quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

O meu ídolo






















Gosta de futebol? Sim? Note: não perguntei se gosta do Trio D’ataquePlay-offDia SeguinteProlongamentoLiga D’ouro ou de qualquer outro programa que promova sessões de pancada a três cores. Também não perguntei se segue o director de comunicação do seu clube nas redes sociais. Perguntei apenas se gosta de futebol. Nos tempos que correm, em que se passa mais horas a falar sobre as pessoas que falam sobre futebol que sobre a própria modalidade... o meu ídolo é, precisamente, o homem que melhor discorre sobre ela. Não me refiro a nenhum dos senhores que é convidado a ir a um estúdio de televisão, dizer o que for necessário para promover o seu clube e rebaixar os demais. Refiro-me a uma pessoa para a qual, antes do clube, parece estar sempre a paixão pelo desporto. Refiro-me a alguém que ama verdadeiramente o futebol. Porque gostar de bola é mais que saber contar os campeonatos e as finais europeias conquistadas pelo nosso clube. É sentir uma devoção sincera por todos aqueles que – do Di Stéfano ao Ronaldo – contribuíram para os mais belos momentos da sua história. Amar o futebol é saber porque vamos sempre recordar o Panenka, mas lembrar também quem foi o Rik Coppens e o que fez ele com o André Piters. É saber que no dia 22 de Junho de 1986 tiveram lugar, no mesmo jogo e “pela mão” do mesmo jogador, os dois golos mais famosos da história do futebol mundial. O primeiro porque foi efectivamente marcado com a mão. O outro porque é considerado, sem lugar a grandes discussões, o melhor golo de todos os campeonatos mundiais. Marcados por quem? Não tinha dito que gostava de futebol? Gostar de futebol é saber que vale sempre a pena sentarmo-nos a ver um vídeo do Maradona, mas reconhecer que é quase sempre tempo mal gasto levar a sério o que ele tem para dizer. É recordar com carinho as gafes do Gabriel Alves ou as locuções em gíria africana do Jorge Perestelo. Gostar de futebol e da sua história é ter a consciência de que devemos ao Cristiano Ronaldo o facto de já não haver uma pessoa no mundo com dúvidas sobre se Portugal é ou não um país independente.

O meu ídolo tem, aos 40 ou 41 anos, um discurso mais sábio e meticuloso que um octogenário que coleccionou cromos da bola uma vida inteira. O Rui Miguel Tovar – filho de Rui Tovar, um outro apaixonado pela bola – não é apenas o gajo que faz os mais belos retratos do desporto-rei. É um enciclopedista no sentido literal da expressão. Um anormal que memoriza factos, partilha histórias e debita curiosidades. O tipo que põe o Jürgen Kohler a falar do slalon que o João Vieira Pinto fez pela defesa alemã em 1996 (o que teria sido da carreira dele se o Köpke não tivesse conseguido desviar aquela bola para canto?). Um dos poucos homens, num cenário futebolístico cada vez mais bacoco e abjecto, que nos continua a lembrar o quão fantástico é o desporto e o quão bonita é esta modalidade. O gajo que entrevista o Gattuso, os dois maiores Jaimes do futebol português (o Magalhães e o Pacheco), o Mamadu Bobó, o Zagallo (o primeiro dos únicos três homens neste planeta que foi campeão mundial enquanto jogador e treinador), o Menotti o Mikhailichenko o Valderrama ou a Carmizé, a viúva do Yazalde. E é por todas estas coisas que há uns meses, quando percebi que o meu ídolo tinha escolhido o mesmo restaurante que eu para jantar, tive que protagonizar a distinta figura de tanso a que todos os homens comuns se prestam perante os seus ídolos. Ainda invoquei perante a minha mesa, para mitigar a minha condição de otário, um “não sou nada destas coisas, se fosse o Ronaldo nem pousava os talheres”. Nada feito, fui gozado o resto do jantar. Mas a verdade é que agora tenho direito a enviar e-mails ao meu ídolo (e a cujas respostas me esforço por não responder no mesmo dia, para não o maçar em demasia). Falta dizer que este tipo é adepto do emblema rival do clube que, aos 4 ou 5 anos, escolhi para o resto da minha vida. E que foi por causa dele e das suas partilhas, que criei uma conta no Twitter. Porquê? Porque ele trata o desporto como nenhum outro. E a verdade é que, quase tão importante quanto termos o melhor do mundo a jogar à bola, é ter o melhor do mundo a cuidar da sua história. E tal qual o pai do Cristiano, também o pai do Rui o deve olhar lá de cima com um orgulho do caraças

[este texto foi publicado na crónica YOU TALKING TO ME' da edição de Novembro da GQ PORTUGAL]

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