sabe o que é o “direito de resposta”; Rodolfo Reis não devia ter voz no espaço público.

Podemos continuar a fazer-nos de parvos. Podemos fingir que as agressões no contexto futebolístico são raras (a SIC já parece ter esquecido o quanto sofreram os seus profissionais nos primeiros anos de vida daquela estação e do quanto terá contribuído para isso o discurso de alguns dirigentes desportivos). Podemos fingir que, a grande novidade no episódio de Alcochete, não é o facto de as vítimas serem um plantel inteiro e respectiva equipa técnica. Podemos fingir que, quem faz parte de um ataque organizado a um complexo desportivo de um clube com a notoriedade do Sporting, não tem um histórico a aviar inocentes em condições bastante mais discretas. E podemos continuar a fingir que Bruno de Carvalho não vinha dando, há muito tempo e com maior ou menor frequência, provas de que, qualquer que seja o seu perfil, não parece ser o adequado para liderar uma entidade de utilidade pública. E uma vez que a sua legitimidade democrática era inquestionável, talvez se deva reflectir também sobre que tipo de pensamento e dinâmicas são cultivadas e partilhadas na militância desportiva.

Há menos de dois meses Maurício (ex-jogador do Sporting) declarou “Quem não tem uma boa visão do Bruno de Carvalho são aqueles que não são sportinguistas. Como sou sportinguista tenho uma impressão boa dele”. Esta afirmação imbecil não é propriamente um acto isolado. Há um conjunto de personalidades mui valorizadas socialmente (a quem os media se costumam referir como “notáveis”) que, de forma mais ou menos explícita, partilharam idiotices de natureza idênticaParece-me que o que realmente importa agora é que Bruno de Carvalho saia de cena. Mas idealmente não seria o único. O facto de pessoas como ele ocuparem o espaço público nacional diz muito mal, não apenas sobre o Sporting e os sportinguistas, mas também sobre Portugal e os portugueses

terça-feira, 27 de março de 2018

Não conheço o Manuel Reis




Vou usar o presente do indicativo. Não conheço o Manuel Reis. Falei com ele três ou quatro vezes. Sei bem quem é mas desconfio que mal saiba quem sou. À luz dos mais idiotas padrões sociais, o Manuel Reis é uma pessoa que fica bem dizer que se conhece. Presumo que por isso mesmo, quando com ele me cruzo, nunca o maço com cumprimentos supérfluos.

Começo pelo que menos importa que, importando pouco, foi o que mais importou para me achar no direito de falar sobre alguém que não conheço. Acho que o Manuel Reis tem estilo. Acho que o Manuel Reis tem pinta. Também acho qualquer uma destas frases um tanto ou quanto estúpida mas acho, de forma objectiva, que o Manuel Reis tem uma identidade visual interessante. E foi seguramente por isso que, algures em 2009 quando o vi na rua, lhe sugeri um retrato. A recordação que tenho desse momento é de uma afabilidade extrema. A maior parte de nós não sabe dizer não. Não sabe rejeitar uma oferta, um convite ou um argumento de forma elegante. Não estou a brincar: é uma dificuldade transversal a muita gente. Claramente, o Manuel Reis não padece desse problema. Porque aquilo que o Manuel Reis fez foi dizer-me, de uma forma igualmente clara, que não estava interessado em ser fotografado (de resto, a sua indisponibilidade em aparecer quando aparecer parece ser o oxigénio de meio mundo, não me é de todo indiferente). Mas não se limitou a rejeitar-me não me fazendo sentir rejeitado. Fê-lo lisonjeando-me. Não recordo as palavras exactas. Mas sei que foram mais que as suficientes para ter percebido que o trato daquele homem é uma espécie de aberração estatística. Por isso, quando ontem li algumas crónicas escritas por pessoas que aparentemente o conhecerão bem, não achei que  tivessem sobrevalorizado o seu cavalheirismo. Alguma coisa este homem tem de singular. Ao ponto de, pelas primeiras vezes, me ter sentido inspirado por um homem que pensei ser homossexual (não conheço o Manuel Reis mas já ouvir falar dele o suficiente; assumo que é gay). Poderá parecer um detalhe irrelevante ou elementar homofobia. Não creio que seja nenhum deles. Admirar um homem gay não é um processo óbvio para quem, entre as coisas pelas quais mais se habitou a admirar num homem, está o gosto pelas mulheres. Quando o Manuel Reis me respondeu, devo ter pensado que poderia ter as mulheres que quisesse. A sobriedade, o tom de voz, os gestos, a expressão verbal. Houve ocasiões na vida em que olhei para um homem mais velho e pensei que gostaria de vir a ser como ele: acho que aquela foi uma delas.

Pelo que tenho lido o Manuel Reis é conhecido por um mar de coisas. Vou falar apenas sobre aquela que estou habilitado a comentar: o Lux. Ao contrário daquilo que foi um dia tradição neste blogue, não vou despender um momento que seja a elogiar o esteta ou o legado que o Lux herdou dessa sua condição. A primeira coisa em que penso quando lembro ambos é outra: que a urbanidade com que me negou a foto é, de alguma forma, a mesma que é promovida no contacto entre quem lá trabalha e quem lá dança. Há um episódio que é particularmente esclarecedor. Na verdade há uma porrada deles mas este é o mais fácil de entender. Disse-me um dia um segurança do Lux: “Na minha vida pessoal não repito as coisas quatro vezes. Aqui pagam-me para dizer as coisas quatro vezes à mesma pessoa”. Alguém que como eu, entrou tantas vezes em discotecas e sabe quanta merda pode acontecer numa pista de dança, entende bem as consequências destas palavras (e quem nunca gostou de sair mas tem acesso ao youtube também). Não sei por exemplo, se o Lux paga atempadamente aos seus fornecedores. Que é algo que também diz muito sobre valores e ética de quem gere um negócio. Não faço puto ideia. Mas permito-me uma expectativa sobre o tema. Porque senti sempre que a realidade do Lux se distanciava de um conjunto relativamente homogéneo de atitudes e comportamentos (entenda-se, práticas merdosas que convergem no desrespeito pelos clientes) fáceis de localizar nas noites de Lisboa e de tantas outras cidades do chamado mundo ocidental. Mais por isso que por tudo o resto que se costuma valorizar numa discoteca, disse algumas vezes que o Lux é a melhor discoteca do mundo. E talvez seja importante lembrar algo tão elementar e tantas vezes esquecido: as discotecas podem ser coisas importantes na vida das pessoas. O Lux foi importante na minha. E com toda a honestidade, e sem pretensão de assinar mais que um simples elogio a um desconhecido, desconfio que as particularidades daquele espaço têm um nome: o nome do tal homem que não conheço.

As pessoas são, mais que tudo, aquilo que são entre os seus íntimos. Mas as pessoas não são apenas aquilo que são nos seus círculos de proximidade. As pessoas são também aquilo que são nos contactos efémeros, nos gestos rotineiros e nas pequenas impressões que deixam àqueles com quem se cruzaram um dia. E por tudo isso, pelo que ouvi dele e dizer sobre ele (e pelas correlações que me permito estabelecer entre umas e outras coisas), tenho dúvidas que o Manuel Reis não mereça mais que este texto


terça-feira, 6 de março de 2018

Observar o OBSERVADOR


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Em rigor, não se trata tanto de estar atento ao OBSERVADOR em particular mas a toda a Comunicação Social. Acontece que, no que ao jornalismo diz respeito, tenho o OBSERVADOR como uma das referências nacionais. Significa isto que acedo a ele mais vezes e que estou mais atento às suas publicações. Mas significa também que espero do OBSERVADOR a mesma transparência que este jornal parece exigir ao governo, a pessoas singulares ou colectivas, empresas públicas ou privadas, clubes ou fundações. Significa que espero que o OBSERVADOR cumpra a lei, respeite o seu próprio estatuto editorial e seja transparente com os leitores.

O que me faz questionar a transparência dos órgãos de comunicação social? Uma coisa à qual se costuma chamar de “conteúdo patrocinado”. Esta expressão tem sido usada para designar peças de natureza comercial ou publicitária que, de forma geral, são produzidas ou co-produzidas pelos mesmos media que as publicam. Note-se que, apesar de alguns órgãos de comunicação social se referirem a estes conteúdos como editoriais, a sua produção e publicação é suportada pelos anunciantes. Infelizmente, a prática comum – contra os belos votos editoriais que se partilham em páginas cheias de palavras bonitas – é a identificação deficiente da natureza promocional destes conteúdos.

A legislação sobre esta matéria – Código da Publicidade, Decreto-Lei nº 330/90 de 23 de Outubro – apresenta uma linguagem simples e acessível.  Segundo o número 1 do artigo 3º (conceito de publicidade), é publicidade “qualquer forma de comunicação feita por entidades de natureza pública ou privada, no âmbito de uma actividade comercial, industrial, artesanal ou liberal, com o objectivo directo ou indirecto de: a) Promover, com vista à sua comercialização ou alienação, quaisquer bens ou serviços; b) Promover ideias, princípios, iniciativas ou instituições”. O número 1 do artigo 8º (princípio da identificabilidade) parece ser ainda mais fácil de entender: A publicidade tem de ser inequivocamente identificada como tal, qualquer que seja o meio de difusão utilizado”.

Este post versa sobre algo tão elementar quanto isto: os órgãos de comunicação social têm o dever deontológico e a obrigação legal de informar as suas audiências sempre que um dado conteúdo é pago por uma outra entidade. Sempre que um artigo deva a sua ideia, concepção ou publicação a um pagamento, patrocínio, apoio, viabilização (ou qualquer outra acção que, de uma forma mais ou menos esclarecedora, se reporte a uma contrapartida financeira) cabe à publicação informar o leitor de forma inequívoca. Porquê? Porque um depoimento pago não pode, jamais, ser confundido com uma opinião independente.

O artigo que me fez rever as práticas dos órgãos de comunicação social foi patrocinado por uma consultora imobiliária. Comprar ou arrendar uma casa é, tradicionalmente, a opção com maior impacto na vida financeira dos portugueses. Dito isto, não lhe parece importante poder distinguir a produção jornalística, do discurso da entidade cuja actividade é promover a compra e venda (ou o arrendamento) de imóveis? E se uma empresa da indústria farmacêutica patrocina um artigo sobre o seu novo medicamento? Não deve ser claro se o texto foi promovido por quem produz ou distribui o fármaco? Não tenho direito a saber se a peça foi escrita por um copywriter ou por um jornalista? E já agora... será que estas duas funções podem ser desempenhadas pela mesma pessoa? O artigo 3º (incompatibilidades) do Estatuto do Jornalista sugere que não. E terá sentido, que actividades semelhantes às de uma agência de publicidade, sejam desempenhadas desde a redacção de um jornal? Que independência pode reclamar esse título no dia em que tiver de questionar, em registo jornalístico, a mesma marca que se habituou a pagar por aquilo que a redação escreve sobre ela? Estejamos a nós a falar de saúde pública ou do último jogo para a playstation: os media têm obrigações perante nós. Estarão a cumpri-las? Acho que é importante assegurar que sim. E se cabe aos leitores tentar educar e sensibilizar os órgãos de comunicação social, cabe às entidades competentes assegurar que estes cumprem a lei.

Neste link está a reprodução exacta e integral da reclamação que dirigi à ENTIDADE REGULADORA PARA A COMUNICAÇÃO SOCIAL no passado dia 1 de Março. Mas termino da forma que comecei: acredito que, mais que uma questão particular do OBSERVADOR, este é um problema da generalidade dos media. Basta aceder ao Google e escrever conteúdo patrocinado para ver os mais ilustres órgãos de comunicação social atropelarem lei e bom senso. Se alguém perder ali umas horas, tenho a certeza que mais reclamações vão surgir. E se isso acontecer, uma coisa é certa: os media vão tornar-se em algo melhor do que aquilo que são hoje. E isso vale muito mais que qualquer hipótese de escrever no OBSERVADOR

(artigo actualizado às 14:58h do dia 7 de Março)