domingo, 30 de dezembro de 2018

#YOU TOO?




O caso da suposta violação da jovem americana por Cristiano Ronaldo veio evidenciar ainda mais o que já parecia óbvio. Muito mais que causas, abraçamos dinâmicas sociais e campanhas de marketing. Se forem promovidas por figuras públicas, tanto melhor.

Catarina Furtado, num pretenso rasgo de espontaneidade, conta na RÁDIO COMERCIAL que foi alvo de assédio sexual. Partilhou depois, via Facebook, que nunca havia tocado no assunto «porque de facto nunca calhou» e que queria que a filha e a enteada percebessem que podem dizer não «quando um homem mais velho utiliza o seu “poder” para tentar algo mais». Fica a sensação que a mulher mais bonita da televisão portuguesa usa as redes sociais para levar acabo aquilo que, regra geral, os seres comuns fazem sentados à mesa, no sofá ou à beira da cama dos adolescentes que têm a seu cargo. Se tenho pouco ou nada a ver com o estilo materno que Catarina Furtado adopta, não consigo deixar de experimentar uma certa repulsa pela falta de respeito pela inteligência alheia e, mais grave ainda, pela seriedade e sensibilidade que o tema deveria exigir. Deixa de ser o testemunho ao serviço da causa mas a causa a servir uma máquina de produzir conteúdos às ordens duma estatística detalhada de gostos, comentários e partilhas que serve celebridades, influenciadores mais as filhas e os filhos das mães que os pariram.

Lembram-se dos mesmos seres humanos sensíveis que aplaudiram de pé as mulheres que vieram para a rua expor as suas experiências traumatizantes? São as mesmas jóias de pessoas que agora sugerem, sem grandes reservas, que a norte-americana que acusa Cristiano Ronaldo não passa duma meretriz a quem caberia – sentada num bar ou deitada numa cama – atrair e entreter ricaços. Traduzido por miúdos: sensibilizamo-nos porque alguém propôs o que nunca deveria ser proposto à Catarina e solidarizamo-nos com ela porque se recusou a actuar sob pressão. Mas sabemos bem com que tipo de adjectivos brindamos as miúdas à nossa volta que cedem um milímetro ao que quer que seja. Claro que desse tipo de categorizações Catarina Furtado está a salvo. Para esse enxovalho existem raparigas como a Kathryn Mayorga. Mesmo que, segundo ela, tenha sido violada.

O Cristiano Ronaldo é um dos heróis maiores da história contemporânea nacional. Mas não deixa de ser um gajo como outro qualquer. Mesmo que tanta gente esteja disponível para o ilibar do que quer que seja porque marca 50 ou 60 golos por época ou porque a sua conta de Instagram nos diz que ele é (também) o melhor pai do mundo. Ou que custe a estas pessoas entender que 1) nem todas as fêmeas deste mundo sonham ir para a cama com o Ronaldo, 2) que uma mulher com esse sonho pode, por um qualquer motivo, recusar deitar-se com ele. O mais curioso é que se criou o mito de que a norte-americana esteve 9 anos calada quando, na verdade, apresentou queixa no dia seguinte. Ou se quis ignorar que Cristiano Ronaldo terá escrito, entre outras coisas, que «Ela disse “não” e “pára” diversas vezes». Mas que importa isso? Respondido por um amigo meu: «Zé, ela estava em Las Vegas!». Não estou a sugerir que estes dados provem que Cristiano Ronaldo tenha feito o que quer que seja a Kathryn Mayorga. Estou a afirmar outra coisa muito diferente: que o nosso compromisso com o respeito e a dignidade humana tem, não apenas limites, como sensibilidades e subtilezas diversas consoante as origens da solicitação. E que isso diz muito sobre nós. Tanto quanto as palavras de Catarina Furtado parecem dizer sobre ela.

Já protagonizei figuras mais ou menos edificantes com mais ou menos roupa por cima da pele. Mas nunca pus a pila onde me disseram que ela não podia estar. Respeitar esse mandamento elementar de boa convivência em sociedade não dá direito a Nobel. É apenas algo que eu e todos os outros (Cristiano incluído) temos que respeitar.

O #MeToo está, como qualquer outra coisa partilhada em praça pública, repleto de idiotices e imbecilidades. Mas, a terminar 2018, é importante lembrar o essencial do seu legado e o quão importante é ele poder andar à solta pela dita praça. E quando algum de vós sentir dúvidas sobre o quanto vale aquele hashtag (e toda a vergonha e sofrimento que deu a conhecer), sugiro o seguinte texto: Desorientações com o Me Too, de Maria João Marques no OBSERVADOR. Não tanto pela tesão que dá uma mulher que escreva de forma tão sublime. Mas porque dificilmente alguém escreveria melhor o que ela escreveu. E por favor, alguém o dê a ler à Catarina. E just in case, ao Cristiano também. Eu falo com o meu amigo que nunca foi a Vegas

[este texto foi publicado na crónica YOU TALKING TO ME'? na edição de Dezembro da GQ PORTUGAL]

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

O meu ídolo






















Gosta de futebol? Sim? Note: não perguntei se gosta do Trio D’ataquePlay-offDia SeguinteProlongamentoLiga D’ouro ou de qualquer outro programa que promova sessões de pancada a três cores. Também não perguntei se segue o director de comunicação do seu clube nas redes sociais. Perguntei apenas se gosta de futebol. Nos tempos que correm, em que se passa mais horas a falar sobre as pessoas que falam sobre futebol que sobre a própria modalidade... o meu ídolo é, precisamente, o homem que melhor discorre sobre ela. Não me refiro a nenhum dos senhores que é convidado a ir a um estúdio de televisão, dizer o que for necessário para promover o seu clube e rebaixar os demais. Refiro-me a uma pessoa para a qual, antes do clube, parece estar sempre a paixão pelo desporto. Refiro-me a alguém que ama verdadeiramente o futebol. Porque gostar de bola é mais que saber contar os campeonatos e as finais europeias conquistadas pelo nosso clube. É sentir uma devoção sincera por todos aqueles que – do Di Stéfano ao Ronaldo – contribuíram para os mais belos momentos da sua história. Amar o futebol é saber porque vamos sempre recordar o Panenka, mas lembrar também quem foi o Rik Coppens e o que fez ele com o André Piters. É saber que no dia 22 de Junho de 1986 tiveram lugar, no mesmo jogo e “pela mão” do mesmo jogador, os dois golos mais famosos da história do futebol mundial. O primeiro porque foi efectivamente marcado com a mão. O outro porque é considerado, sem lugar a grandes discussões, o melhor golo de todos os campeonatos mundiais. Marcados por quem? Não tinha dito que gostava de futebol? Gostar de futebol é saber que vale sempre a pena sentarmo-nos a ver um vídeo do Maradona, mas reconhecer que é quase sempre tempo mal gasto levar a sério o que ele tem para dizer. É recordar com carinho as gafes do Gabriel Alves ou as locuções em gíria africana do Jorge Perestelo. Gostar de futebol e da sua história é ter a consciência de que devemos ao Cristiano Ronaldo o facto de já não haver uma pessoa no mundo com dúvidas sobre se Portugal é ou não um país independente.

O meu ídolo tem, aos 40 ou 41 anos, um discurso mais sábio e meticuloso que um octogenário que coleccionou cromos da bola uma vida inteira. O Rui Miguel Tovar – filho de Rui Tovar, um outro apaixonado pela bola – não é apenas o gajo que faz os mais belos retratos do desporto-rei. É um enciclopedista no sentido literal da expressão. Um anormal que memoriza factos, partilha histórias e debita curiosidades. O tipo que põe o Jürgen Kohler a falar do slalon que o João Vieira Pinto fez pela defesa alemã em 1996 (o que teria sido da carreira dele se o Köpke não tivesse conseguido desviar aquela bola para canto?). Um dos poucos homens, num cenário futebolístico cada vez mais bacoco e abjecto, que nos continua a lembrar o quão fantástico é o desporto e o quão bonita é esta modalidade. O gajo que entrevista o Gattuso, os dois maiores Jaimes do futebol português (o Magalhães e o Pacheco), o Mamadu Bobó, o Zagallo (o primeiro dos únicos três homens neste planeta que foi campeão mundial enquanto jogador e treinador), o Menotti o Mikhailichenko o Valderrama ou a Carmizé, a viúva do Yazalde. E é por todas estas coisas que há uns meses, quando percebi que o meu ídolo tinha escolhido o mesmo restaurante que eu para jantar, tive que protagonizar a distinta figura de tanso a que todos os homens comuns se prestam perante os seus ídolos. Ainda invoquei perante a minha mesa, para mitigar a minha condição de otário, um “não sou nada destas coisas, se fosse o Ronaldo nem pousava os talheres”. Nada feito, fui gozado o resto do jantar. Mas a verdade é que agora tenho direito a enviar e-mails ao meu ídolo (e a cujas respostas me esforço por não responder no mesmo dia, para não o maçar em demasia). Falta dizer que este tipo é adepto do emblema rival do clube que, aos 4 ou 5 anos, escolhi para o resto da minha vida. E que foi por causa dele e das suas partilhas, que criei uma conta no Twitter. Porquê? Porque ele trata o desporto como nenhum outro. E a verdade é que, quase tão importante quanto termos o melhor do mundo a jogar à bola, é ter o melhor do mundo a cuidar da sua história. E tal qual o pai do Cristiano, também o pai do Rui o deve olhar lá de cima com um orgulho do caraças

[este texto foi publicado na crónica YOU TALKING TO ME' da edição de Novembro da GQ PORTUGAL]