sexta-feira, 27 de julho de 2018

Talvez o Trevor Noah seja menos esperto do que julgue. Talvez eu seja menos racista do que pareça




Nota introdutória
Se a utilização de termos como “preto” ou “preta”, em alternativa a expressões como negro”, “negra” ou “de cor” o deixam desconfortável, é previsível que considere este texto racista. Dito isto, não deixa de ser curioso que quando nos reportamos ao contexto norte-americano, o mais mediático em matéria de segregação racial, sejam as expressões “colored” e “nigger” (esta última deriva precisamente do português e espanhol “negro”) a dar corpo a conotações depreciativas. Por cá parece ter ficado consagrado que o termo depreciativo é também o mais prosaico de todos: “preto”. O mesmo termo que a maioria dos portugueses usa quando comunica consigo mesmo, ou seja, quando faz algo tão simples e espontâneo (e a salvo de qualquer censura alheia) quanto pensar.


A cor dos campeões, a discriminação e a preferência
O trabalho do Trevor Noah é assegurar que o THE DAILLY SHOW tem graça. Na semana passada o apresentador proclamou no seu programa que África havia ganho o campeonato do mundo.


Discordo em absoluto, como acusaram alguns pretos e muitos brancos, que a piada do Trevor Noah seja racista. Mas parece-me claro que sugere que africanos e seus descendentes por todo o mundo apoiaram a selecção francesa porque a maioria dos seus jogadores são pretos. Estou perfeitamente confortável com isso. E estou também pouco convencido de que seria necessário o Embaixador francês nas Nações Unidas enviar uma carta ao apresentador sul-africano a explicar aquilo que não carece de explicação: porque é que aqueles jogadores são franceses. A única coisa que o diplomata parece ter conseguido foi sujeitar o seu país e os seus compatriotas ao gozo e à critica (quanto a mim, nem sempre com a honestidade intelectual desejável) em pleno horário nobre da TV norte-americana. Mas a primeira questão é esta: as nossas preferências pessoais não devem ser confundidas com actos de discriminação. O Trevor Noah tem todo o direito em simpatizar com a selecção francesa porque a maioria dos jogadores são pretos ou por qualquer outro motivo, muito ou pouco relacionado com raça. O que talvez importe lembrar é que a mesma lógica se aplica à minha vontade de torcer, numa final olímpica dos 100 metros ou 10 000 metros, pela vitória de um atleta sul-africano pelo simples facto de ele, como eu, ser branco.

Há dias, quando discutia a qualidade dos argumentos do Trevor Noah e dizia uma coisa tão simples quanto “ele simpatiza com os franceses porque são pretos” uma amiga (branca) sugeriu que a minha afirmação lhe parecia racista. Decidi lembrar-lhe (deve ter-me parecido a derradeira prova da minha condição de “não racista”) que estava a dizer aquilo a alguém que poderia perfeitamente ter um “filho preto”. A resposta foi pronta: ela também não descartava a hipótese de adoptar uma “criança negra”. Este momento hilariante talvez diga algo sobre parte do racismo que ainda subsiste: aquele pelo qual as próprias pessoas que o reproduzem não se dão conta (ainda assim reconheça-se, bem menos cruel que outras modalidades). Quando falo em ter um filho preto penso em amar uma preta e fazer aquilo que, genericamente falando, gosto de fazer com mulheres, em particular com aquela por quem me apaixono. A polidez da minha amiga não lhe permite falar “em equipas de pretos” mas a percepção de ter um filho preto, transporta-a imediatamente para um cenário de adopção. Por outro lado, como ela alertou: o facto de não se imaginar com pretos pode ser apenas uma preferência que se junta a tantas outras, como não se sentir atraída por homens baixos. E de repente, aquilo que descrevi categoricamente há meia dúzia de linhas como racismo, talvez não o seja. Não se combate o racismo depreciando uma série de preferências pessoais que belisquem o artificialismo consagrado pelo pensamento politicamente correcto. E enquanto continuarmos a despender tempo a ofendermo-nos com o termo “preto” ou benzermo-nos cada vez que é contada uma anedota sobre o mesmo preto estamos claramente a falhar o caminho. Quando digo que o “João é o preto” estou apenas a esforçar-me por que se perceba a que João me estou a referir. Da mesma forma que, numa conversa sobre a selecção francesa, a forma mais simples de descrever o Giroud é “o branco que joga lá à frente”. Não sou seguramente a pessoa mais autorizada a definir o que é, ou onde começa e termina o racismo. Mas deste leque de definições propostas por não brancos, que o PÚBLICO publicou no Verão de 2016, aquela que Albertino Bragança deu parece-me de longe a mais lúcida e objectiva: “Quando se fala de racismo a palavra vem de raça, né? De raça... Há duas raças em presença e, tudo aquilo que impede um dos lados de usufruir do espaço que devia ser comum... tendo como base a cor da pele, é racismo... completo”.

Conto anedotas de pretos com a mesma naturalidade que me rio de louras ou de alentejanos. Sei que nem alentejanos nem louras foram sujeitos a séculos de abusos mas será que é a promover e instituir sensibilidades diferenciadas que vamos eliminar os mesmos tratamentos diferenciados que definem o racismo e caracterizam a sua expressão? É a deixar de brincar que vamos incluir? É a erradicar a palavra “preto” que vamos combater as injustiças sociais que ainda decorrem de tratamentos desiguais entre “brancos” e “não brancos”? A forma imbecil como, em Portugal, agentes políticos e media tratam o racismo vai continuar a reproduzir o estado actual das coisas. No espaço público os pretos serão retratados em terminologias cada vez mais “african friendly”. No espaço privado, continuarão a não ser bem-vindos em casas de muitos brancos e a ser preteridos em contextos profissionais, sempre que não exista a perspectiva de responder a uma motivação politicamente correcta ou de retirar uma vantagem financeira da exploração de algum recurso natural oriundo do continente africano.

(e quando o Trevor parece baralhar tudo...)
Acho mesmo que o Trevor Noah presta um mau serviço ao combate à discriminação racial quando diz (o PÚBLICO optou por traduzir “nigger” por “preto”): “O contexto é tudo. Há coisas que algumas pessoas podem dizer. Há uma grande diferença entre eu dizer ‘então, preto?’ e um branco dizer ‘então, preto?’ Quando digo que eles são africanos não o estou a fazer para excluir mas para os incluir na minha africanidade”. Parece-me que o motivo mais provável pelo qual um “preto” trata outro “preto” por “preto” não se prende tanto com a inclusão de uma dada africanidade mas com a percepção, mais ou menos consciente, de que aquele atributo que têm em comum, é também o motivo pelo qual são ou foram discriminados. É óbvio que isso os une de alguma forma. Mas eles não escolheram essa união, o establishment empurrou-os para ela. Os guetos não se formaram para celebrar a africanidade ou qualquer outro tipo de identidade regional. Um preto trata outro preto por preto pelos mesmos motivos pelos quais, tantas vezes, é obrigado a viver em sítios onde vivem apenas outros pretos. Talvez o Trevor Noah pudesse pensar melhor sobre o assunto. E reflectir se condicionar o que uns e outros podem ou não dizer sobre um mesmo tema é combater o racismo. Ou uma tentativa de promover uma sensibilidade pessoal a artigo da constituição. E isso é quase tão estúpido e intolerante quanto maltratar em função da raça. Cheguei a temer, a dada altura, que este comediante sul-africano sugerisse uma espécie de apartheid humorístico, segundo o qual apenas a um preto fosse permitido rir ou contar anedotas sobre pretos.


De volta a França
Agora em 2018, como antes em 1998, as pessoas parecem algo surpreendidas por a selecção nacional francesa ter tantos pretos (ou não brancos). Questiono-me se essas mesmas pessoas têm tido a oportunidade de viajar até ao país mais visitado no mundo. É que das últimas vezes que passei por Paris ou outras cidades francesas (admito que essa realidade seja diferente nas zonas rurais, de resto à imagem do que também sucede em Portugal ou Inglaterra) não vejo apenas brancos. A ideia de que França é um país branco é uma perfeita idiotice. E nesse sentido podíamos até discutir se o humor do Trevor Noah terá sido sequer inteligente (o que não invalida que tenha tido graça). Se em França se promove ou não esta ideia de diversidade? Não sei. Uma coisa parece clara: até dia 15 de Julho parte do mundo (aparentemente, Trevor incluído) continuava convencido de que a França é essencialmente branca.


O caso português
No nosso pais não há campanha de natureza institucional, politica ou comercial que não tenha um não branco o que, na maior parte das vezes, significa ter pelo menos um preto. Desconfio que, mais que por qualquer sentido de fidedignidade para com realidade portuguesa, se percebeu que esse seria o melhor caminho para obter, em alguns casos mais votos, em outros mais vendas. Se recordar alguns dos cartazes eleitorais do Partido Socialista, durante a campanha para as eleições legislativas de 2015, é bem possível que concorde que António Costa apresentava um tom de pele mais claro. Terão sido apenas as doses habituais de maquilhagem e Photoshop? Talvez sim. Ou talvez não.

Às vezes fica em a sensação que, em Portugal, o racismo é definido em torno das subtilezas do "negro" e da "pessoa de cor". Enquanto isso, atitudes e comportamentos verdadeiramente dolosos para abolição de diferenças no tratamento entre "pretos" e "brancos" continuam a passar por baixo da mesa. Imagine o cenário: o condutor da frente faz um daqueles disparates monumentais que coloca em risco a segurança de todos aqueles que se encontram à sua volta num raio de 20 ou 30 metros. E digo, mais alto ou mais baixo e com maior ou menos irritação: “idiota de merda”. Imagine agora que o gajo tem um cachecol do Sporting. É bem provável que eu (adepto benfiquista) me refira a ele como “lagarto de merda”. Parece-me claro que não estou a sugerir que sportinguistas não cumprem o Código da Estrada. Quando nos queremos afastar de alguém (porque não gostamos da pessoa, porque estamos chateados com ela ou discordamos da forma como pensa ou age), trate-se de um perfeito estranho ou do nosso irmão gémeo, tendemos sempre a valorizar os atributos que nos distinguem. Dito isto, se for um preto (estou consciente que “um condutor preto” lhe soaria um pouco menos mal; sucede que não estou aqui para lhe proporcionar qualquer tipo de conforto mas, precisamente, para lhe sugerir que o questione) é possível que grite “preto de merda”. E uma vez mais, não estou a promover qualquer sentimento específico sobre um hipotético desrespeito dos pretos pelo Código da Estrada nem nenhum outro ódio generalizado. E da mesma forma que não me incomodaria fazer coisas tão distintas quanto casar com uma sportinguista ou contratá-la para trabalhar comigo, o mesmo se aplicaria também a uma preta (bem como, se me é permitido o exemplo imbecil, a uma preta do Sporting). Não nego que há expressões mais hostis que outras e que cada um tem direito às suas susceptibilidades (e que podemos e devemos tentar atender a elas). Nem que insultar automobilistas ao volante não é o melhor momento para educar os filhos. O que as próximas gerações precisam é que se lhes ensine que a cor de pele não importa. Mas não é não importar, de forma selectiva e artificial, para este ou aquele efeito. É não importar para nada.

Um dia, um amigo que se casou com uma indiana, fez questão de me explicar que caso a sua mulher fosse preta a sua família dificilmente aprovaria a união. Mas o que é verdadeiramente curioso é que ele não estava apenas a descrever o degradée de susceptibilidades raciais que caracterizam a sua consciência familiar. Mais que qualquer outra coisa, ele parecia fazer questão de assegurar que eu entendia que o seu clã mantinha – de acordo com a sua percepção de “família de bem” – os mesmos valores de sempre. E o que talvez importe lembrar é que, porventura, em muitas reuniões de (“boas”) famílias por esse Portugal fora, a ostentação do preconceito e do tratamento diferenciado com base na etnia (e em muitas outras coisas) é sinal de pedigree. O discurso da inclusão perde sempre – na esfera privada  o braço de ferro com a tradição, esse valor absoluto que serve de desculpa para quase tudo, incluindo discriminar semelhantes. E o mais provável é que muitas destas pessoas estejam mais que à altura das exigências do espaço público. Já eu... não me surpreenderia que alguns dos pretos que me são mais queridos ficassem lixados com boa parte do que escrevi hoje

2 comentários:

Kodak Khrome disse...

Pessoa de cor é RACISMO

nobackdown disse...

DISPARATE TOTAL !!!!