sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Paris em Lisboa (e um desabafo)

Paris em Lisboa

O Stéphane é parisiense e, depois de se assegurar que não tinha que pagar nada – porque por melhor que me explique em inglês, francês, espanhol ou italiano não há turista que confie num tipo moreno de barba depois de ter feito o trajecto entre o antigo Cinema Condes e o Terreiro do Paço – lá acedeu ser fotografado. É verdade. Entre o Hard Rock Café e a Praça do Comércio parece haver uma espécie de zona franca onde é permitido vender qualquer porcaria a qualquer um que por ali passe. Ali parece encontrar-se o paraíso do mais incauto dos traficantes porque, para experimentar qualquer problema com a autoridade, terá mesmo que tentar vender qualquer coisa... à própria autoridade [não...aparentemente não chega fazê-lo a 5 metros de distância (palavra que não); quanto a oferecê-lo a um agente da autoridade, fica o desafio para um traficante mais audaz]. Num dia como outro qualquer é possível que seja abordado por 5 anormais  o número triplica quando carrego a máquina – para comprar todo o tipo de porcaria que consiga passar por substância ilícita. Aliás... diria até que do ponto de vista sociológico é absolutamente singular o que ali se passa. Tradicionalmente aqueles que vendem droga redobram esforços no sentido de o fazerem da forma mais discreta possível. Ali a dinâmica é de todo a oposta. Tenho aliás que reconhecer um determinado mérito a estes indivíduos. Dirigem-se para uma das artérias com maior movimento (a Rua Augusta é, provavelmente, a sua morada predilecta) dizendo que vendem droga não o fazendo na verdade o que, reconhecimento lhes seja feito, me parece a abordagem comercial clandestina mais inovadora e arriscada de que há memória. Não obstante o meu reconhecimento pelo seu empreendedorismo [e persistência, uma das fraquezas usualmente apontadas às mentes criativas é que desistem aos primeiros percalços; estes indivíduos por sua vez dedicam-se, há já alguns anos e nas mesmas esquinas de sempre, a degradar (com resultados positivos, já vários amigos turistas me interrogaram sobre aquele fenómeno) a boa imagem de Lisboa] tenho que confessar que  ainda não distribuí uma cabeçada num destes trastes que me abordam agressivamente (precisamente: para além de se darem ao luxo de fazerem o que fazem onde fazem, permitem-se também fazê-lo – volta e meia – em tom agressivo) porque: 1º, onde está um estão logo mais dois ou três; 2º, gosto de pensar que no dia seguinte poderei lá passar descansado (a sua coabitação harmoniosa com as autoridades sugere-me que isso não seria possível); 3º, gastei dinheiro de mais na minha máquina para a estragar por causa de uns trastes que andam a burlar turistas (aparentemente o termo burla não é familiar aos agentes de autoridade que já tentei sensibilizar porque, por mais que uma vez, me responderam “como o que vendem não é droga não há nada que possamos fazer”).

Mas ó Stéphane desculpa lá que o que eu te disse foi que isto é um blog onde “je publie des photos des gens dont j´aime le style” e não de pretensa crítica social. E uma das coisas que mais gostei em ti foi, precisamente, não teres uma única peça de roupa que fosse parecida com o que quer que possa encontrar no meu guarda-roupa. A sério. Não uso camisas justas, calças de tons esbranquiçados, sapatos pontiagudos ou relógios rectangulares e, não obstante, todo essa tua ambiência de mosqueteiro do século XXI pareceu-me tremendamente cativante. Resta-me esperar que tenhas um amigo português em Paris (rezam as crónicas que não é difícil) porque, de que me adianta afagar-te o ego, se disso nunca te deres conta?

Mas insisto… fico a fazer figas para que um dia o filho do Sr. Presidente da Câmara tenha necessidade de fazer a Rua Augusta de máquina na mão. Tenho a certeza que, tal triste é o cenário que ali se vislumbra, fosse por brio de chefe do executivo camarário ou amor de pai, as coisas por ali não voltariam a ser o que são hoje. Porque o menos engraçado de tudo isto – sabes qual é Stéphane? – é que, sendo Lisboa a cidade que todos sabemos ser, até parece que estou a exagerar. Mas não estou. O mais grave de tudo é que não estou

25 comentários:

Anónimo disse...

Um Garrell em versão pobrezinha! Quanto ao assédio, cabeçada neles, de facto.

Miguel Duarte disse...

Apenas para reforçar a ideia do Alfaiate, posso afirmar enquanto morador da Baixa que a descrição do problema peca quando muito por defeito e não por exagero. Uma praga. Uma vergonha e uma impunidade que dizem muito acerca do nosso sistema judicial e da segurança na nossa cidade (a juntar por exemplo ao vidro do meu carro que apareceu partido esta semana).

Patrícia disse...

A primeira vez tive medo. Mais 5 passos, e mais um a abrir-me a gabardine com um mostruário de possível droga lá pendurado. Depois achei que a terceira vez no espaço de poucos metros era abuso, e gritei-lhe um "NÃO!".
Dá me vontade de perguntar-lhes se nos acham com cara de drogada barata :P Mas isso já era iniciar um ciclo de conversa que não desejo ter. É uma vergonha o que ali se passa.

Quanto ao Stéphane... gosto de todas as suas peças, mas ia preferir vê-las isoladas, fazendo um outro conjunto. =)

patuxxa disse...

A minha Avó ainda me conta histórias do tempo em que as pessoas vestiam a melhor roupa para ir à Baixa... as senhoras de chapéu e luva branca! Não há palavras que façam justiça a esta decadência inominável...

Anónimo disse...

É triste. Sobretudo por pensarmos que é precisamente nessa zona de Lisboa que estão cada vez mais a surgir hostels que figuram entre os melhores da Europa.
TCM

Isabel I disse...

Um francês atípico , um entardecer à beira-Tejo, um desabafo sobre a decadência da Baixa lisboeta. Estamos um bocadinho melancólicos? ou estamos mesmo chateados?

paula'maria disse...

Bem quanto ao teu desabafo não o consigo entender, infelizmente, talvez. Não conheço essa Lisboa, só a conheço de passagem e um centro comercial... Não obstante aofacto de achar triste e de me sentir envergonhada.

Em relação ao Stéphane estou de acordo com a Patrícia, preferia ver as peças isoladas, a fazer conjunto com outras.

Bom fim-de-semana :)

Fred disse...

Muito bem! O que se passa na Baixa lisboeta é uma vergonha.
abraço
ps-gosto do mosqueteiro

Fred disse...

Com tanta coisa já me esquecia. A fotografia está linda

Anónimo disse...

E já agora, embora não seja a questão fundamental... Dá uma imagem vergonhosa de Lisboa aos turistas que visitam a baixa, o chiado e o bairro alto... A foto está muito porreira, e o Tejo fica ali muito bem, dá-lhe um tom muito poético! Abraço André B

Marta disse...

Bem, devo ter mesmo cara de menina bem comportada porque passei umas 10 vezes na rua Augusta e NINGUÉM me ofereceu o que quer que fosse. Ou talvez seja só distraída...
Quando ao Stéphane... Gosto. De tudo mesmo. Não faz o meu estilo minimamente mas acho que as peças estão bastante bem combinadas, sem exageros.

Anónimo disse...

Adoro a Baixa, mas não suporto a praga de que aqui falamos. Então aqueles sublimes inquéritos que arrancam com logo com um "trabalha em Lisboa?". Lembro-me que a última vez que me fizeram tal pergunta respondi com um tom bem sarcástico "acha?! trabalhar é contra a minha religião! Limito-me a coçar-me". Do outro lado obtive um olhar esbugalhado que, confesso, me deu um gozo enorme. Virei costas e segui o meu caminho...

Caleja disse...

Queres xamon? Queres coca? Haxixe? Pó de Anjo? De arroz? Nheca das minhas unhas que já dão para comer sopa? Chá, café laranjada?

Desculpem lá, mas até é fixe toda essa miscelânea de gente que trabalha e que são puros embaixadores que a melhor bulgária e roménia já não consegue manter no seu país.

O Stéphane até pode ter negado a numerosa oferta de substâncias ilegais que um qualquer Mozer ou Hernâni tomou, oferecido entre um prato de amêijoas à bulhão pato servido no "Barbas", mas, talvez aliado ao facto de ser parisiense, o seu eztílout tem muito a ver com um Carouche.

Anónimo disse...

gosto mais do Sartorialista. no outro dia apanhou aquele tipo do Entourage na rua e nem sabia quem era.

Lisboa na ponta dos dedos disse...

"mosqueteiro do XXI", amei ;-)

elena disse...

Tiene su punto...uhm!

Precis Almana disse...

Há anos que não me oferecem nada e passo onde dizes com muita frequência, há pouco tempo até era diariamente... E olha que até tenho um ligeiro ar hippie (ok, agora usa-se "chique" à frente :-)) Será por ser mulher?

Alexandra Bigotte de Almeida disse...

Blog muito bom! Parabens!

Anónimo disse...

o que eles vendem não é mesmo droga não há nada que possamos fazer

Desculpem lá, mas a partir do momento em que alguém me tenta oferecer a compra de algo ilegal, essa pessoa está a cometer um crime. Está completamente previsto na lei.

Anónimo disse...

Bem visto!! Talvez não abordem tanto raparigas mas rapazes tenho a certeza que sim! Assino por baixo!!!
Miguel Nunes

Dulce Alves disse...

Zé,
sei perfeitamente do que falas.
Já me insurgi a esse propósito várias vezes (vide link abaixo), sobretudo depois de há uns 2 anos atrás uns amigos italianos me alertarem para este sinal decadente que vai corroendo uma zona tão nobre da cidade.(Confesso que ainda lhes perguntei meia dúzia de vezes se não estavam a falar do bairro alto, "que não, que era ali mesmo no meio da Rua Augusta"...)

É vergonhoso que uma zona por onde diariamente passam tantos turistas dê esta imagem do nosso país. O problema da droga é transversal a todos os países, mas o que aqui se torna por demais lamentável é a impunidade que se vê na Baixa/Rossio, onde os polícias nos seus segways são cegos, surdos e mudos...

Valeu a tua foto, como sempre, num branco puro a contrastar com o negro cenário que descreves.


http://lodonocais.blogspot.com/2009/08/onde-para-policia.html

Pri disse...

Minimalismo total!

貝殼戀語 disse...

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disse...

Sou da opiniao que o Stéphane está perfeito assim!

Pure pure
pure white!

É dificil vestir-se no mesmo tom e nao parecer enfadonho.

MAISON CHAPLIN disse...

O Stéphane poderia de facto conjugar as peças com outras de outras cores, mas seria fazer mais do mesmo, e isso não interessa para uma at-street-photo-session. Há que se saber vestir e o Stéphane está muito bem vestido, por usar as peças que usou e na cor que vestiu. Um autêntico aristocrata francês.

@ MaisonChaplin.blogspot.com