domingo, 21 de outubro de 2018

O CHICHI DA KELLY


Cheguei às 12h em ponto. Um toque em cadeia a caminho das Amoreiras havia deitado por terra o plano de chegar dez minutos antes. E, por causa desse imprevisto, já sentia sobre a pele o efeito conjunto do caminhar apressado, do traje formal, dos 30˚C à sombra e do receio de chegar atrasado a uma entrevista de emprego. Apresentei-me à senhora que estava na recepção. Ela agarrou no telefone, anunciou a minha presença e pediu-me que aguardasse. Assim o fiz. Passados alguns minutos volto a aproximar-me e pergunto pela casa de banho. A resposta foi esta:
–  Não temos casa de banho.
Encaixo a resposta, volto a recuar, mas regresso novamente até junto do balcão:
– Permita-me o feedback, parece inacreditável que não tenham casa de banho.
A senhora cuidou de reformular:
– Temos casa de banho, mas é apenas para colaboradores.
Renovei a minha estupefacção e resignei-me à condição daqueles a quem não é permitido usar o WC. A senhora sublinhou que eram as instruções que tinha e eu pedi apenas que fizesse chegar o meu desapontamento a quem quer que lhas tivesse dado. Momentos depois acrescentou:
– Se precisar mesmo pode ir ao café. Posso avisar o consultor...

Poderia discorrer sobre o que significará “precisar mesmo de ir à casa de banho”, ou sobre que responsabilidade social exibe uma empresa que convoca pessoas às suas instalações e lhes indica o café mais próximo quando estas perguntam pelo WC. Mas cinjamo-nos aos factos. Não ando por Lisboa a testar instalações sanitárias. Recebi, de um consultor da Kelly Services, uma mensagem via LinkedIn, um telefonema, um convite para uma entrevista e uma confirmação via e-mail. Estamos a falar de uma multinacional que, segundo ela mesma, «é a quarta maior empresa de Gestão de Recursos Humanos do mundo». Estamos a falar de uma entidade respeitável, com sede nacional num imóvel imponente (o mesmo onde foi solicitada a minha comparência), e cuja operação passará por convidar, diariamente, dezenas e dezenas de pessoas a visitar a sua dúzia de agências em Portugal. Estamos a falar de uma empresa cujo objecto do seu trabalho são as pessoas e os seus atributos. E para ser o mais objectivo possível, estamos a falar de uma empresa que, naquela data e local, não respeitou as necessidades mais primárias de qualquer ser humano.

Não creio que seja necessário elencar os imperativos pelos quais o nosso organismo se rege ou enfatizar que nem sempre nos é permitido protelar uma ida à casa de banho. Que fazemos chichi e cocó com mais frequência quando estamos nervosos ou que, como tão bem se saberá numa empresa de recrutamento, muitos de nós ficam mais tensos quando são avaliados. Parece-me desumano negar o acesso a um WC a alguém que se convida para uma entrevista de emprego. E mesmo que, como quero acreditar, este episódio seja mais culpa de alguém em quem se depositou mais responsabilidades do que seria aconselhável (o que abona pouco a favor de quem recruta em nome de terceiros) que de alguma cultura corporativa, é interessante constatar o seguinte: a menos de 100 metros da sua sede, há um outdoor da Kelly com a inscrição THE BEST TALENTS ARE LIKE STARS (os melhores talentos são como estrelas). Pode até questionar-se a tradução mas há duas ideias que ganham forma: nem os corpos celestes que a Kelly Services recruta precisam de ir à casa de banho, nem o marketing parece responder por algumas das suas acções. E pensando bem: que melhor pessoa para faltar ao respeito, que àquela cuja situação não permite fazer reivindicações, sob pena de se poder prejudicar? Porque é disso que esta crónica trata: da facilidade com que uma parte tira partido do poder sobre a outra e como se permite desrespeitá-la.

Quando o consultor apareceu, expliquei que não faria uma entrevista num local onde se exibia tamanho desrespeito pela condição humana. Como não mencionou qualquer mal entendido deduzi que, quando a senhora da recepção sugeriu que me dirigisse ao café mais próximo, estaria genuinamente a tentar ajudar. Espero que esta crónica seja um win win. Para mim, porque a forma como o Homem trata o seu semelhante é sempre um tema importante. Para a Kelly, porque o gigante mundial da gestão de recursos humanos pode, com toda a certeza, cuidar bem melhor daqueles que justificam as suas receitas.

[este texto foi publicado na crónica YOU TALKING TO ME' que assinei no número de Outubro da GQ PORTUGAL]

5 comentários:

Anónimo disse...

É inacreditável!!! Como é que é possível?!?! Isto faz-me sentir nojo das pessoas e vergonha alheia!! Que vergonhoda empresa e que vergonhosos colaboradores!!

Anónimo disse...

Trabalhei numa loja da marca komono - óculos de sol - e não havia WC. Imagine que nem direito tinha aos 15 minutos de intervalo porque era a única funcionária da loja. Por extrema necessidade aguentei 3 meses. Hoje envergonho-me de ter compactuado com essa situação.

Sandra Marques de Paiva disse...

O que dizer? Que o desrespeito por outrém e em qualquer vertente é, facto, situação usual que se vai tornando normal. Estamos a regredir cada vez mais!

Sara Teixeira disse...

Excelente ��

Anónimo disse...

Então e deixaram-te ir à casa de banho ou tiveste mesmo que ir ao café?