quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

Sara

SaraSara (2)

Conheci a Sara aqui. Por regra as pessoas escrevem-me, seja a dar um feedback ou a pedir uma foto. E quando ando por fora isso parece acontecer ainda com mais frequência e rapidez. Talvez por lhes despertar mais curiosidade, lhes parecer mais exótico ou, quem sabe, por receio de chegarem a casa e encontrarem um link desalinhado ou desprovido de sentido Não foi o caso, a Sara não escreveu. Não fiquei a pensar no assunto mas talvez, quem sabe, se me perguntassem “Zé, da tua última passagem por Milão houve alguém com quem o contacto gostarias de ter ficado e te tivesse escapado?”. E aí talvez eu respondesse “A Sara.. provavelmente a Sara”. Ninguém perguntou nem eu respondi e, confesso, tal questão não me cativou o sono. A verdade é que nos (re)encontrámos virtualmente, pela casualidade mais pura, dias antes de regressar a Milão. Deu-me o seu número e, fez questão de o deixar bem claro, a indicação clara para o utilizar quando por lá estivesse. Mas perdi-o. E foi neste misto de (minha) alegria e (sua) indignação que nos encontrámos de novo (pelo mais absoluto dos acasos) numa esplanada em Brera. Juntei-me a ela e à amiga e ficámos apalavrados para jantar. E assim foi. Fui ter com a Sara e uns amigos à Tratoria Toscana em pleno Corso di Porta Ticinese. E aí, claro está, foram-me apresentadas muitas pessoas das quais, no dia seguinte, já teria dificuldade em lembrar de quem eram ao certo, de onde vinham e que raio ali faziam. Mas houve, para além da Sara, alguém que me fascinou por completo. O Alejandro (que ao contrario do que pele, cabelo e olhos claros poderiam sugerir) é mexicano. Partilhou a casa com a Sara em tempos e, a dada altura dessa noite, comecei também eu a sentir que tinha partilhado com eles casa um dia beneficiando, ainda mais do que qualquer simpatia extrema que nutrissem por mim, daquela confiança desmesurada que nos inspiram aqueles de quem gostamos instintivamente mas sabemos que, dentro em breve, voltarão seu lugar a alguns milhares de quilómetros de distância, levando consigo todas as confidências que lhes achámos por bem fazer. E por isso fiquei a saber detalhes sobre o namorado da Sara e sobre os amores e flirts que o Alejandro já teve. Mas quando conheci o Alejandro não o assimilei no redutora acepção de um “mexicano gay”. Porque o Alejandro não era gay no sentido estrito do homem que se deita com homem. O Alejandro era gay em toda a sua plenitude. No mesmo sentido que aprendi nas aulas de francês do meu 7º ano. Porque não foi esse estrito significado que a minha professora me ensinou. Foi o de alguém sorridente e jovial. Alguém capaz de passar a sua alegria a todos aqueles a quem consegue chegar. Alguém de quem o significado inicial da palavra já nos parecemos todos ter esquecido. E quando me lembrei desse tal significado encontrei uma pessoa alegre em todos aqueles com que me cruzei nessa noite, em todos aqueles que me falaram, sorriram ou tocaram. Em todos aqueles que me receberam, quiseram saber quem eu era, de onde vinha e para onde ia. Porque como escreveu um dia alguém numa das caixas de comentários deste blog “a verdadeira liberdade não é a de se dizer que se gosta de homens ou mulheres, mas a liberdade de se gostar de ambos e se ser inteiramente feliz, sem dicotomias e sem necessidade de nos definirmos como hetero, homo ou lésbicas”. E este comentário (ou o receio por ele) transportou-me para uma crónica que o José António Saraiva escreveu um dia em que parecia temer pelo esbatimento das diferenças de género como se, a revolução de costumes nos conduzisse incontornavelmente para uma condição de andróginos. Não o censuro nem estranho, tivesse eu mais trinta anos e estou certo que tudo isto soar-me-ia tremendamente bizarro. Até porque, para ser completamente sincero, tenho para mim o mais dicotomizado dos mundos entre machos e fêmeas, entre seres rudes e brutos e entes frágeis e doces. Porque entre o meu grupo de amigos basta bebermos um copo para, usando e abusando do vocativo, nos tratarmos todos por “machos”, agarrando uns nos outros com brutalidade, como quem prova ao seu comparsa os elevados níveis de testosterona que tem disponíveis para brindar a mais delicada das fêmeas. Porque sem este mundo dicotomizado não tenho sequer tesão. Mas esse mundo não se sobrepõe ao outro, o humano. E nesse outro apaixono-me, não por mulheres mas, tal qual sugeriu o anónimo das 23:53 do dia 18 de Julho, por pessoas. Pelos meus familiares mais próximos, pelos meus amigos mais queridos e por alguns daqueles que se cruzam comigo sem que tenha tempo de os puxar para junto de mim. E nessa noite, apaixonei-me, para além da Sara, pelo Alejandro também. Bem mais do que pela silhueta feminina com quem haveria de me deitar mais tarde. Porque essa paixão é bem mais importante do que a espiral de líbido desenhada pela minha tesão. Porque esta última, não faz de mim muito diferente de um cão com cio. Porque na manhã seguinte, quando saí daquele apartamento bem decorado e rabisquei o bilhete que em miúdo vi escreverem tantas vezes nos filmes, não era a sua destinatária que levava na cabeça, mas a Sara e o Alejandro. E foi por isso que ontem escrevi ao Alejandro e lhe perguntei se podia escrever também sobre ele. Pelo mesmo motivo que ele me respondeu de volta dizendo que tinha sido a coisa mais lisonjeira que lhe podia ter perguntado. Pelo mesmíssimo motivo que, quando ouvi a Sara dizer que queria tirar umas fotos para começar um blog com uma amiga lhe lembrei “estou ainda por cá amanhã, liga-me quando acordares, fazemos isso num instante”. E fizemos. E agora que está feito, se a Sara me voltasse a perguntar (tal qual o fez naquela esplanada da Corso Garibaldi onde tropeçámos um no outro) “what´s your favourite photo?” eu, muito provavelmente, ter-lhe ia respondido:
- a tua Sara, é a tua fotografia

52 comentários:

Anónimo disse...

Ena pá, Zé, grande foto, lindíssima.

O texto é que é longo demais.

Anónimo disse...

grandes fotos e grande texto. gostei muito. AA

Phil disse...

Adorei a foto...A Sara é muito Gira...

Verduxa disse...

Brilhante!

mauro disse...

Tu és bom...

Loca por tu Ropa disse...

Qué guapa!!!
Sandra.

Ivânia Santos (Diamond) disse...

Mucho guapa :) ehhehe

belo texto!



xoxo*

Cristina Rodrigues disse...

...como compreendo o que dizes, existem pessoas que independentemente do género mexem! Adorei as tuas palavras! E as fotos também!

rosaamarela disse...

BRILHANTE!!!

MT OBG!!!

BOAS FESTAS

I.S disse...

O texto pode ser longo mas isso é porque (e só porque) o sentido de cada palavra é muito grande. É um excelente texto e tocante pela sensibilidade com que abordas os assuntos e a delicadeza e elegância com que falas das pessoas e que nos leva a sentir que as pessoas não são apenas objectos da fotografia, são pessoas com história no sentido literal e puro do que é ser pessoa.
Mais uma vez parabéns, confesso que dificilmente este texto ou um texto futuro irá superar o da "Canadiana vermelha" da tua irmã mas não deixam de estar brilhantes.
Continua...continua sempre, porque és realmente bom naquilo que fazes neste blog.

Anónimo disse...

O melhor que a vida tem é realmente essa possibilidade de nos apaixonarmos por pessoas. Muito boas estas linhas. Estou um bocado confuso, porque normalmente é tida como verdade que uma boa imagem vale mais que mil palavras. Mas sinto-tme tentado a dizer que não há fotografia que possa retratar a brilhante mensagem deste texto. Obrigado, Luis

Lazy Cat disse...

Oh! Parece a Alice No País das Maravilhas, numa versão assim mais para os lados do Beetlejuice.
Fantástica =)

Javier Divisa disse...

Mucha melancolía y belleza veo yo en esas fotos, Me gusta. Abrazos

DG disse...

Zé,

muito bonita a foto. muito forte e inspiradora! aposto que a Sara e o Alejandro (também), ao lerem este post, pensaram: 'valeu a pena. este português é mesmo especial'!

(mais uma vez) adorei o texto e o meu destaque vai para a sua essência: "Pelos meus familiares mais próximos, pelos meus amigos mais queridos e por alguns daqueles que se cruzam comigo sem eu ter tempo de os puxar para junto de mim."

mais uma vez, um grande abraço,
DG

Nessuno disse...

Lembraste-me que na foto anterior da Sara eu teria dito "Este é o sonho". Bem, perante estas duas fotos, isto tem tanto de confirmação como de despropósito..primeiro porque de facto continua a transperecer a ideia de "algo bom demais para ser verdade", por outro porque estas são sem dúvida superiores à anterior. A sensualidade do preto/vermelho pelo qual caem os fios alvos de cabelo no parque outonal.

O texto está esclarecedor. É de facto verdade, às vezes quanto mais rótulos e fachadas se erguem, menos verdadeiro e animalesco é o sentimento.

Somos humanos, para alguma coisa serve.

Nz disse...

A primeira foto é linda de morrer.

www.nzlookbook.blogspot.com
(blog de roupas feitas por mim)

Lu disse...

As fotos são lindas!!! Gostei muito da primeira!!!

Maria Nunes disse...

as fotos são lindas, sim, mas para mim o texto é simplesmente maravilhoso! amei cada frase.
é a primeira vez que espreito este blog, mas vou já adicioná-lo aos favoritos :-)

muito obrigada pelo prazer que me proporcionou ler este texto.

boas festas!
Maria Nunes

Anónimo de 18 de Julho ;) disse...

E enquanto tens tesão pela carne e te apaixonas pelas pessoas e não por géneros, afloras, com a ponta dos dedos, essa liberdade imensa que só nos permitimos nessas epifanias momentaneas. O momento em que sabemos que a liberdade, a nossa verdadeira liberdade, é toda aquela que cabe no sentimento de amor que nutrimos por algo de belo na nossa vida, independentemente de qual o invólucro em que ele se apresente.
E é essa mesma liberdade que nos torna, momentaneamente, felizes.
A androginia é um estado de espírito, a liberdade de rótulos é um estado de alma.
Muito bom texto!
E parabéns pelo teu momento de epifania!

Anónimo disse...

Brilhante! A forma como expões a capacidade de amar "pessoas" e não géneros. A forma como revelas o fenómeno de pessoas que conhecemos durante algumas horas marcarem mais do que outras que nos acompanham uma vida.

Teresa disse...

Um dia gostava de ter a felicidade de me encontrares e de me pedires para me tirares uma foto.

Anónimo disse...

Este blog é mais do que um blog. Continua a escrever. Nao pares porque este é o teu verdadeiro dom. Hefner

Anónimo disse...

As fotografias comportam qualquer um para um imaginário que nem em sonhos surge... A alegria, a dança, o preto abençoado com o tom de vermelho levaram-me a tentar saborear o momento. E soube tão bem que não esperava a enorme surpresa que tive a tentar sugar cada uma das palavras do texto divinal que escreves-te hoje... Transmitiste de maneira sublime a mensagem.
Agradeço-te pelo momento fantástico que me proporcionaste.

ELENA disse...

Estou sem palavras. Um texto maravilhoso, além das fotografias.

;)

Fatima disse...

A SIMECQ-Cultura vem desejar um Feliz Natal e um Novo Ano cheio de saúde, paz e amor.

Sasha disse...

Este texto emocionou-me verdadeiramente. Um dia gostava de ser fotografada por ti, fotografar como tu e escrever como tu. Mas isso seria pedir demais. Limito-me a viajar contigo através das fotos e a conhecer pessoas tão diferentes através dos teus olhos.

Um Feliz Natal, Alfaiate.

Margherita disse...

"Querido Pai Natal, este ano SÓ quero o Alfaiate no sapatinho, ponto."


Tens noção que o meu Natal vai ser
mais felz à pala deste texto? Fucking speechless. . . <3

Fashionista disse...

Que linda foto!!! Uma mulher cheia de elegância!

Janka disse...

Dear Zé,

It's been a year now that I follow your page, and always enjoy the pictures. Recently I started to learn portuguese and I chose this last post as a translation practice, though I had no idea what it is about. I don't say I understood each and every word, but it definetely worth the energy. It was so good to read your lines and follow a similar way of thinking.

Keep on doing this thing
All the best,
Janka

pinguim disse...

É a segunda vez que um texto teu me emociona, pois consegues dizer coisas que muita gente pensa e não consegue exprimir...

E a Sara é linda de morrer...

José María Souza Costa disse...

Continue festejando o seu Santo Natal.
Vim lhe desejar Harmonia e Paz. Tens um blogue Belíssimo. Passei aqui lendo, e observando. E estou lhe convidando a visitar o meu, que por sinal é muito Simplório, e se possível seguirmos juntos por eles. Estarei muito grato esperando por vós lá.
Abraços fraternais e que o Menino Deus, nos proteja, Sempre.

Anónimo disse...

Tens uma capacidade de escrita fantástica. Muito envolvente. Por momentos senti-me em Milão outra vez. Já para não falar das fotos. Parabéns pelo fantástico blog.

http://estemar.tumblr.com/

Tralha do Melhor! disse...

Por ter um blogue fantastico , de textos e fotos magnificos ,espero que goste daquilo que se diz por aqui :http://poupardecorar.blogspot.com/

Continuação de muito sucesso

Anónimo disse...

Lê-se os teus textos e fica-se sempre com a vontade de viver o que tu viveste e de descrever tudo tão bem!

Budymary disse...

E de repente... tudo mudou: Estas fotos da Sara são pura poesia; as palavras tão belas, tão cheias de sensibilidade, complacência e uma elegância difícil de alcançar em terreno tão movediço, que não me permitem desviar o olhar. No final, foram elas que me prenderam e apaixonaram.

Julgo que este foi sempre o objectivo do "Alfaiate" e penso que foi conseguido. Corrija-me se estiver enganada, mas aqui os textos ( pelo menos os mais longos) nunca se pretendeu que fossem uma espécie de "subtitles", mas pelo contrário o prato pricipal.

Parabéns por este maravilhoso texto e pela magnífica foto que o acompanha.


Inês

ana disse...

Adorei a Sara, adoro a maneira como captas as pessoas e o mundo. :)
Adorei o texto, porque é tão verdadeiro e cheio de sentido, porque é assim que devia ser a vida das pessoas: livre de conceitos e preconceitos, livre de apenas se ser humano! :)
Beijinhos e obrigada por um activar de coração! :)

Gone Monteiro disse...

Amei, amei e amei o texto. Honesto, sincero e, acima de tudo, sentido. Só tenho pena de não conhecer esse Alejandro, nem de ver uma foto dele aqui n'O Alfaiate Lisboeta...

Anónimo disse...



Gostei muitissimo do teu texto, obviamente que está muito bem escrito, com o teu cunho de qualidade, já muito caracteristico. A única coisa de que não gostei, foi da maneira como falaste da 'silhueta feminina' com quem haverias de dormir naquela noite! Podias tê-la poupado à desconsideração...E o teu texto continuaria a ser magnífico.

Sou uma verdadeira admiradora das tuas fotas e da tua escrita

1 beijo

Rute

Anónimo disse...

Gosto das Doris e do blogue, mas os textos são confusos e não fazem muito sentido.

Anónimo disse...

Zé:

Grande texto e a Sara é Linda.

Anónimo disse...

Este texto é genial pá! És um grande escritor! Escreve mais. E vou ler! Ant

Lapo disse...

Isto de experimentar drogas aos 30 que devia ter experimentado aos 20 dá nisto...

Rute disse...

O que eu já me ri à conta dos comentários que este post suscitou :)...
Grande texto!!! Isto não posso deixar de dizer

Ana Silva disse...

a mim lembra-me a loirinha dos abba :)

Rafa disse...

Realmente as fotos são lindas...mas só uma questão preciosista: não seria a "Trattoria Toscana"?
Morei 3 anos em Milão e na Porta Ticinese o grande spot é a Trattoria Toscana...:)

riso,patateborchie disse...

beautiful!
beautiful!!

http://risopatateborchie.blogspot.com/2010/12/last-day-of-2010.html

Branco Prata disse...

Olá!

Tenho andado a "espreitar" o teu blog há alguns meses e só te queria dar os parabéns porque é inspirador.

Esta foro, como todas as outras, está linda!

Um dia espero tirar fotos como tu, que retratem as pessoas de forma natural.

Beijinho

Anónimo disse...

it would actually be great to understand what you´ve written about me. hahahah :-) baci from milano

Ana disse...

UAU por tudo...que pena tenho de nao ver uma foto do alejandro.

SL disse...

Quando voltares a Milão volto contigo. Foi lá que me apaixonei.

Anónimo disse...

As fotos da Sara são maravilhosas. A cor, o movimento...

No entanto, não é disso que vou falar. Hoje reli estes últimos posts. Ambos falam de empatia, de amor... Independentemente do género. E é nisso que este blogue é mesmo bom. A contar estórias de pessoas e de momentos. E isso só é possível porque és tu que estás por trás dele.


Cristina P.

FeelingNerD disse...

espetacular :)