terça-feira, 6 de março de 2018

Observar o OBSERVADOR


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Em rigor, não se trata tanto de estar atento ao OBSERVADOR em particular mas a toda a Comunicação Social. Acontece que, no que ao jornalismo diz respeito, tenho o OBSERVADOR como uma das referências nacionais. Significa isto que acedo a ele mais vezes e que estou mais atento às suas publicações. Mas significa também que espero do OBSERVADOR a mesma transparência que este jornal parece exigir ao governo, a pessoas singulares ou colectivas, empresas públicas ou privadas, clubes ou fundações. Significa que espero que o OBSERVADOR cumpra a lei, respeite o seu próprio estatuto editorial e seja transparente com os leitores.

O que me faz questionar a transparência dos órgãos de comunicação social? Uma coisa à qual se costuma chamar de “conteúdo patrocinado”. Esta expressão tem sido usada para designar peças de natureza comercial ou publicitária que, de forma geral, são produzidas ou co-produzidas pelos mesmos media que as publicam. Note-se que, apesar de alguns órgãos de comunicação social se referirem a estes conteúdos como editoriais, a sua produção e publicação é suportada pelos anunciantes. Infelizmente, a prática comum – contra os belos votos editoriais que se partilham em páginas cheias de palavras bonitas – é a identificação deficiente da natureza promocional destes conteúdos.

A legislação sobre esta matéria – Código da Publicidade, Decreto-Lei nº 330/90 de 23 de Outubro – apresenta uma linguagem simples e acessível.  Segundo o número 1 do artigo 3º (conceito de publicidade), é publicidade “qualquer forma de comunicação feita por entidades de natureza pública ou privada, no âmbito de uma actividade comercial, industrial, artesanal ou liberal, com o objectivo directo ou indirecto de: a) Promover, com vista à sua comercialização ou alienação, quaisquer bens ou serviços; b) Promover ideias, princípios, iniciativas ou instituições”. O número 1 do artigo 8º (princípio da identificabilidade) parece ser ainda mais fácil de entender: A publicidade tem de ser inequivocamente identificada como tal, qualquer que seja o meio de difusão utilizado”.

Este post versa sobre algo tão elementar quanto isto: os órgãos de comunicação social têm o dever deontológico e a obrigação legal de informar as suas audiências sempre que um dado conteúdo é pago por uma outra entidade. Sempre que um artigo deva a sua ideia, concepção ou publicação a um pagamento, patrocínio, apoio, viabilização (ou qualquer outra acção que, de uma forma mais ou menos esclarecedora, se reporte a uma contrapartida financeira) cabe à publicação informar o leitor de forma inequívoca. Porquê? Porque um depoimento pago não pode, jamais, ser confundido com uma opinião independente.

O artigo que me fez rever as práticas dos órgãos de comunicação social foi patrocinado por uma consultora imobiliária. Comprar ou arrendar uma casa é, tradicionalmente, a opção com maior impacto na vida financeira dos portugueses. Dito isto, não lhe parece importante poder distinguir a produção jornalística, do discurso da entidade cuja actividade é promover a compra e venda (ou o arrendamento) de imóveis? E se uma empresa da indústria farmacêutica patrocina um artigo sobre o seu novo medicamento? Não deve ser claro se o texto foi promovido por quem produz ou distribui o fármaco? Não tenho direito a saber se a peça foi escrita por um copywriter ou por um jornalista? E já agora... será que estas duas funções podem ser desempenhadas pela mesma pessoa? O artigo 3º (incompatibilidades) do Estatuto do Jornalista sugere que não. E terá sentido, que actividades semelhantes às de uma agência de publicidade, sejam desempenhadas desde a redacção de um jornal? Que independência pode reclamar esse título no dia em que tiver de questionar, em registo jornalístico, a mesma marca que se habituou a pagar por aquilo que a redação escreve sobre ela? Estejamos a nós a falar de saúde pública ou do último jogo para a playstation: os media têm obrigações perante nós. Estarão a cumpri-las? Acho que é importante assegurar que sim. E se cabe aos leitores tentar educar e sensibilizar os órgãos de comunicação social, cabe às entidades competentes assegurar que estes cumprem a lei.

Neste link está a reprodução exacta e integral da reclamação que dirigi à ENTIDADE REGULADORA PARA A COMUNICAÇÃO SOCIAL no passado dia 1 de Março. Mas termino da forma que comecei: acredito que, mais que uma questão particular do OBSERVADOR, este é um problema da generalidade dos media. Basta aceder ao Google e escrever conteúdo patrocinado para ver os mais ilustres órgãos de comunicação social atropelarem lei e bom senso. Se alguém perder ali umas horas, tenho a certeza que mais reclamações vão surgir. E se isso acontecer, uma coisa é certa: os media vão tornar-se em algo melhor do que aquilo que são hoje. E isso vale muito mais que qualquer hipótese de escrever no OBSERVADOR

(artigo actualizado às 14:58h do dia 7 de Março)

7 comentários:

Anónimo disse...

Claro conflito de interesses. E aposto que a comunicacao social nao pega neste texto..

Anónimo disse...

Pertinente a questão dos conteúdos patrocinados mas não me parece que seja o pior que vai acontecendo na generalidade da CS portuguesa.

A dada altura do seu artigo afirma:
"Porque um depoimento pago não pode, jamais, ser confundido com uma opinião independente"

Significa isto que um colunista regular de um jornal, com um qualquer vínculo salarial (à linha, ao artigo, semanada, whatever...) por ser pago não tem opinião independente?

Mantem o que escreveu ou tratou-se de uma excitação?

Anónimo disse...

Apesar de concordar em parte que há exageros, os meios têm de se sustentar, e de momento não é nada facil, e isso ve-se pela quantidade de meios a fechar. Há ordenados, despesas astronomicas etc que têm de vir da publicidade, já que o consumo é cada vez mais quase só gratuito. Há uma linha muito tenue entre aquilo que é pago, aquilo que é conteúdo disponibilizado pelas agências de comunicação (Vulgo Assessoria de Imprensa) e que poderá ou não ser aproveitado como notícia, e ainda a notícia feita por jornalista. E desengane-se quem acha que as notícias são todas escritas por Jornalistas porque não o são. Com a falta de recursos atuais em grande maioria das publicações, as marcas/agências de comunicação em representação das marcas e empresas, têm o papel de suportar, arranjar conteúdo do interesse dos leitores etc, cabe ao jornalista fazer a filtragem de acordo com os estatutos editoriais de cada meio.

Carlos lacerda disse...

É estranho que tenha o Observador como referência jornalística nacional, dado que o jornal tem uma agenda ideológica descarada.

Dulce disse...

Gabo-te o trabalho em redigir e fundamentar a (pertinente) queixa, mas... "nada de novo".

Todos os dias vejo notícias com claro pendor comercial e muito pouco jornalístico. Não é preciso ser na NIT, Time Out e outras publicações que se dizem "com raiz jornalística" mas que estão longe de fazer jus a isso. A sua parcialidade é tão notória que o mais iletrado percebe que ali se vendem restaurantes, hotéis e a marcas de roupa (que gritam «compra» e até fazem prognósticos como "esta peça é tão XPTO que vai esgotar").

O Observador tem verdadeiros (e meritórios) conteúdos jornalísticos, mas ainda assim não foge à (quase)regra; e é pena que o faça de uma forma algo descarada. Ao folhear a revista que editaram no final de 2017 dei com uma página inteira de publicidade ao departamento de fotografia do ECI e nem uma pequena menção a conteúdo patrocinado/brand story/publirreportagem/whatever.

Essa sub-marca "Observador LAB" surge provavelmente para tornar mais clara a índole desses conteúdos, mas duvido que uma mera etiqueta com essa denominação esclareça um leitor ávido de conteúdos que o que está é a consumir mera publicidade, ainda que com uma apresentação 'gourmet'.

Anónimo disse...

Mas quem é que tem o Observador como referência? Ganhem juízo!

José Cabral disse...

Obrigado pelo feedback; vou tentar responder a todos

Anónimo #1
Sim, acho que há um claro conflito de interesses.

Anónimo #2
Parece-me que o exemplo das crónicas não é feliz. A remuneração de um cronista não é um depoimento pago. A transacção acontece com base na expectativa que o jornal tem em receber um texto pessoal interessante ou que vá de encontro aos gostos dos seus leitores, etc...
Um depoimento pago é uma expressão que se explica a si mesma: acontece quando alguém recebe indicações (e algo mais) para depor ou testemunhar de uma forma particular (relativamente a uma situação, ideia, causa, marca ou produto)

Anónimo #3
A sobrevivência de um órgão de comunicação social é um desafio enorme, sobre isso não parece haver dúvidas. Mas não estou a ver em com o é que isso pode legitimar a ilegalidade...
Um jornal que promova a honestidade para com os leitores arrisca-se, neste contexto, a ser menos atractivo para os anunciantes. Acho que é precisamente por isso que o regulador (o feedback dos leitores também pode actuar como um mecanismo de regulação informal...) pode ser importante para “tabelar” os comportamentos dos media pelo cumprimento dos pressupostos legais e deontológicos

Carlos Lacerda
Acho que não faz falta que diga que nem tudo o que acontece no OBSERVADOR é perfeito: caso contrário não teria apresentado uma reclamação à ERC. Mas acho que o OBERVADOR – e digo-o com a mesma convicção com que lhe posso dirigir críticas – reúne alguns dos melhores trabalhos jornalísticos portugueses da actualidade.

Dulce
Tão inútil quanto desconhecer é não reagir. No meu entender é um “nada de novo” que se arrasta há demasiado tempo. E compromete muita coisa. Uma delas desde logo: o capital democrático de uma sociedade. Quanto à submarca... e com todo o respeito pela tua opinião... não lhe consigo reconhecer esse mérito (de tornar mais claro o que quer que seja)